Tudo afinado

Violeiros de diferentes regiões se encontraram para diálogo musical em Piacatuba
"Viramos caipira depois que veio este sertanejo da década de 90. A partir daí, a mídia adotou este conceito e se apropriou desta que foi uma transformação natural para a gente", disse o pesquisador e violeiro Chico Rozado, no último final de semana, durante o 9º Festival de Viola e Gastronomia de Piacatuba (distrito de Leopoldina), ao lado do filho Ramon. A dupla, natural de Viçosa, conversou com a Tribuna na Cachaçaria Gerais de Minas.
"Os violeiros abraçaram a causa como sua. Há uma simplicidade por parte destes gênios que é o que mais emociona", definiu a coordenadora geral do evento, Maria Lúcia Braga. Citando Almir Sater como referência de afinação e Zé Ramalho como exemplo a ser seguido, Ramon, entre uma dedilhada e outra, demonstrava segurança ao lado do pai. "Não consigo compor como um cara nos anos 80. O contexto é histórico e não pop comercial", enfatizou o jovem músico, violeiro revelação no Prêmio Rozini da revista "Vila Caipira" este ano. Aliás, o Festival de Viola e Gastronomia de Piacatuba também abocanhou um Rozini, na categoria excelência do ramo.
"O termo sertanejo é inapropriado, pois os caras passaram a gravar em duas vozes, diferente das bases da dupla caipira, em que um integrante faz a primeira, e o outro, a segunda", explicou Ramon, assegurando que Sater e Ramalho não mudaram seu estilo por causa do mercado, e sim o contrário. "A viola ganhou novas vertentes, deixando de ser única e exclusivamente rural. Hoje, tem o choro e Fernando Sodré tocando Ernesto Nazareth e blues, por exemplo. Tem ainda o Renato Caetano, um roqueiro que transpõe o estilo, tocando viola", arrematou Chico.
Nuances de um Brasil ainda rural
Na década de 80, com o programa "Som Brasil", Rolando Boldrin se tornou uma espécie de guru da viola caipira. O músico atraiu a atenção de jovens e adultos para o rádio, onde mantinha o projeto diário. "O rádio foi o grande canal por onde a música caipira foi escoada. O país era rural, e a TV exigia uma série de normas, como estar bem vestido", disse Chico, aproveitando para anunciar o primeiro CD com o filho previsto para este ano.
Vencedores do Festival de Viola de Piacatuba em 2007, Chico e Ramon, além de sugerirem a divisão da disputa em duas categorias (nacional e regional, essa em um raio de 80km), são apenas um dos exemplos de encontro de gerações proporcionado pelo instrumento que, como nenhum outro, descerra o que o Brasil tem de melhor – sua canção.
Premiado violeiro de Muriaé e referência para novos talentos , José Olavo lamenta que, apesar do primeiro lugar em duas edições do festival e de incontáveis convites para outros encontros de viola, ele não sobrevive de música. "A cultura não é dança para cá ou canto para lá, mas algo muito mais dinâmico que a apresentação no palco. Nós não queremos só o aplauso, mas incentivo para levarmos esta arte adiante", observa.
Atração da última sexta, Bilora, natural do Vale do Mucuri, Noroeste de Minas, pareceu bem mais otimista. "Ninguém é melhor que o outro num festival de viola, cada um tem o seu modo de tocar o coração. Tem muita gente nova aparecendo, como a dupla Lucas (Reis) & Thácio (Cândido), de Uberlândia", sentenciou o compositor, atualmente presidente da Associação Nacional de Violeiros, em Ribeirão Preto (SP).









