Marianna Leão lança livro inspirado na Coreia do Sul na Bienal de São Paulo
Juiz-forana apresenta ‘A ilha dos sonhos perdidos’, romance que mistura ficção, história e experiências vividas no país asiático

Uma jornalista brasileira desacreditada e um professor de história coreano em busca de um tesouro. Essa é a premissa principal de “A ilha dos sonhos perdidos”, novo romance da autora juiz-forana Marianna Leão, que será lançado na Bienal do Livro em São Paulo, neste domingo (6). A história é resultado de uma extensa pesquisa sobre a história da Coreia do Sul e de vivências pessoais da autora.
Marianna começou a se interessar pela cultura pop coreana, hoje um fenômeno mundial, por conta de suas amigas. Foi com uma recomendação para assistir a um drama coreano, “Goblin”, que a escritora se interessou pelo país asiático. “Depois, quando minhas amigas viram que eu estava assistindo séries coreanas, elas começaram a me recomendar grupos de K-pop que eu deveria conhecer.”

Desde então, sua curiosidade pela Coreia do Sul só aumentou. Tanto que, em 2018, Marianna cruzou o mundo e foi sozinha conhecer o país, com um coreano iniciante e muita vontade de saber mais. Para ela, a experiência foi rica e o fato de não estar acompanhada foi uma vantagem.
“Eu passei cerca de um mês lá e ir sozinha foi a melhor experiência, demonstrei curiosidade pela cultura e fui bem recebida pelos coreanos.” Para ela, o auge de sua viagem foi quando chegou à ilha de Jeju, localizada no sul do país, onde conheceu pessoas de sua idade.
O que mais chamou a sua atenção foi a perspectiva que muitos coreanos tinham acerca das suas carreiras. A maioria ali estava em busca de uma pausa, entre um emprego e outro – muitos deles não estavam satisfeitos com a carreira atual, mas não conseguiam recomeçar ou mudar de área.
Esse ainda é o sonho?
“A ilha dos sonhos perdidos” retrata muito do que Marianna viveu na Coreia ao perceber a necessidade de se viver um sonho. Ao mesmo tempo, seus personagens também passam pela reflexão de que, às vezes, um sonho antigo pode se tornar uma prisão e até mesmo impedir novas oportunidades de surgirem.
A protagonista do livro, Nina, é inspirada nos colegas de formação, segundo Marianna. A autora cursou jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e parte das suas vivências estão inseridas na protagonista.
“A Nina é formada em jornalismo, mas se vê trabalhando em uma agência, cada vez mais distante do que a inspirava na profissão”, explica. A situação da personagem começa a mudar quando ela recebe, no começo da trama, um e-mail de cápsula do tempo, escrito por ela aos 16 anos, no dia do seu aniversário.
Ao ler as palavras da sua versão adolescente, Nina percebe que deixou de viver um dos seus sonhos: o intercâmbio para a Coreia. É por meio dessa reflexão que a personagem toma coragem para ir atrás dos seus sonhos.
Ao mesmo tempo, Joon-Young é um professor de história que mora em Jeju e está determinado a salvar a reputação de sua família, que foi acusada de apoiar o Japão durante o período de sua ocupação na península coreana. O personagem herda uma construção histórica soterrada em dívidas, o Coração do Rei, que também conta com a lenda de um tesouro escondido.
Motivados por questões individuais, Nina e Joon-Young aprendem o valor dos sonhos enquanto participam de uma verdadeira investigação para encontrar o tesouro.
Para escrever o livro, Marianna misturou ficção e realidade ao abordar a influência do colonialismo japonês na Coreia e suas consequências que perduram no país até os dias atuais. A escritora leu artigos, jornais, assistiu a documentários e buscou fontes para retratar a história de um país distante geograficamente, mas que ficou cada vez mais perto do seu cotidiano.

A autora incluiu figuras históricas da família real coreana que lutaram contra a ocupação japonesa, além de ativistas sociais e eventos históricos reais para construir a narrativa. Um dos destaques do processo de produção do seu livro foi a leitura sensível.
Essa etapa do processo editorial consiste em garantir que o grupo minoritário representado no livro seja escrito com respeito e sensibilidade. “Isso ajudou o livro a se tornar mais forte e fiel”, destaca. Marianna recebeu ajuda para construir o enredo do livro até mesmo nos mínimos detalhes, como a dinâmica dos personagens coreanos e suas regras sociais.
Experiências imersivas
Marianna começou a publicar seus livros em 2015. E, antes mesmo disso, já possuía uma forma de divulgar suas histórias e entrar em contato com seus leitores: escrevia no Wattpad, plataforma gratuita que permite que autores publiquem suas histórias. “Essa relação com os leitores transforma a escrita em algo viciante”, explica.
Dez anos depois, a autora participa da Bienal do Livro em São Paulo, com sessão de autógrafos. “É a primeira vez que vou todos os dias e estou muito animada.” O motivo é a oportunidade de estar em contato com o público de forma direta, principalmente os adolescentes: para ela, é algo único poder escrever algo que vá crescer junto do público, um acompanhando o outro.

“Eu lembro de uma menina que veio pedir autógrafo, toda tímida. E o livro estava todo marcado com post-its e anotações. Acho que essa é a verdadeira vitória, saber que o que a gente escreveu tocou alguém.”
A escritora já escreveu outros livros como “Clube da meia-noite”, “Hater nº 1” e os contos digitais “O último casal da fada madrinha” e “Feitiço de carnaval”. Em todos, ela busca sempre incluir o leitor de formas diferentes.
Se em “A ilha dos sonhos perdidos” há uma playlist personalizada com músicas de K-pop disponível para o público, seus outros lançamentos incluem QR codes com podcasts – como em “Hater nº 1”. Marianna conta que essas experiências, para ela, são essenciais para criar o universo do livro.
A autora reconhece já ter mais experiência com o mercado editorial e com os leitores. Para ela, ir à Bienal é estar em contato direto com pessoas, algo que não acontece nas redes sociais.
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy








