‘O herói do momento é o Brasil’
Em 1889, chegava ao fim o período imperial no Brasil. Marcado por um simples brado – ou, como prefere o Hino da Proclamação da República, "um grito soberbo de fé" -, o momento histórico é revisitado, agora, pelo jornalista e escritor Laurentino Gomes. Em visita ao Museu Mariano Procópio, com um sorriso no rosto e com brandura na voz, ele encerrou as pesquisas para o seu "1889", título que conclui a trilogia iniciada com "1808", seguido de "1822", e que narra a história de construção do Estado durante o século XIX.
Terra que lhe rendeu uma das maiores plateias ao longo da carreira, já tendo reunido mais de 1.500 pessoas no Cine-Theatro Central Gomes antecipou a viagem, programada há mais de seis meses, por conta da morte do amigo Fuad Yasbeck, ocorrida no último dia 24. Após ter passado pelo Museu Imperial de Petrópolis, o escritor tomou contato com a iconografia, documentos e diários de Dom Pedro II preservados na instituição de Juiz de Fora. "Poucos museus do Brasil têm um acervo tão rico no segundo reinado", elogia.
Diante de um conjunto composto por aproximadamente 50 mil peças, entre pinturas, fotografias, mobiliário e indumentária, Gomes se deteve nos pertences de Dom Pedro II, que inclui a veste de coroação do imperador. "O meu desafio de ilustrar esse livro foi solucionado aqui", conta, revelando que um novo capítulo do livro surgiu das conversas com o superintendente do museu Douglas Fasolato e do encontro com uma atmosfera da época que reproduz em palavras. "Para mim era quase impossível fazer esse livro sem vir a Juiz de Fora", pontua, para logo explicar: "É uma sutileza, mas é muito importante ter essa noção para criar o personagem".
Previsto para setembro, o lançamento de "1889" deverá ocorrer na XVI Bienal do Livro do Rio, quando as pessoas poderão conhecer, segundo o escritor, "uma visão muito surpreendente da Proclamação da República". Se nos dois livros anteriores já havia uma nítida intenção de desmitificar o período imperial no país, no volume final da trilogia peças-chave da história escrita com "H" maiúsculo são desconstruídas sob o olhar de Laurentino Gomes. "Não há herói épico nessa história. São pessoas muito de carne e osso", decreta.
Propagandeada em seu hino como resultado de um país igualitário, a proclamação persiste no imaginário coletivo como uma idealização, para o escritor, equivocada. Versos do cântico oficial como "nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país" são enfaticamente reduzidos por Gomes em seu discurso, cuja tônica gira em torno da violência e da imprevisibilidade das ações que levaram o Estado a um novo regime de governo. "Correu muito mais sangue do que se imagina", comenta. "Essa pessoas são levadas pelos acontecimentos", explica.
Prometendo uma humanização dos personagens que ilustraram a história ensinada nos livros didáticos, Gomes questiona a imagem mitológica de alguns deles. "O duque de Caxias é o homem que mais se meteu em confusões e passou para a posteridade como um pacificador", exemplifica, também contestando a ideia de segurança que paira sobre Dom Pedro II: "Era um imperador doente, indeciso se fazia a república ou mantinha a monarquia". "Quando você joga luz no ser humano, frágil e indeciso, com coragem também, mas com pequenas vilanias, você aproxima os fatos do leitor. As pessoas são assim", reflete o escritor na tentativa de justificar o estrondoso sucesso de suas obras.
Best-seller reconhecido por sua grande permanência nas listas dos mais vendidos, Laurentino Gomes já soma quase um milhão de livros comercializados, número surpreendente quando confrontados com os lançamentos da literatura contemporânea brasileira, que chegam às prateleiras com tiragens muito inferiores a dez mil cópias. Ainda assim, e mesmo diante do desafio de ser um dos responsáveis pela leitura histórica no país, o escritor mantém a modéstia. "Não tenho ilusão de que vou contar a versão definitiva", afirma, indicando os pontos históricos mal explicados como seu objeto de trabalho.
Para Gomes, a era monárquica brasileira preserva curiosidades tendo em vista seus contraditos. "É uma república que promete liberdades e logo se converte em ditaduras", aponta, dando destaque às sucessões de leituras diferentes que já foram dadas ao mesmo período."As versões são polidas ao longo do tempo para se encaixar nas necessidades do governante que está no poder", explica, observando que a era imperial é marcada com relevo por três versões: uma feita no momento da proclamação, outra reproduzida pelo Governo Vargas e uma terceira executada durante o regime ditatorial, todas elas focando um país ideal e muito pouco real.
O distanciamento temporal e político do império faz com que hoje, segundo o escritor, consigamos rever a trajetória nacional com maior objetividade e realismo. "Sou muito otimista com a leitura da história", diz, para logo opinar: "Num ambiente de democracia, você consegue relativizar as coisas". Segundo Gomes, o brasileiro está se aparelhando para tomar atitudes, está desfrutando ao máximo o regime democrático. "O herói do momento é o Brasil, que toma as rédeas do próprio percurso", considera.
Assustado com a quantidade de registros produzidos atualmente, Gomes acredita que, no futuro, haverá uma possibilidade muito maior de se contar, de forma balanceada, a história do presente. "Estamos colhendo frutos de coisas que plantamos desde a democratização. Tem um país zerando alguns passíveis que a gente não conseguiu resolver no passado", aposta, certo de que hoje existe muito mais leitores interessados em compreender a nação e seus precedentes.
Entre a isenção e a pluralidade
Jornalista por formação, o paranaense de Maringá foi editor do jornal "O Estado de S. Paulo" e da revista "Veja", além de diretor da Editora Abril, o que, segundo ele, lhe conferiu a técnica necessária para a contar a história. "Entrei nessa jornada meio que por acaso, há seis anos atrás. O livro fez um sucesso maior do que eu imaginava", conta, chamando por reportagem a literatura que faz. "Ao fazer sucesso no primeiro livro, você cria uma expectativa muito grande nos leitores, editores e crítica. Isso pode ser um risco", comenta, ponderando que a postura de pesquisador lhe deu o distanciamento necessário para seguir o trabalho.
Expoente de uma geração que promove intercâmbio entre a ciência e o jornalismo, como faz o médico Dráuzio Varella, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, o físico Marcelo Gleiser, entre muitos outros, Laurentino Gomes acredita que a linguagem jornalística permite um olhar mais isento e pluralista sobre temas polêmicos e inquietantes. Para ele, a literatura do cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, é uma das mais isentas ao observar a trajetória nacional, tratando questões delicadas como nação, cidadania, justiça e liberdade.
Apontando o ensino escolar como uma das arestas no entendimento do percurso político brasileiro, Gomes acredita que "criptografou-se demais a história do Brasil". Por isso, o desejo de permanecer no território que já lhe rendeu o prêmio de melhor livro de ensaio pela Academia Brasileira de Letras para "1808" e melhor livro reportagem e livro do ano pelo Prêmio Jabuti, para "1808" e "1822". "Quero ficar na não-ficção. Sou jornalista e sei lidar com coisas concretas. A ficção exige um mergulho na incerteza que eu não tenho", reflete, comentando em seguida seu fascínio pela Inconfidência Mineira, que pode ser objeto de suas próximas criações. "Pretendo continuar escrevendo sobre a história do Brasil", diz, apontando para um enredo que conjuga interessantes personagens, comédia e drama: "Os bons elementos para contar uma história estão aí, na ‘História’".









