O bamba e o seu chapéu
A caminho da escola, o adolescente José Almada Moreira passava pela porta de outra escola. Isso durou anos até que o menino, já no Exército, passou a frequentar a Castelo de Ouro, agremiação carnavalesca próxima à sua casa no Bairro São Benedito. O ano era 1971, quando José Almada ingressou no universo do samba, tornando-se Zezé do Pandeiro, nome herdado do instrumento que seu pai tocava. Hoje tem 67 anos de idade e 40 como intérprete.
Diretor artístico da Liga das Escolas de Samba de Juiz de Fora (Liesjuf), o compositor, atualmente aposentado do Exército, mantém um escritório de contabilidade e consultoria com a esposa Neide Amaral no Bairro Mariano Procópio. Por lá, inclusive, o homem de negócios conversou com a Tribuna sobre seu passado e o futuro que espera para a folia na cidade, para marcar o Dia Nacional do Samba, celebrado hoje. O carnaval é cultura, independentemente das negociações que se faça, dispara o músico, batendo a mão esquerda nas pernas como se tivesse tocando o instrumento que acompanha seu nome.
A pulseira e o relógio de prata realçam suas habilidades como bamba, mesmo dentro da sala de negócios. Faltava o chapéu Panamá, que, de uma hora para outra, surge de uma bolsa no cômodo ao lado para a sessão de fotos. Por aqui, ainda falta apoio político voltado ao carnaval. Quando digo isso, quero apontar para onde se concentra a força do carnaval de Minas. Na capital é que não é, ressalta o compositor, cujo quesito sinceridade parece continuar com a nota máxima.
Tribuna – Como foram seus primeiros contatos com escola de samba?
Zezé do Pandeiro – Como minha família era de origem evangélica, havia uma certa repulsa em termos de carnaval. A música nem tanto, mas carnaval era proibido. Porém, como fui criado em comunidade, no São Benedito, esse contato seria certo. Na adolescência, indo e voltando da escola, passava em frente à Castelo de Ouro, extinta agremiação carnavalesca. Houve até um movimento para reabri-la, mas não foi para frente. Mas ela continua a escola do meu coração.
– Havia espaço no Exército para sua vocação?
– Fui incorporado ao Exército em 1964. Trabalhava com material bélico, o que não tinha nada a ver com música. Não passei no concurso para a banda do Exército, estava envolvido com outras coisas. Mas foi durante esse período de incorporação que me liberei do vínculo familiar e me tornei assíduo na Castelo de Ouro como ritmista na bateria. Um dia, num botequim, ao ouvir Iracy dos Reis – um dos compositores da escola – tocar cavaquinho, me atrevi a cantar uma música que nem me lembro mais qual é. Tinha um pessoal olhando que elogiou: você tem a voz boa, não quer participar de um conjunto? A partir daí, comecei a fazer parte do regional, como chamavam os grupos na época. Meu pai gostava de tocar pandeiro, aprendi com ele. E do regional foi um pulo para a escola de samba.
– De que forma veio o primeiro contato direto com o carnaval como intérprete?
– Meu parceiro falecido, Bené, foi o primeiro, em 1972. Um ano antes, o (Armando Aguiar) Mamão e o Hégeo Pontes concorreram na Castelo de Ouro com o samba Brasil das três raças. Quando me viram cantando na quadra, me convidaram para cantar o samba na avenida, dizendo que o presidente da agremiação fazia questão. Você vai pegar o microfone e vai sair cantando em frente à bateria, foi o que o presidente me disse. Não conhecia Mamão, mas sabia que poderia dar certo. O tipo de som dos desfiles era diferente, bem rústico, não havia essa coisa de ala de compositores. Na época, chamou a atenção porque as escolas tinham o samba cantado por grupos, como um coral. Mas de 1971 para cá, essa história mudou. Me considero, por isso, um dos pioneiros enquanto intérprete, termo que gerou polêmica quando perguntaram ao Jamelão se ele era puxador. Ele afirmou que era intérprete. Hoje, todos somos considerados intérpretes.
– E quando começou a compor?
– A primeira composição de samba-enredo veio em 1972, com Festa folclórica (também na Castelo de Ouro), ao lado de Bené. Como havíamos transformado o modo como desfilar, a bateria também mudou. Se antes a parte instrumental era mais leve, com instrumentos de madeira, depois passamos a utilizar caixa, surdo, tamborim. Com isso, as escolas foram se modernizando.
– A partir daí, qual é o papel do intérprete de hoje?
– É praticamente conduzir a escola. Tudo está sob sua responsabilidade. Qualquer falha compromete a evolução, a harmonia etc. Atualmente, os grandes intérpretes são até muito bem remunerados, como Wander Pires, Dominguinhos do Estácio e Neguinho da Beija-Flor. Mas a retaguarda precisa ser boa para não comprometer os 80 ou 90 minutos de desfile.
– Quantos sambas na avenida?
– Sendo 40 anos de carnaval, nunca fiquei longe do carnaval fora o período em que o (prefeito Alberto) Bejani cancelou a festa (1989 a 1992). Contabilizamos então cerca de, no mínimo, dois sambas por ano. Quase 80.
– Qual é sua avaliação da festa atualmente?
– Hoje não está havendo renovação, e isto prejudica a profissionalização do carnaval. É preciso um trabalho específico com a comunidade, para manter os jovens dentro das quadras, onde possam aprender a compor, desenhar, costurar. A criança cresce vestindo a camisa. Se fizer uma pesquisa no Calçadão, por exemplo, o jovem não sabe a localização das escolas da cidade. Falta identidade, isso chateia muito.
– O ritmo está mais acelerado também…
– Sim, o ritmo foi se acelerando na medida em que as escolas foram aumentando o número de componentes. No passado, as escolas desfilavam com regras menos rigorosas, esse ritmo vem dos anos 80. Uma agremiação tipo a Mangueira tem quatro mil (foliões) para passar em 80 minutos. Em Juiz de Fora, não tínhamos a necessidade de fazer isso, o nosso carnaval não deveria seguir modelo, para o folião aproveitar mais o tempo de desfile. As escolas, em sua maioria, não ultrapassam mil componentes, o que não exige uma cadência mais acelerada e todo mundo ter que sair feito louco pela passarela do samba.
– Qual é sua proposta para o resgate do carnaval por aqui?
– Tínhamos que apagar da nossa mente essa história de copiar do Rio. Podemos fazer nossa festa mais regional.
– É a favor da mudança da data dos desfiles?
– Isso ainda é uma incógnita, sou a favor de mudar as datas do desfile, mas não do carnaval, embora eu não tenha informações específicas sobre o projeto. A antecipação dos desfiles poderia alavancar a festa, mas a do feriado não.
– O carnaval de rua proposto pela Funalfa uma semana antes do feriado esse ano atraiu milhões às ruas…
– A Funalfa enalteceu e abraçou a causa da folia de rua. Isso foi bom para arrebanhar o público da Zona da Mata, embora tenhamos muito o que aprender.
– Qual é o papel da Liga (Liesjuf)?
– A liga, através das escolas, deveria se voltar para o social, por meio de projetos que o poder público apoia, afinal qualquer proposta para tirar criança da rua é aprovada, mas faltam projetos. É preciso abrir as quadras que, em sua maioria, permanecem fechadas ao longo do ano, a não ser com atrações como bailes funk ou almoço, em que você comparece e vê sempre os mesmos abnegados.
– A história da cultura dentro da quadra…
– Claro. Ivo Meirelles com seu Funk’n Lata só conseguiu isso através da mistura de funk e outros ritmos com o samba, cativando a comunidade da Mangueira a participar do dia a dia da quadra. Isso gera foliões. Não adianta isolar.
– Falando no carnaval carioca, como foi sua estreia na Sapucaí, ao lado dos compositores Amilton e Ailton Damião, Edyne e Edinho Leal?
– Foi em 1999, quando ganhamos com um samba na Portela sobre os 500 anos do Brasil. A escola saiu com o enredo Trabalhadores do Brasil – A época de Getúlio Vargas. Todos de Juiz de Fora desfilamos ao lado do intérprete oficial (Gera) da agremiação. Na época, por sermos mineiros, os cariocas começaram a gozar os compositores da Portela.
– E como é essa história de samba a muitas mãos?
– Cada um escreve um pedaço. O cara pega o enredo e destrincha. Não sou letrista, mas acabo dando pitaco. Tudo começa com o refrão. No último, inclusive, a responsabilidade é maior, pois é por meio dele que a bateria vira. No primeiro refrão, os ritmistas diminuem as batidas e, no segundo, voltam a levantar. É o refrão de identificação, a preocupação é maior.









