Trocando ideias na madrugada
O professor João Luiz de Souza sempre teve dificuldades para dormir, mas conseguiu transformar o que era para ser um problema em um bom programa para os cariocas. Agitando as madrugadas do Rio de Janeiro desde 2004, o Corujão da poesia reúne escritores, leitores e toda a sorte de artistas dispostos a virar a noite ouvindo literatura, música e muito mais. O movimento que conquistou o apoio de celebridades, como Jorge Ben Jor e Caetano Veloso, terá uma edição em Juiz de Fora, na sexta, durante a Feira do Estudante, no La Rocca. O evento terá microfones abertos para quem desejar compartilhar a sua arte.
Professor de literatura na Universidade Salgado de Oliveira (Universo), no Rio de Janeiro, José Luiz de Souza defende que o aprendizado pode se dar de maneiras diferentes para cada pessoa e que o primeiro passo nesse sentido é conhecer a si mesmo. Sua história com os saraus literários começa justamente nessa descoberta. Tinha facilidade com língua portuguesa e literatura e muita dificuldade com matemática. Percebendo isso, uma professora propôs que eu organizasse uma feira literária, conta. Durante o evento, João Luiz passou a observar a predisposição de colegas para se expressar com poesia, algo que o marcaria para o resto da vida. Assim como eu, eles encontraram uma forma de superar as diferenças que vinham de outras áreas, e encontrei o meu espaço de afirmação. Quando alguém consegue isso, a autoestima é elevada, e a pessoa se sente bem, analisa.
Anos mais tarde, o professor aprendeu a reverter os ponteiros do relógio a seu favor. Insone, teve a ideia de criar um encontro semanal de literatura, realizado entre meia-noite e 6h. O projeto de extensão foi aprovado pela Universo e passou a ser realizado às terças em uma livraria no Leblon. Para sua surpresa, João Luiz descobriu que muita gente compartilhava do mesmo distúrbio do sono. Pensava que viria pouca gente. Mas, na quarta semana, o local já não comportava mais pessoas. Tínhamos que fazer rodízio de público, relata.
Em sete anos de atividades, João do Corujão (como ficou conhecido) orgulha-se em afirmar que nunca houve grandes incidentes no evento, mesmo sendo realizado durante a madrugada em uma cidade violenta, como o Rio de Janeiro. O projeto ganhou ainda mais vulto com o apoio do músico Jorge Ben Jor, considerado o padrinho do Corujão. Além de Ben Jor, outros famosos costumam aparecer para tocar música ou ler poesia, como Caetano Veloso, Elza Soares, Letícia Spiller e Betty Lago. Tivemos um apoio muito grande de artistas, intelectuais e também da mídia, diz.
João Luiz promete convidados locais no sarau em Juiz de Fora, embora ainda não tenha fechado todos os nomes. O professor, aliás, lembra que todos os que quiserem subir ao palco serão bem-vindos, incluindo não só escritores, mas também músicos, atores e dançarinos. Antes de dar início às apresentações, o educador realiza a palestra Estudar: um ato de paixão e possibilidades, em que tenta explicitar a ligação indispensável entre a dedicação ao estudo e as conquistas do ser humano. Tudo é parte de um conhecimento, que é fruto de um esforço. A vida exige paixão pelo conhecimento.
Além de tornar as madrugadas mais produtivas e divertidas, João Luiz também contribui para a democratização do conhecimento com o projeto Liberte o livro. A partir dessa iniciativa, os Corujões da poesia tornaram-se pontos de doação de livros. Os títulos recebidos são repassados a instituições diversas, incluindo bibliotecas em escolas, associações comunitárias, presídios, centros de reabilitação, entre outras modalidades. Até hoje, 158 locais já receberam o acervo. Já montamos bibliotecas em locais que sequer sabemos onde ficam. São pontos de apoio a testemunhas, conta.
Segundo o professor, o próximo passo é ampliar essa distribuição de livros. A ideia é incentivar os participantes a escolherem as pessoas beneficiadas. Esse ato de doar o livro cria um vínculo entre esses dois leitores. É muito melhor do que receber edições que chegam de um lugar abstrato, comenta.
PALESTRA E SARAU
Sexta, às 20h
La Rocca
(Av. Deusdedith Salgado 2.500)









