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Dia Nacional do Samba é comemorado na cidade


Por JÚLIO BLACK

02/12/2014 às 07h00

Ponto do Samba é a atração musical que celebra o Dia do Samba em Juiz de Fora

Ponto do Samba é a atração musical que celebra o Dia do Samba em Juiz de Fora

Data oficial em diversas cidades e estados do Brasil e comemorada oficiosamente em quase todo o país, o Dia do Samba será celebrado nesta terça-feira em Juiz de Fora com palestras, debates e música – afinal, se o dito popular sentencia que tudo acaba em samba do lado debaixo da linha do Equador, não seria em 2 de dezembro que surdos, cuícas e tamborins ficariam em silêncio. A comemoração, porém, teve início no domingo e prosseguiu pela segunda-feira com oficinas e mesas-redondas.

A jornada continua nesta terça já pela manhã, às 8h30, no Auditório Geraldo Pereira, do Instituto de Artes e Design da UFJF, conforme explica um dos responsáveis pelo evento, o músico e integrante do misto de grupo musical e projeto de preservação do samba juiz-forano Ponto do Samba, Carlos Fernando Cunha. O primeiro evento vai discutir estratégias de preservação e recuperação da memória do samba, contando com a participação do jornalista Hugo Sukman, que também é diretor do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e trabalha pela memória da preservação da memória musical brasileira. O antropólogo e diretor cultural da Unidos de Vila Isabel, Vinícius Natal, também presente, vem desenvolvendo uma iniciativa para manter vivo o passado da agremiação. “A gente quer ajudar a fazer o mesmo em relação ao samba de nossa cidade”, afirmou.

A agenda prossegue com a participação de três diretores de bateria cariocas em uma oficina, às 13h30, no Centro Cultural Dnar Rocha. Vários mestres de bateria de Juiz de Fora estarão lá. Os integrantes das escolas cariocas vão falar sobre estratégias de formação de baterias e as diferenças rítmicas entre elas. A ideia é pensar as diferenças existentes entre as agremiações do Rio, o que faz com que elas existam. “Não queremos que o pessoal de fora ensine a gente, e sim que conheçam a realidade local e se faça uma reflexão sobre o samba em geral na atualidade. O que não podemos é deixar que essas diferenças sumam com a homogeneização que tentam impor”, explica Carlos. A última parte da agenda teórica, às 17h30 no Dnar Rocha, será uma palestra sobre a história e a composição do samba-enredo, com o jornalista Carlos Eduardo Sá, coautor do samba-enredo da Mangueira para 2015. Ele vai abordar como se deu o processo que resultou no conceito de samba-enredo e seu desenvolvimento ao longo do tempo.

Como o assunto é samba, é preciso, enfim, colocar a teoria na prática. O Ponto do Samba vai interpretar alguns clássicos do gêneros, às 19h30, no Bar Ibiza. O grupo, que se tornou um projeto da extensão da UFJF este ano, busca recuperar, por meio do seu repertório, a memória do samba da cidade desde as primeiras décadas de seu surgimento, mantendo viva a memória de canções, compositores e cantores. Além de nomes conhecidos do cenário local, como Ministrinho, Ernani Ciuffo, Cocada, Zezé do Pandeiro, Mamão e Biné, o grupo vai tocar clássicos de Paulinho da Viola, Martinho da Vila, João Nogueira e Cartola, entre outros. “Esse momento é importante para a cidade. Com essa relação que desenvolvemos com a UFJF podemos avançar sobre a pesquisa da história do samba juiz-forano”, destaca carlos Fernando.

História que renderia um outro samba

Para preservar a memória, é preciso também acertar as contas com a história. Um dos assuntos que mais irritam o músico e pesquisador Márcio Gomes é a confusão que se faz com a criação do dia para celebrar o gênero musical. “O 2 de dezembro foi escolhido por ter sido o encerramento do primeiro Congresso Nacional do Samba, em 1962. Não foi uma escolha estratégica ou por ter sido o dia da visita de Ari Barroso a Salvador, como ainda se diz. Se o evento ocorresse um ou dois meses antes, possivelmente o Dia do Samba seria em outra data. Não vejo como melhor ou pior, o importante é ter a data, uma maneira de você criar uma série de eventos em todo o país, e isso fortalece a preservação da cultura”, explica.

Uma das peculiaridades da história que gerou a efeméride diz respeito a idas e vindas legislativas sobre o tema. No antigo Estado da Guanabara, o projeto para oficializar o Dia do Samba foi aprovado pelo Legislativo e vetado pelo então governador Carlo Lacerda. O veto foi rejeitado posteriormente, e a comemoração tornou-se oficial em 1964. Pouco menos de um ano antes, a Câmara de Salvador, na Bahia, aprovou iniciativa parecida, destacando que “manda preservar as características da música popular” – algo um tanto quanto estranho, visto que a arte é subjetiva e, por isso mesmo, mutável. “Havia a preocupação de que o samba perdesse sua essência, porque ele não estava com tanta força devido ao surgimento da bossa nova e outras questões. Hoje vemos que é um estilo com muita vitalidade, mesmo sofrendo várias influencias”, explica Márcio.

Ciente de que muitas vezes a lenda tem mais força (ou graça) do que a história, Márcio prossegue na sua luta para colocar o bloco da versão oficial na rua. “Eu fico irritado porque é uma informação falsa. É como se fala, ‘ouviu o galo cantar e não sabe onde’. Eu pesquisei sobre isso em profundidade. A lei de Salvador foi repercussão do Congresso. Está claro que a intenção do vereador foi acatar essa orientação, mas como ele disse que o objetivo era homenagear o Ari Barroso, criou-se essa lenda. Eu já li que ele tinha participado da homenagem, sendo que estava internado no Rio, muito mal. Houve uma situação em que um repórter veio com essa história e iria colocar isso no ar, ao vivo, e eu disse que teria que desmenti-lo na frente de todos. Ele disse que um professor havia comentado esse ‘fato'”, encerra.

Auditório Geraldo Pereira – IAD/UFJF

8h30 – Palestra “Estratégias de preservação e recuperação da memória do samba”, com Hugo Sukman e Vinícius Natal

– Exposição de caricaturas – Luiz Felipe Gonçalves

Centro Cultural Dnar Rocha

13h30 – Oficina “O ritmo das escolas de samba do Rio de Janeiro”, com Mestre Mangueirinha, Cláudio Costa e Erick Cardoso

17h30 – Palestra “Samba-enredo: história e processo de composição”, com Carlos Eduardo Sá

Bar Ibiza

19h30 – Roda de Samba com o Ponto do Samba