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Contagem regressiva para o fim


Por MARISA LOURES

02/12/2012 às 07h00

Esqueça o Natal. Não precisa correr para comprar os presentes, pois o mundo não chegará lá. Pelo menos é o que indicam as profecias acerca de uma catástrofe programada para o dia 21 de dezembro de 2012: alinhamento planetário, colisão do planeta Nibiru com a Terra, tempestade solar, inversão dos pólos magnéticos da terra e fim do calendário maia. Segundo estudiosos, o sistema de marcação do tempo dessa antiga e notável civilização da América Central, prevendo a existência de 13 ciclos que se encerrariam nesse dia, é a principal causa para o medo de alguns. Mas os maias nunca afirmaram que isso era o fim do mundo, diz David Stuart, da Universidade do Texas, um dos maiores especialistas da epigrafia maia, à Veja.

A revista recém-lançada Vem aí um apocalipse, distribuída pelo Observatório Municipal de americana (SP), é apenas uma entre várias publicações que tentam tirar proveito do assunto. No periódico, os astrônomos Nelson Travnik e Carlos Andrade discorrem sobre as predições que envolvem o ano de 2012. Eu tive a ideia de escrever essa revista para informar as pessoas sobre esse tema que anda em alta. Com o final do ano e a aproximação do dia 21 de dezembro de 2012, creio que isso se intensificará, disse Travnik, em entrevista ao Globo.com.

Decidida a dar fim a tantas especulações, a Agência Espacial Americana (Nasa) realizou na quarta-feira, conferência on-line com a presença de diversos cientistas. O objetivo era desmentir rumores de que o mundo não chegará a 2013. No último dia 18 de novembro, durante recitação da Oração do Angelus, o Papa Bento XVI também fez questão de desvalorizar as previsões catastróficas. Ele (Jesus), pelo contrário, quis afastar os seus discípulos de todos os tempos da curiosidade sobre as datas, as previsões, e quis dar uma chave de leitura profunda, existencial, e indicar, sobretudo, o caminho correto, declarou o pontífice na Praça São Pedro, em Roma.

Apesar de, até agora, nenhuma das previsões ter se concretizado, ainda há quem acredite que o fim do mundo esteja próximo e que naves espaciais ou marítimas levarão a população para habitações capazes de resistir a desastres que vierem a ameaçar o planeta, conforme explorado exaustivamente por filmes hollywoodianos. Aproveitando o tema, a Tribuna pergunta o que você faria se o dia 21 de dezembro de 2012 fosse o último de sua vida? Faltam apenas 19 dias para você tentar botar em prática todas as suas ambições.

O mundo vai expirar só em Juiz de Fora, porque é o único lugar que reúne condições necessárias para isso. Veja, por exemplo, todas as intervenções feitas no trânsito da cidade e a decadência econômica. Impera a falta de perspectiva. Aliás, o mundo só não acabará aqui se não tiver teto para os Cavaleiros do Apocalipse descerem no Aeroporto da Serrinha, satiriza o humorista Gueminho Bernardes.

Já Pablo Peixoto, gerente de conteúdo da Agência FBiz, de São Paulo, e um dos roteiristas da extinta série Avassaladoras, da Rede Record, que morou em Juiz de Fora durante 13 anos, defende que a concretização das profecias é uma boa desculpa para o brasileiro não trabalhar. As cenas apontadas por ele são dignas de um verdadeiro longa-metragem. Em alguns dias não teríamos luz e água. Polícia e bombeiros iam cruzar os braços. Vandalismo, incêndios, saques, estupros, suicídios e assassinatos iam ser frequentes. Pânico nas ruas imundas e escuras das cidades tomadas por gangues. Acho que, em um cenário desse, ia me armar do que pudesse roubar, trancar tudo e tentar proteger minha família de uma morte mais terrível que a anunciada pelo fim do mundo, brinca. Pensando em algo mais simpático, faria tudo o que não faço normalmente. É engraçado como precisamos esperar o mundo acabar para começarmos a viver. Por que não faço isso tudo hoje mesmo?, questiona.

Entre os vários comentários postados no Facebook da Tribuna e entrevistas levantadas por telefone ou no Calçadão da Halfeld, parece que realmente esperar a terra ruir ao lado de quem ama ainda é a preferência da maioria dos juiz-foranos. O guitarrista da banda Strike, André Maini, daria um tempo na agenda de shows para curtir amigos e familiares. Fingiria que ganhei na Mega-Sena e aproveitaria o máximo da vida, já que não a teria mais.

O apocalipse à luz da ciência e da religião

O professor e coordenador do Curso de Teologia do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora/MG, padre Geraldo Dondici Vieira, assevera que, para o catolicismo, o mundo não acabará conforme ditam tais profecias, pois ele já se completou com a vinda de Jesus Cristo à Terra. Cristo já revelou tudo que precisávamos saber, e Deus não vai destruir tudo por uma sentença jurídica, por um capricho ou para punir alguém. A conclusão da história e dos tempos é um processo espiritual, observa, acrescentando que uma interpretação errada dos escritos do evangelista João dá margem a tantas crenças equivocadas. Só a leitura plástica do livro pode trazer esse problema. As teorias são do apocalipse judaico antigo. O fogo que pode acabar com o mundo só existirá se for da bomba. O dilúvio de Noé não foi planetário e faz parte da cultura mesopotâmica, que sofreu inundações, ou de um inconsciente coletivo.

Conforme aponta Marcelo Camurça, antropólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião e em Ciências Sociais da UFJF, desde que o mundo é mundo, o homem sempre refletiu e acreditou em um começo e um fim. Na visão dele, uma das justificativas para que o tema mobilize tanto a humanidade está ligada a seitas criadas ainda na Idade Média, como é o caso do messianismo e do milenarismo. De acordo com ele, as mudanças climáticas e as inovações tecnológicas seriam as únicas explicações lógicas para um possível fim do planeta. Do ponto de vista da ciência, o Sistema Solar um dia vai acabar, até porque o que o homem está construindo em termos de tecnologia está destruindo esse mundo. Estamos vivendo empiricamente e concretamente situações que evocam o fim, como por exemplo, as construções de usinas nucleares, o que vem como resposta no plano do mito e do imaginário.