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Para ouvir com os olhos


Por JÚLIA PESSÔA*

03/02/2013 às 07h00

Tiradentes (MG) – "Minha música é de risco, sempre à beira do precipício, no campo da invenção. O filme traduz isso, e, como eu, mistura linguagens. É cinema, é música… É para ouvir com os olhos." Neste relato tão sintético quanto poético, o multiartista Jards Macalé descreve suas impressões sobre o documentário "Jards", de Eryk Rocha, que acompanha os dias de gravação do álbum homônimo do músico, seu trabalho mais recente. O filme foi exibido na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes depois de passar por importantes festivais como a Mostra Internacional de São Paulo, e o Festival do Rio, onde o cineasta foi eleito "melhor diretor".

Para o crítico Heitor Augusto, a música atua como um dos protagonistas do documentário. "A imagem é explorada de uma maneira que oferece novas possibilidades de percepção da música, que não representa uma síntese do que acontece na tela, mas induz a atenção do espectador ao momento da criação musical. O olhar da câmera, do Jards e do espectador se confundem continuamente, e este olhar múltiplo é sempre estimulado pela música, mesmo – e principalmente – quando ela não acontece."

Segundo Eryk, a ideia de fazer o filme surgiu de uma provocação de Jards, que sugeriu fazer um DVD com seu novo trabalho, e o diretor não apenas levou a sério, mas levou além. "O DVD é um desdobramento normal do trabalho do músico, então resolvemos fazer um filme. Só que todo documentário musical explora a música pronta em shows ou em estúdio, e tem entrevistas de convidados, o processo de criação fica encoberto, idealizado. Quis atravessar esse momento e acompanhar de perto o álbum nascendo, e o resultado acabou sendo algo que não é música, nem cinema, mas é, ao mesmo tempo, os dois, transita por um território novo de linguagem", explica Eryk Rocha, que não nega o DNA vanguardista herdado do pai, Glauber Rocha, amigo e parceiro musical de Jards.

O longa mescla imagens no estúdio de gravação e da rotina de Jards, seja pegando um táxi, tirando um cochilo, ou fumando um cigarro enquanto caminha sozinho por algum lugar ou trabalha em uma canção. "O trabalho pode ser pensado no plano da poética. Não fiz um filme sobre o Jards, foi um filme feito com ele, um filme nosso, que mostra uma visão das muitas do Jards." As escolhas estéticas refletem um constante contraponto, com recursos que brincam com claro e escuro, estática e movimento, dentro e fora, cor e preto-e-branco. "É uma referência ao êxtase e à solidão, ambos muito presentes no Jards, em seus momentos sozinho em casa, no trânsito ou trabalhando, e no arrebatamento da gravação no estúdio, cercado de outros músicos", conta Eryk.

Um dos momentos de maior arroubo é a gravação de "Só morto", em que a iluminação estourada casa-se perfeitamente com a interpretação emocionada da voz rouca e suja de Macalé, fazendo o espectador quase acreditar que se trata de uma atuação, suposição que o músico rebate: "É tudo emoção, não passo de um canastrão", brinca Jards.

 

*A repórter viajou a convite da 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes