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O que surge do nada


Por MAURO MORAIS

03/10/2013 às 07h00

Um silêncio e um vazio rodeiam a artista. Como em um ritual, em silêncio as mãos moldam o barro, definindo o que será, ao final de mais de 20 dias, uma obra sem forma, mas fortalecida pelo tempo e pelos olhares que se dirigirem a ela. Da galeria preenchida apenas por alguns pequenos sinos em cerâmica – pouco mais de 300 – à exclusão de qualquer festejo que simboliza a abertura de uma exposição, Katia Lopes se alinha à performance para exibir um processo. Em O som e a forma do barro, que a ceramista inaugura hoje, às 20h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), o espectador não encontrará nada, mas poderá se render a tudo. É uma obra aberta, na qual quero mostrar que o barro pode ser tudo, dependendo de seu processo, explica.

Atenção! Escrita na parede do corredor alternativo, uma mensagem denuncia o lugar em que Kátia se situa: No momento da criação, não pode haver interrupção. Por isso, em evidência está o artesanato, o controverso ato de criação. Durante 90 minutos, eu vou ficar muda, concentrada. Só eu e o barro. A cerâmica exige muita atenção e precisão, conta, dizendo que a ideia surgiu de um insight, e a obra que molda diante do público é influenciada por Anish Kapoor, com seus mistérios e suas simplicidades grandiloquentes.

Graduada em medicina, especialista em otorrinolaringologia, Katia iniciou-se na cerâmica há mais de duas décadas e já expôs por diversas vezes peças utilitárias, as quais molda e queima em forno de alta temperatura na própria casa. Sem ter passado por uma educação artística formal, diz já estar arraigada de azedumes e conceitos, o que dificultaria uma formação efetiva. Contudo, sua linguagem é, dessa forma, mais livre. A ausência de formação me limita bastante, não tenho um norteador. Ao mesmo tempo, ela me desobriga de ser genial. Posso, assim, me dar ao luxo de ser completamente instintiva, reflete.

No vazio de uma galeria que se abre ao processo, Katia Lopes incita o debate. Ao se recusar expor o trabalho final, discute o processo e o próprio ser artista. Na minha arte, eu não me levo muito a sério, seria horrível. Eu gosto da vida leve e lúdica, desconversa, para logo se render às escolhas que não lhe deixaram o barro como profissão. Um artista trabalha muito e tem que ser original. O reconhecimento exige um investimento muito grande. Ser artista é caro. O dinheiro não entra tão facilmente, e as certezas são poucas, afirma.

Sendo assim, Katia prefere o entre lugar, no qual já se percebe há muitos anos. Não tenho guetos na medicina e nem nas artes. Sou uma pária nos dois lugares, brinca. Certamente, há um fundo de verdade. A galeria vazia, o nada que Katia propõe e o ato contínuo que descortina para o público evidenciam uma profunda discussão sobre o universo das artes. Artista por opção e, principalmente, por um desejo íntimo, ela é objetiva: A minha fala pode ser a fala dos loucos. Que o diga Arthur Bispo do Rosário.

Até o dia 27 desse mês, de sexta a domingo, a artista estará na galeria, moldando suas peças e auxiliando interessados em aprender um pouco da técnica da cerâmica, inclusive crianças. O silêncio e o vazio serão preenchidos. Nada é definitivo.