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O samba visto por quem não ‘é’ do samba – mas gosta mesmo assim

Rapper RT Mallone e músicos Dudu Lima e Luiz Castelões dão seus depoimentos sobre como o samba faz parte de suas vidas e as canções preferidas no gênero

Por Júlio Black

02/12/2018 às 07h00

Um dos símbolos da música brasileira, traço marcante de nossa cultura, o samba é gênero centenário que viu incontáveis galhos surgirem de seu tronco sempre robusto, seja o pagode, samba-rock, MPB e tantos outros ritmos que surgiram do samba ou foram influenciados por ele.

Por isso, não é tão difícil encontrar, mesmo fora do meio, quem não seja do samba mas esteja ligado de alguma forma a ele. Seja pelas canções da infância, os desfiles das escolas de samba, bailes de carnaval, as ocasiões em que dividiu o placo ou estúdio com sambistas, gente que é da MPB, do rap e da música erudita, entre outros gêneros, gostam do samba e têm pelo menos alguma memória afetiva a respeito. São os casos do rapper RT Mallone e dos músicos Dudu Lima e Luiz Castelões, que dão seus depoimentos sobre como o samba faz parte de suas vidas e as canções preferidas no gênero.

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‘É muito música de preto’

RT MALLONE (Foto: Leonardo Costa)

“Acho que o rap me levou a uma identificação com o samba muito grande, mesmo sendo leigo no assunto. Faz parte da minha preparação pré-show ouvir sambas como ‘Ogum’, do Zeca Pagodinho, ‘O bem’ e ‘O show tem que continuar’, os dois nas vozes do Arlindo Cruz. Amo a letra de ‘Zé do Caroço’, cantada por Lecy Brandão. E o ponto de ‘Marinheiro só’ também me marca. Também amo Cartola, entre outros. Cresci no São Benedito, indo a apresentações do bloco Vai Quem Quer na quadra do bairro e a festas na casa do Sr. Elias (conhecido mais como ‘o Chefe’), onde o samba era de lei. Lembro de ser uma parte marcante da minha infância durante o carnaval (mesmo tendo sido criado em igreja evangélica). Quanto a um samba preferido, acho que escolho um do Zé Keti, ‘Diz que fui por aí’, porque foi uma das pesquisas musicais que fiz quando comecei no rap, guiado por letras do Emicida. E esse som tem tudo a ver comigo, o poeta apaixonado e boêmio solto na noite cantando sobre saudade. A sinceridade do samba me encanta, fora essa noção de pertencimento da favela, é muito nosso. É muito música de preto, é sincero e sentimental. E são os sentimentos que tento trazer nas minhas músicas.”

‘O baile é uma grande escola’

Dudu Lima (Foto: Leonardo Costa)

“A minha ligação com o samba é muito grande. Primeiro desde criança, frequentando bailes de carnaval, gostando muito da música e vendo aqueles músicos tocarem. Depois, como músico, toquei com o Mamão, Roger Resende, com quem gravei dois discos, Thiago Miranda, Joãozinho da Percussão. Já gravei com o Agenor de Oliveira e a turma de Niterói (RJ). E também fiz muito baile de carnaval como músico, na nossa carreira o baile é uma grande escola, e adoro fazer. O samba influencia e muito minha carreira, tenho vários sambas instrumentais compostos, entre elas o ‘Samba do Forever’ com o Joãozinho da Percussão. Meu trabalho tem muito do samba, são influências explícitas. Fico muito feliz de ver esse movimento do Ponto do Samba em Juiz de Fora e de outro pelo Brasil. Meu samba preferido é ‘Tristeza pé no chão’, do Mamão. Ele me marcou desde criança, quando eu o ouvi na voz da Clara Nunes. A letra tem uma poesia plena, foi feita num momento de muita inspiração, são letras e músicas maravilhosas, toda a poesia do samba está ali.”

‘Baden Powell é tipo um deus’

Luiz Castelões (Foto: Reprodução)

“Adoro o samba totalmente, tanto que meu primeiro quarteto é em homenagem ao Noel Rosa. Peguei ‘Último desejo’ e ‘Barracão’ e fiz um quarteto de cordas baseado naquelas músicas. O samba era forte no Rio, de onde venho, e minha avó materna era assídua no carnaval de rua, antes da Apoteose. Ela era meio erudita nessa história de samba. Quando eu era pequeno, no começo dos anos 80, lembro dela e minha tia-avó assistindo aos desfiles e cantando todos os sambas, fazendo comentários de jurado, mesmo, e eu olhava aquilo e ficava estupefato, intrigado, tentando entender como elas sabiam as letras. Minha primeira ligação com o samba como músico veio aos 8 anos, quando ganhei um violão. Meus pais tinham um disco em vinil do Baden Powell que encontrei em cima de um armário, sabe-se lá como, botei na vitrola e saí copiando tudo. Essa foi minha referência, para mim Baden Powell é tipo um deus, escrevi uma ou duas crônicas sobre ele. Tenho dois sambas preferidos, para não ser injusto. Um é ‘Juízo final’, do Nelson Cavaquinho, celebração sublime da capacidade de síntese na canção popular via samba; uma das canções mais lindas que esta Terra já ouviu. A outra é ‘Deixa’, na versão instrumental do Baden Powell, obra-prima absoluta do samba instrumental.”

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