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‘Sou um privilegiado por estar vivendo aos 81 anos’


Por MARISA LOURES

03/04/2013 às 07h00

O Rio de Janeiro continua dividido e repleto de conflitos, mas o responsável pela expressão "cidade partida", demonstra hoje não desacreditar totalmente em uma "solução mágica à vista" – conforme escreveu na introdução do livro ganhador do Prêmio Jabuti, de 1995 – para o problema social enfrentado pela capital fluminense. "Pela primeira vez, acho que há uma política de segurança na direção certa", diz o jornalista, que, com mais de meio século de atuação na imprensa brasileira, aos 81 anos, debuta no romance com "Sagrada família". Para contar a história que se passa na inventada Florida, o autor entrelaça memória e ficção, através das lembranças de um menino que perde a inocência, quando presencia a tia e o farmacêutico fazendo algo que, de início, não sabe o que é. Paralelamente, é reconstruído um Brasil dos anos 1940, às vésperas da Segunda Guerra Mundial e repleto de intrigas e preconceitos. "Foi a época da minha adolescência, e coincide com um período, esquecido e pouco estudado do país. São memórias de um tempo de transição para a maturidade, que vem me perseguindo ao longo da vida."

Em mais de meia hora de conversa ao telefone, entre outros assuntos, o escritor falou como lida com a passagem do tempo, afirmou não se preocupar com a morte, mesmo depois de ter sido acometido por um câncer, disse ser cauteloso com a internet, que já o "matou" por três horas, e confessou, meio sem graça e sob apelos de ‘acho que isso não deve ser publicado’, ter ficado satisfeito com a releitura de "1968: o ano que não terminou" – obra que será relançada em 2013. "Vou dizer algo com muito cuidado para não parecer cabotinismo, pretensão minha. Virei para a minha esposa, e disse: ‘Mary, o livro é muito bem escrito. Reconheço esse cara’. Foi só um desabafo. Depois fiquei com vergonha de ter dito isso. Não gosto de reler o que escrevi, mas tive uma surpresa agradável." O romancista conta, pessoalmente, essas e outras histórias hoje, às 20h, no Teatro Clara Nunes, do Sesc. "Sou mineiro de Além Paraíba, e Juiz de Fora sempre foi uma referência para mim", comenta o amigo de juiz-foranos ilustres, como Pedro Nava, Rubem Fonseca e Fernando Gabeira.

 

Tribuna – Através do menino Manuél, você narra, em "Sagrada família", uma história passada numa cidade ficcional para recontar o que viveu numa família fluminense, durante sua adolescência. Você sente algum tipo de nostalgia da época?

Zuenir Ventura – Acho que sim. Idealizamos muito o passado, pensando ‘puxa naquele tempo tudo era maravilhoso’, mas, no fundo, sabemos que não é bem assim. A memória só seleciona o que realmente interessa. Aquilo que desagradou, em geral, você afasta e joga fora.

 

– Na epígrafe desse livro, o poeta Manoel de Barros escreveu que "Só dez por cento é mentira. O resto é invenção". O que é mentira e o que é verdade em "Sagrada família"?

– Eu mesmo não sei. As memórias pessoais, com o tempo, se transformam muito. Quando você olha para trás e a distância é muito grande, você fica se perguntando o que realmente aconteceu e o que acha que viveu? É claro que há fatos que tenho certeza que são verdadeiros, mas outros não. Sempre me pergunto, por exemplo, se o primeiro capítulo foi exatamente daquele jeito ou se aquilo foi um sonho, um desejo de ter acontecido. Tem parente meu que leu o livro e ficou meio grilado, achando que eu estava escrevendo uma obra de não-ficção sobre a nossa família. Na verdade, ali tem histórias de várias famílias. Brinco muito com o Ziraldo, que é de Caratinga e tem mais ou menos a mesma idade que eu, dizendo que deve ter muita coisa ali que ele me contou e que eu inconscientemente coloquei na história. São episódios que ficaram soterrados na sua memória e que de vez em quando aparecem. Digo que, neste livro, há três tipos de memórias: as minhas, as dos outros e as inventadas.

 

– Inventar era uma necessidade, depois de tantos anos atuando com fatos no jornalismo?

– No jornalismo, perseguimos a verdade o tempo todo para ver se as coisas aconteceram daquele jeito mesmo. Isso é uma obsessão na nossa profissão. E, de repente, enquanto estava escrevendo esse livro, me peguei pensando "nossa, que bom que posso mentir à vontade". Eu não queria repetir o estilo.

 

– Quase 20 anos depois de ter escrito "Cidade partida", qual sua opinião sobre o Rio de Janeiro hoje?

