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Completando 20 anos, palco da Praça Antônio Carlos será demolido

Espaço será remodelado, com construção de um novo palco; artistas relembram eventos que aconteceram lá


Por Cecília Itaborahy, sob supervisão de Fabíola Costa

03/07/2022 às 07h00- Atualizada 04/07/2022 às 13h00

Habitado por pessoas em situação de rua nos últimos meses, palco da Praça Antônio Carlos será demolido (Foto: Fernando Priamo)

Os coretos são como registros de uma época em que o acesso à cultura era caro. Fazer como se fosse um palco no centro de uma praça era, por isso, um processo de democratização da arte. Qualquer um que passasse pelo ambiente facilmente poderia ser atraído. Ouvir a música ou o que quer que saísse daquele lugar. A voz e o som de alguém que quisesse se fazer escutar. Até onde se sabe, na Praça Antônio Carlos (PAC) nunca existiu um coreto – esse na arquitetura de antigamente: redondo, com grades, ornado no meio de um praça. Detalhando assim, percebe-se que, tardiamente, na verdade, existiu, sim, mas já com o nome de palco, cumprindo papel semelhante.
Em 17 de julho de 2002 foram inauguradas as obras do que já era chamado de revitalização e reurbanização da Praça Antônio Carlos, que faz parte do Complexo Bernardo Mascarenhas. A área foi remodelada para receber ainda mais pessoas, com o palco e a pista de skate, e atrair mais pessoas além de quem já frequentava os arredores. Agora, no entanto, esse processo de remodelação vai se repetir – com a mesma intenção de o fazer crescer – e, para isso, parte da estrutura será destruída para a construção de uma nova praça. O palco é um que vai nessa, mas já querendo voltar.
Em entrevista dada à Tribuna há 20 anos, na época da inauguração, o arquiteto responsável pelo projeto, Leonardo de Paula, explicou que a ideia da construção daquele palco era desafogar as apresentações no Parque Halfeld – também central, onde já existiu um coreto, mas, até hoje, sem palco estático. Ele dizia ser necessário um palco no Centro para dar conta das atividades culturais. Com uma estrutura especialmente pensada para isso, além de facilitar o processo de idealização de um show, o palco deixaria a produção mais barata: bom para todos os lados.

O primeiro

A inauguração dessa nova praça aconteceu, como manda a celebração, com show e o primeiro uso dos skatistas da pista nova. Estima-se que cerca de 500 pessoas estiveram na praça naquela noite para conhecer a adaptação e prestigiar as atrações, com a dupla sertaneja Gean e Állan abrindo os trabalhos no palco. Alan Rodrigues, que fazia parte da dupla e, hoje, tem o trabalho com Alisson (formando a dupla Alan e Alisson), não se lembra muito bem de como foi o show. Mas sabe que já tocou ali outras vezes, principalmente em feiras – como as de quarta-feira com os produtores locais que, agora, acontecem na Praça da Estação. O grande impacto, na verdade, de acordo com ele, já era o que aquele novo espaço iria representar para a cultura da cidade de uma maneira geral. Fazer show gratuito, para todos os públicos e com estrutura de qualidade, ficaria mais fácil.
“A gente está muito acostumado a fazer show em lugar fechado. O show aberto fica diferente. Porque, além de popularizar a cultura, populariza, também, o artista”, diz Alan. O que é, na verdade, a própria proposta de um coreto. Com o passar do tempo e inúmeros shows depois, os artistas que pisaram ali continuam achando que o principal ponto do palco da Praça Antônio Carlos é o acesso facilitado à produção cultural, sobretudo local.

