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Tudo afinado


Por BRUNO CALIXTO

03/08/2011 às 07h00

Violeiros de diferentes regiões se encontraram para diálogo musical em Piacatuba

Violeiros de diferentes regiões se encontraram para diálogo musical em Piacatuba

"Viramos caipira depois que veio este sertanejo da década de 90. A partir daí, a mídia adotou este conceito e se apropriou desta que foi uma transformação natural para a gente", disse o pesquisador e violeiro Chico Rozado, no último final de semana, durante o 9º Festival de Viola e Gastronomia de Piacatuba (distrito de Leopoldina), ao lado do filho Ramon. A dupla, natural de Viçosa, conversou com a Tribuna na Cachaçaria Gerais de Minas.

"Os violeiros abraçaram a causa como sua. Há uma simplicidade por parte destes gênios que é o que mais emociona", definiu a coordenadora geral do evento, Maria Lúcia Braga. Citando Almir Sater como referência de afinação e Zé Ramalho como exemplo a ser seguido, Ramon, entre uma dedilhada e outra, demonstrava segurança ao lado do pai. "Não consigo compor como um cara nos anos 80. O contexto é histórico e não pop comercial", enfatizou o jovem músico, violeiro revelação no Prêmio Rozini da revista "Vila Caipira" este ano. Aliás, o Festival de Viola e Gastronomia de Piacatuba também abocanhou um Rozini, na categoria excelência do ramo.

"O termo sertanejo é inapropriado, pois os caras passaram a gravar em duas vozes, diferente das bases da dupla caipira, em que um integrante faz a primeira, e o outro, a segunda", explicou Ramon, assegurando que Sater e Ramalho não mudaram seu estilo por causa do mercado, e sim o contrário. "A viola ganhou novas vertentes, deixando de ser única e exclusivamente rural. Hoje, tem o choro e Fernando Sodré tocando Ernesto Nazareth e blues, por exemplo. Tem ainda o Renato Caetano, um roqueiro que transpõe o estilo, tocando viola", arrematou Chico.

 

Nuances de um Brasil ainda rural

Na década de 80, com o programa "Som Brasil", Rolando Boldrin se tornou uma espécie de guru da viola caipira. O músico atraiu a atenção de jovens e adultos para o rádio, onde mantinha o projeto diário. "O rádio foi o grande canal por onde a música caipira foi escoada. O país era rural, e a TV exigia uma série de normas, como estar bem vestido", disse Chico, aproveitando para anunciar o primeiro CD com o filho previsto para este ano.

Vencedores do Festival de Viola de Piacatuba em 2007, Chico e Ramon, além de sugerirem a divisão da disputa em duas categorias (nacional e regional, essa em um raio de 80km), são apenas um dos exemplos de encontro de gerações proporcionado pelo instrumento que, como nenhum outro, descerra o que o Brasil tem de melhor – sua canção.

Premiado violeiro de Muriaé e referência para novos talentos , José Olavo lamenta que, apesar do primeiro lugar em duas edições do festival e de incontáveis convites para outros encontros de viola, ele não sobrevive de música. "A cultura não é dança para cá ou canto para lá, mas algo muito mais dinâmico que a apresentação no palco. Nós não queremos só o aplauso, mas incentivo para levarmos esta arte adiante", observa.

Atração da última sexta, Bilora, natural do Vale do Mucuri, Noroeste de Minas, pareceu bem mais otimista. "Ninguém é melhor que o outro num festival de viola, cada um tem o seu modo de tocar o coração. Tem muita gente nova aparecendo, como a dupla Lucas (Reis) & Thácio (Cândido), de Uberlândia", sentenciou o compositor, atualmente presidente da Associação Nacional de Violeiros, em Ribeirão Preto (SP).