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Esculpindo a cultura


Por RENATA DELAGE

02/08/2013 às 07h00

Victor Brecheret era um artista visceral. Passava a noite em claro trabalhando em suas obras, mas, se não gostasse do resultado, pela manhã, desmanchava tudo e recomeçava do zero, compartilha Cidô Brecheret, curadora da exposição A arte indígena de Victor Brecheret, inaugurada hoje no Espaço Cultural Correios em Juiz de Fora. O projeto é uma realização do Instituto Victor Brecheret e foi selecionado no edital 2012 de patrocínio da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), possuindo ainda incentivo do Ministério da Cultura.

A mostra expõe ao público 46 peças originais de um dos maiores escultores do país. Embora tenha nascido na Itália, em 1894, o artista veio para São Paulo ainda menino, trazido pelos tios, aos 10 anos. Além das esculturas em variados suportes, como pedra e bronze, a exposição reúne esboços de desenhos em papel – pertencentes ao Instituto Victor Brecheret -, fotos, documentos originais da época e ferramentas usadas pelo artista.

Em meio às peças, está a famosa escultura em pedra O beijo, atualmente integrante do acervo do Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). A temática do beijo foi bastante desenvolvida pelo artista em todas as suas fases, pontua a curadora, esposa do filho de Brecheret, que carrega o mesmo nome do pai.

A coleção exposta traz obras representativas da terceira e última fase do artista, falecido em 1955. Segundo a crítica especializada, uma importante característica da carreira de Brecheret é a linearidade da qualidade de suas obras, ainda que estas assumam características diferentes em cada uma de suas fases.

Brecheret é também autor de representativos monumentos públicos como o Monumento a Duque de Caxias e o Monumento às bandeiras, ambos em São Paulo, sendo este considerado, segundo Cidô, a obra dos sonhos dele, finalmente executada após temporada de duas décadas do escultor na França. As décadas de 1920/30 foram muito fervilhantes nas artes em Paris e também o auge de sua carreira, destaca a curadora. Este monumento, no qual são representadas todas as raças, foi inaugurado em 1953, um ano antes da data prevista, o aniversário de 400 anos da capital paulistana. Ele já temia não estar vivo na ocasião, conta.

Ao longo da carreira, Brecheret participou de importantes exposições e de inúmeros salões na Itália, Holanda e França, sendo premiado em muitos deles. Uma dessas premiações foi concedida a sua escultura em terracota O índio e a suaçuapara, na primeira edição da Bienal de São Paulo, em 1951, o que o consagrou como melhor escultor do Brasil.

A brasilidade e o modernismo

Segundo a historiadora Maria Izabel Branco Ribeiro, Brecheret estava em busca, desde a década de 1940, de uma escultura ‘legitimamente nossa’, com a introdução de aspectos relacionados ao índio brasileiro, manifestos em alterações na tipologia de seus personagens, no uso de grafismos específicos e outros tratamentos técnicos, na escolha dos temas e, em alguns casos, na apropriação de pedras como suporte. Não por outra razão, sua última fase ficou conhecida como arte indígena.

Quando ele retornou ao Brasil, em 1936, encantou-se com os temas daqui e passou a trabalhar com motivos brasileiros, como índios, animais, explica Cidô Brecheret. A curadora conta que o artista assistia a diversos documentários e se impressionava com a diversidade da arte e da cultura nos distintos locais do país, a exemplo da Ilha de Marajó, com seus búfalos e sua arte marajoara.

Outro gosto incorporado à arte do escultor se justifica nas muitas viagens a Santos, em São Paulo. Ele gostava muito do mar. Transformou as pedras roladas em esculturas, conta. Esta última fase é mais ‘contemporânea’. Ele trabalhou com gesso, terracota, bronze, pedra rolada.

Brecheret, ao lado de Anita Malfatti e Lasar Segall, possui papel de destaque no período que antecede 1922, colaborando para caracterizar a formação inicial do grupo modernista. Sua obra inspirou personagens de romances de Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia e, ainda, atribui-se à escultura Cristo de trancinhas a influência pelos versos iniciais de Pauliceia desvairada, de autoria de Mario de Andrade.

O Cristo de Brecheret não era exatamente comum, com seus cabelos trançados. Ele chocou na época em que foi feito, conta Cidô. O Mario ficou muito empolgado com a obra e, quando a levou para casa, horrorizou suas tias. Foi neste dia que começou a escrever ‘Pauliceia desvairada’. Esse choque era justamente o que a época pedia.

A ARTE INDÍGENA DE VICTOR BRECHERET

Abertura hoje, às 19h. De segunda a sexta, das 10h às 18h, sábados, das 10h às 14h

Espaço Cultural Correios

(Rua Marechal Deodoro 470)