A casa do Festival de Bandas Novas

Um dos eventos que mais marcou aquele palco foi o Festival de Bandas Novas. É como se ali fosse a casa do evento, embora ele tenha acontecido em diversos outros pontos, como o Parque da Lajinha, Praça da Estação e a Sala de Encenação Flávio Márcio, no próprio Complexo Mascarenhas. “Mas o nosso lugar, o lugar perfeito, é a Antônio Carlos”, diz Adriano 66, líder da banda Patrulha 66 e um dos fundadores do festival.
De acordo com o músico, ele fazia todos os projetos pensando naquele espaço simplesmente porque ele era central e conseguia agregar muitas pessoas. O primeiro festival foi acontecer lá em 2005, por proposta do prefeito da época, Carlos Alberto Bejani, de fazer com que o espaço fosse mais ocupado. Ainda que enfrentando, depois, algumas dificuldades de fazer constantemente na praça, Adriano conta que foi a persistência que fez com a estrutura fosse melhorando. “O palco, por exemplo, tinha uma grade. Era meio estranho, porque ela distanciava a gente. Eles tiraram quando fizeram o Miss Brasil Gay ali. Mas, na medida em que a gente foi habitando, outros eventos foram chegando, e começou a melhorar a estrutura. E o músico não tinha lugar, né?! Era só o palco.”
A ideia de fazer o Bandas Novas, inclusive, surgiu para criar possibilidades de espaços para a Patrulha 66 tocar. Para Adriano, no entanto, não fazia sentido fazer isso sem levar com eles os outros grupos que despontavam em Juiz de Fora, porque a cena se faz conjuntamente. Na primeira oportunidade que teve de fazer em um lugar central e aberto, aceitou, porque, para ele, o melhor é isso: estar na rua. “O movimento na rua, gratuito, movimenta todo o setor. É diferente de um show em um lugar fechado, porque já é para pessoas ‘marcadas’. Quando é aberto, mais pessoas conhecem. Consequentemente, vão criando mais músicos que mantêm tudo, formando uma galera nova”, diz.
Assim o palco da Praça Antônio Carlos foi o primeiro em que muitos músicos tocaram. Só com o Bandas Novas isso fica claro, já que, a partir dele, muitas bandas começaram suas atividades. “Acho que todo mundo passou por ali. Não tem um músico que não passou por ali. Todo mundo aprendeu com o Bandas Novas, de certa forma. As pessoas queriam ser vistas e precisavam se preparar para isso. O palco, por causa disso, foi o primeiro que muitas bandas tocaram, com certeza,” garante. Oficialmente, o evento completaria 22 anos neste ano, mas, contando eventos não-oficiais, são 24.

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Festival de Bandas Novas foi o primeiro palco de muitos artistas da cena local (Divulgação)

Unindo tribos

Já na inauguração, Alan percebeu que aquele seria um lugar que abraçaria todo mundo. Enquanto os skatistas davam suas manobras, era o sertanejo que tocava. E, olhando mais recentemente, o palco continua sendo a primeira vez de muitos músicos de diferentes vertentes. “A gente pode falar que ele uniu as tribos”, disse. Foi lá, por exemplo, a primeira vez que RT Mallone apresentou um show solo, no mesmo palco que MV Bill e Pedro Luís tocaram – a maioria através de eventos promovidos pela Prefeitura através da Funalfa, como o Corredor Cultural e o Corredor da Folia.
No carnaval, também, era ali que desaguavam alguns dos blocos de carnaval, que ganhavam a Getúlio Vargas e subiam para a catarse final, como os mais recentes do Ingoma e do Muvuka, sem contar as rodas de samba. O bloco Parangolé Valvulado, no ano em que voltou a desfilar na rua, em 2017, mesmo ano em que completou dez anos, entrou com o caminhão na praça – o que foi proibido logo depois por questões de segurança. Mas, para o lançamento do disco, eles subiram ao palco para se apresentar. Como conta Ângelo Goulart, um dos organizadores do Parangolé Valvulado e mestre de bateria, por estarem perto do público, fora do trio, foi uma noite de êxtase. O palco, mesmo denotando estar acima, aproxima.

“Coração da cidade”

Também carnavalesco, mas em um outro sentido, foi no mesmo palco que o Makoomba fez o primeiro Makoombloco, o bloco do coletivo formado pelos DJs e produtores Amanda Fie, Crraudio e Crioulo. O que era uma apresentação em lugares fechados ganhou uma outra dimensão. Depois de ser adiada algumas vezes, a estreia aconteceu em fevereiro de 2019. Com a expectativa de receber no máximo 600 pessoas, a praça, na verdade, ficou lotada.
Para Crraudio, a praça também tem essa potência de ser para todo mundo. “A gente sempre viu que os eventos que aconteciam lá alcançavam o público jovem periférico. É um local que tem um acesso legal, todo mundo pode chegar e voltar para casa de ônibus. Todos os bairros ao redor acessam a praça. É como se fosse um coração da cidade, de certa forma, porque reúne muita gente. A praça tem essa coisa de a gente poder pensar em temáticas onde as pessoas possam interagir e gratuitamente. Pra gente estar ali, com o palco pronto, auxilia demais as produções. A PAC é o nosso local.” No ano seguinte, Crraudio acredita que cerca de 7 mil pessoas tenham ido ao Makoombloco. “Tomara que ano que vem, no carnaval, o palco novo já esteja pronto para a gente fazer lá de novo.”

Praça Antônio Carlos
Milhares de pessoas foram à primeira edição do Makoombloco na PAC (Foto: João Victor Medeiros/Divulgação).

Um sai, outro surge

Até o fechamento desta edição, a Prefeitura ainda não tinha começado a demolição das estruturas, que estava prevista para o início da semana passada. A proposta é a de que a obra seja entregue no ano que vem. Em nota, a PJF também explicou o motivo da mudança: “Com o objetivo de melhorar as condições para realização de eventos culturais, o atual palco será demolido e um novo, com camarim e vestiários, será construído próximo à curva da praça, entre a Avenida Getúlio Vargas e a Rua Doutor Prisco. Nesse local, o som vindo do palco será direcionado para áreas sem uso residencial, beneficiando assim a qualidade de vida dos moradores locais”.

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