Ouça agora

Sem conjunto, sem certezas


Por MAURO MORAIS

02/06/2015 às 04h00- Atualizada 02/06/2015 às 09h43

Premiada e pioneira, Orquestra Barroca não se reúne pelo primeiro ano desde sua criação

Premiada e pioneira, Orquestra Barroca não se reúne pelo primeiro ano desde sua criação

Essa semana, começariam as inscrições para os cursos, os professores já teriam confirmado suas presenças, e a programação principal já estaria integralmente fechada. Faltaria pouco para que fosse iniciada a 26ª edição do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, que em 2014 aconteceu entre 14 e 27 de julho, em Juiz de Fora. Contudo, o cenário é de muitas incertezas, ainda. Em seu perfil no Facebook, o diretor artístico do festival, Luís Otávio Santos, comunicou na segunda (1º), o cancelamento do mais forte e tradicional conjunto do evento. “Depois de 15 anos consecutivos e 15 CDs gravados, que se tornaram paradigmas de qualidade da música antiga feita no Brasil, a Orquestra Barroca do festival não acontecerá este ano”, lamentou o violinista. “A Sinfonia Eroica de Beethoven, pela primeira vez no Brasil com instrumentos de época e grande atração, foi cancelada, por motivos estruturais que já não são da alçada da família Sousa Santos”, continuou, citando a peça que estava sendo estudada desde janeiro.

O cancelamento da apresentação da formação esse ano, e por consequência da gravação do disco, aponta para o enfraquecimento da nova edição do evento. Considerada uma das orquestras mais importantes do gênero no país, vencedora do prêmio “Disco de Ouro” da revista “Diapason”, em 2006, ela representa a trajetória ascendente do evento. Em São Paulo, onde reside, Luís Otávio manifestou, por telefone, seu pesar diante da conjuntura. “O álbum é o carro-chefe e o produto de exportação do festival. Nosso projeto, desde o início, sempre se baseou no pioneirismo. É ambicioso e de grande repercussão. A relevância da Orquestra Barroca não pode ser varrida para debaixo do tapete”, afirma. A situação coincide com o momento em que a UFJF assume integralmente as atividades do Pró-Música, finalmente federalizado após quatro anos da assinatura da incorporação.

De acordo com a pró-reitora de Cultura da UFJF, Valéria Faria, a Orquestra Barroca, que este ano contaria com 40 integrantes, não se tornou viável no cenário econômico atual. “Alguns investimentos não conseguimos mais fazer”, pontua. “Perdemos, assim, a noção de tradição, mas essa é uma perda que conseguiremos contornar”, pondera Marcus Medeiros, professor do Departamento de Música da universidade, nomeado como interventor no processo de incorporação da instituição cultural. Para Valéria, outros fatores também contribuem para dificultar a execução do evento. “Não bastasse a falta de recursos para fazer esse festival que já teve muitos e grandes patrocínios no passado, temos, agora, a greve. Não posso garantir que ele aconteça nesse momento, porque o cenário é crítico, tanto na ordem financeira quanto estrutural”, acrescenta, apontando para o uso do Restaurante Universitário e do transporte terrestre, ambos fundamentais para a produção.

Com cortes

“Nós, da família, com o ‘know-how’ da feitura do festival por 25 anos, sabemos que existe um cronograma, uma cartilha que precisa ser seguida invariavelmente. Este ano, ela não está sendo seguida. O que foi captado de recursos para termos um evento de qualidade não foi obtido”, comenta Luís Otávio Santos, filho dos fundadores do Pró-Música, o casal Maria Isabel e Hermínio de Sousa Santos. Segundo ele, os cursos oferecidos ainda não foram confirmados, o que mostra certa inviabilidade temporal para a realização do evento. “Não há confirmação com os professores, estamos segurando os convites por já termos uma relação de anos com essas pessoas”, diz.

“Conseguimos captar um valor bastante bom para esse ano que é de crise”, discorda Marcus Medeiros, sem revelar as cifras. “Não conseguimos o valor total, mas um montante que viabiliza o festival. Até o momento, temos a esperança de que ele esteja confirmado”, completa o interventor, responsável de dentro da universidade por acompanhar as ações da instituição cultural. Para Valéria Faria, adiar pode ser uma saída. “O maior desconforto é ter que repassar isso às pessoas que já se agendaram, mas transferir uma instituição privada para um espaço público subentende a sujeição a essa nova dinâmica”, discursa a pró-reitora.

Diretor geral do festival, Júlio Cesar de Sousa Santos explica que a idealização do festival fica a cargo da família, enquanto a execução é repassada à universidade. Até o momento, tudo foi projetado, mas a produção tem sofrido com diversos entraves. “Todos estão empenhados em não comprometer esse projeto. Se comprometer, teremos que estudar soluções”, afirma. “Nosso ideal é que haja uma sequência. Esperamos isso da universidade. Não podíamos continuar como estávamos. Demos o Pró-Música no auge de seu vigor. A UFJF teria a força, o poder e a qualidade para executar esse projeto. Contudo, diante desses problemas pelos quais passam as instituições públicas, nos resta esperar. Dias melhores virão”, reflete, bastante otimista, a também diretora geral Maria Isabel.

Por todo canto

A programação do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga é, ano a ano, anunciada em data próxima à do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Esse ano, a agenda do evento que acontece no interior de São Paulo, de 4 de julho a 2 de agosto, já foi divulgada. Porém, a edição deste ano sofreu corte de 30% em seu orçamento, passando de R$ 6,5 milhões para R$ 4,4 milhões. Os principais afetados são os músicos bolsistas, que não irão permanecer na cidade durante o mês e farão os cursos na capital. Essa é a primeira vez, em 46 anos, que Campos do Jordão não sedia as tradicionais aulas. Em Juiz de Fora, o festival também se aproveita do período de férias dos estudantes, que chegam à cidade para os cursos modificando a paisagem central. Com uma possível alteração na data, a vinda desses jovens pode ser prejudicada.

Os impasses que cercam o festival são, apenas, a ponta de um momento de grande instabilidade na cultura produzida pelas principais fomentadoras locais, a universidade e a Prefeitura. Inédita em sua história de mais de 40 anos, a paralisação das atividades no centro cultural da Avenida Rio Branco ocorre desde janeiro, sem previsão de retomada. Tal medida foi necessária para que fosse concluído o processo de federalização do espaço e da entidade. Além disso, ainda é estudado um formato de gestão financeira para o teatro. O festival, então, perde assim como toda a instituição. “Não temos como acelerar e agilizar a produção do festival como fizemos nos outros anos. O que podemos fazer é cobrar, apenas”, indigna-se Luis Otávio Santos. “Não podemos deixá-lo se tornar um festival como outro qualquer.”