– Pela primeira vez, acho que há uma política de segurança na direção certa. Ainda não diria, como alguns já dizem, que a cidade partida acabou por causa da pacificação e das UPPs. Antes, a polícia invadia, matava meia dúzia de pessoas e dizia que elas eram traficantes. Passava um tempo, e os bandidos voltavam. Agora, pelo menos, não é invasão e, sim, ocupação. Mas não se trata apenas de acabar com a violência, expulsar os traficantes e os bandidos, embora isso seja o primeiro passo. É preciso levar cidadania, esgoto, hospital, colégio e escola para os pacificados, pois foi isso que o tráfico fez. Ele usava o vácuo do poder público para fazer o assistencialismo. Assisti em Vigário Geral o tráfico pegar uma criança que estava morrendo e levar para o médico, sendo que o correto era a própria mãe levá-la para um hospital, que deveria existir ali perto.

 

– O Zuenir de hoje tem as mesmas convicções do escritor de "1968: o ano que não terminou"?

– É difícil você garantir que vai continuar pensando da mesma maneira, porque o mundo mudou, até o conceito de geração. "1968" é um livro sobre geração, e hoje você nem tem mais isso, você tem tribos. Claro que o essencial em nós não muda. Tenho algumas crenças que continuam, a crença na liberdade, na democracia, no respeito ao outro e na diferença. São princípios e, sobretudo, valores que cultivo e espero continuar cultivando.

 

– Vê com bons olhos as novas mídias?

– Acho que há um certo deslumbramento perigoso e, às vezes, falso. É preciso ter cuidado para não ter o mesmo encantamento que os primeiros habitantes do país, os índios, tinham pelo espelho. Toda tecnologia nova traz consigo a esperança de um certo milagre. No fim do século XIX, uma época de muita inovação, havia a utopia de que as pessoas iam ficar mais próximas e que tudo seria utilizado no caminho da paz. Contudo, vemos que muitas invenções foram usadas para a guerra. Em muitos casos, a internet é usada para o mal, ensina a fazer bomba e facilita a pedofilia. Eu mesmo já fui morto por ela. Há alguns anos, um colega nosso ligou para um telefone meu antigo, e a mulher, que já estava brava com a quantidade de telefonemas recebidos, disse que eu havia morrido num acidente, que o corpo estava no hospital e que minha esposa estava inconsolável. Naquele momento, eu estava numa reunião fechada, sem a presença da imprensa, e aquele boato ficou rolando da internet para os jornais durante três horas. Imagino o que poderia ter acontecido se a minha família, que mora fora, tivesse tomado conhecimento disso. Defendo que o melhor negócio é ficar com os ganhos e deixar as perdas de lado.

 

– Como você lida com a questão da passagem do tempo, com a proximidade da morte?

– Não penso muito na morte, não porque não quero evitar, mas porque não é uma preocupação minha. A passagem do tempo não me atormenta. Graças a Deus, hoje estou bem de saúde, já tive um câncer, mas foi superado há 15 anos. Acho que o problema não é a velhice, mas o padecimento, a doença. Na semana passada, assisti à entrega do Prêmio Faz Diferença, e a Bibi Ferreira apareceu com 90 anos cantando como se fosse jovem, o que mostra que o tempo para ela não tem importância, assim como não tem para mim. Como diz Paulinho da Viola, "meu tempo é hoje". Embora tenha escrito um livro que fala do passado, não fico lamentando, olhando para trás. Vivo muito o presente, aí fica mais fácil escrever sobre ele. Procuro assistir a filmes, peças, conversar com os amigos e viajar.

 

– Em mais de meio século de profissão, fez coberturas de dar inveja a qualquer jornalista, como a entrevista com Fidel Castro, que só poderia ser publicada após a morte dele, e o caso "Chico Mendes". Sente-se um privilegiado por isso?

– Me sinto privilegiado sim, embora, nestes testemunhos todos, eu contabilize muitas perdas de amigos. No livro "Minhas histórias dos outros", há muitos personagens que já nem existem mais. Sou um privilegiado de estar vivendo aos 81 anos. Tenho muita sorte de ter vivido tudo isso. São momentos que o jornalismo me deu e vai dar para você também. Poder testemunhar o seu tempo é uma das melhores coisas que a profissão me deu.

 

– Quais são suas leituras?

– Leio menos do que gostaria, porque tenho problema com o tempo. Estou relendo agora "1968: o ano que não terminou", porque vai ser relançado este ano, e vou começar a revisão do "1968: o que fizemos de nós". Recebo muitos livros e acabo lendo várias coisas de uma só vez. Enquanto estamos conversando, estou olhando para a mesa e vendo desde "A razão dos avós", porque sou avô, e "Humor judaico", que é divertidíssimo.

 

– O que me diz do que está sendo produzido hoje na literatura?

-Não consigo fazer um juízo de valor, porque não acompanho essa produção contemporânea, infelizmente. Mas tem jovens autores muito bons, como a Tatiana Salem (Levy) e o Cuenca (João Paulo).

 

– Faz projetos para o futuro?

– Da mesma maneira que não tenho saudades do passado, não penso no futuro, querendo ser isso ou aquilo. O que tenho que fazer agora é acabar de escrever a coluna para mandar para o jornal e pronto. Duas colunas por semana já me tomam bastante tempo. Não faço muitos planos, outros afazeres acabam surgindo.

 

BATE-PAPO COM ZUENIR VENTURA

Nesta quarta (03), às 20h, no Sesc (Av.Rio Branco 3090)