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Gente nas ‘drobas’ das montanhas


Por LEONARDO TOLEDO

03/12/2011 às 07h00

Entre as dobras das montanhas contempladas pelos turistas na Serra de Ibitipoca, escondem-se histórias e um estilo de vida que parece inverossímil nos tempos atuais. O antigo modelo de ocupação da região, baseado na agricultura e na pecuária, resiste em pequenas propriedades e no jeito simples das famílias que habitam seu entorno. A criação do Parque Estadual de Ibitipoca, na década de 1970, incrementou o turismo nas imediações e deu início a um inevitável processo de transformação no cotidiano dessas pessoas. O documentário Ibitipoca – Droba pra lá dá voz a essa gente e mostra fatos e causos que esses moradores têm para contar. Dirigido por Felipe Scaldini, o filme encerra a programação da décima edição do Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercorcidades, com exibição hoje, às 20h, no Espaço Alameda de Cinema.

A região está mudando muito, e era necessário registrar esse momento antes que essas comunidades deixassem de existir, explica o diretor, que percorreu os recantos da Serra de Ibitipoca sob as coordenadas da produtora Rita Viana, frequentadora da região. A experiência de Rita, aliás, mostrou-se especialmente rica para o filme, por transcender a mera visão turística do local. Nos 20 anos em que tem visitado o parque, a produtora cultivou o hábito de percorrer os arredores da serra e fazer amizade com seus moradores. Com isso, descobriu a hospitalidade de pessoas que ainda recebem forasteiros para uma prosa, um café ou mesmo um pernoite, sem medo de abrir as portas de casa. Além de ir ao parque, sempre gostei de visitar as pessoas, ouvir os casos, conta. O conhecimento da Rita foi muito importante, porque ela conseguiu identificar as pessoas certas para serem ouvidas de acordo com o argumento proposto, elogia o diretor do filme.

Com a proposta de dar visibilidade a esse estilo de vida, a equipe formada por Scaldini, Rita, o assistente de fotografia Carlos Staico e a produtora executiva Carol Vieira subiu a serra em busca de trajetórias de vida que se entrelaçam com a própria história de Ibitipoca. No total, foram 40 dias de gravação entre estradas empoeirada, subidas íngremes, dias de chuva, mas também muita receptividade das pessoas entrevistadas. Fiquei surpreso de ver como as histórias de vida daquelas pessoas é rica, algo que a gente não imagina, conta o diretor.

Apesar da concepção antropológica do documentário, as belezas de Ibitipoca não deixam de estar presentes, mas passam da condição de protagonista para cenário. As histórias dos moradores dão conta de um passado que poucos frequentadores da região conhecem. Antes da criação do parque, a área hoje destinada ao turismo era utilizada como pastagem coletiva. Depois disso, o gado retirado da região teve que ser levado para campos agrícolas, reduzindo as áreas cultiváveis das famílias. Em contrapartida, o turismo passou a ser uma das principais fontes de renda dos habitantes do entorno.

O filme mostra a desolação de lugares que parecem ter data marcada para acabar, caso do distrito de Mogol. Sem perspectivas, os moradores mais jovens estão deixando o local, enquanto os mais idosos já não encontram mais forças para manter as antigas lavouras. Apesar de mostrar as dificuldades, o documentário não economiza em bom humor, a partir dos muitos causos contados pelos moradores da região. Do jeito peculiar de falar dessas pessoas, surge o subtítulo do filme, Droba pra lá, uma frase recorrente entre as indicações dos moradores para se chegar ao outro lado das montanhas.

Muito além do turismo

A narrativa do documentário toma como referência o Pico do Pião, um dos pontos mais altos da Serra de Ibitipoca. A partir desse ponto, o filme percorre a região dos pontos mais ermos – alguns com dificuldades estruturais e outros onde a modernidade já chegou com mais força, mais próximos da vila de Conceição do Ibitipoca.

Para Rita Viana, o grande mérito da produção está na visibilidade que confere a pessoas que são, muitas vezes, ignoradas. Os turistas chegam à região, impõem seus costumes e mal olham para os moradores locais. Acho que o grande lance desse filme é poder dar o respeito que essa gente merece e, ao mesmo tempo, gerar uma oportunidade para que os espectadores conheçam essas pessoas.

Feito com recursos da Reserva do Ibitipoca, o filme teve uma exibição prévia para convidados em abril. Recentemente, a equipe recebeu recursos da Usiminas. Segundo Scaldini, a verba será investida em melhorias na finalização do documentário. Nesse processo, a produção – de 71 minutos – pode ganhar novas cenas, pinçadas das muitas horas de gravação captadas pela equipe.

A versão que será exibida hoje, no Primeiro Plano, é a mesma selecionada para o Festival de Paulínia, que vem se consolidando como um dos principais do país. Não bastasse a aprovação no crivo dos curadores do evento, o documentário foi aplaudido três vezes pelo público. Scaldini destaca, ainda, a oportunidade de receber feedback da crítica especializada, conquistando elogios.

A distribuição também é um dos pontos capitais nessa nova fase do filme. Além de garantir o lançamento em DVD, o diretor quer a distribuição em circuito comercial, com lançamento em Juiz de Fora, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Sei que é uma etapa difícil, mas acredito que há espaço. Nesses centros, existem lugares com público cativo para esse tipo de filme.