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Dissecando o tempo


Por MAURO MORAIS

02/06/2013 às 07h00

"Além de dar assim leste e oeste para a escolha do destino, a rua Direita é a reta onde cabem todas as ruas de Juiz de Fora", relatou o escritor Pedro Nava, referindo-se à Av. Rio Branco, em seu primeiro livro de memórias, "Baú de ossos", publicado em 1972, aos 69 anos. Nos dias de hoje, na tal Rua Direita já não cabem todas as ruas, que transbordam por lugares que Nava nem imaginou habitados. Há os que nem sequer passam por ela e escolhem outras vias. Há os que preferem a BR-040, que margeia a cidade e levou o escritor ao Rio de Janeiro (na época, a rodovia se chamava BR-3), onde se radicou.

A despeito do que poderia se mostrar datado, Nava, que completaria 110 anos no próximo dia 5 e registrou de maneira peculiar os outros tempos, demonstra ter muito fôlego, tanto no mercado editorial brasileiro quanto na academia. Transferidas para a Biblioteca Comunitária Pedro Nava, no Monte Castelo, sua cadeira e sua máquina de escrever valorizam o espaço do intelectual, rejeitado durante muito tempo por sua terra natal, já que a cidade não abriga nenhum outro espaço ou monumento relacionado à memória do juiz-forano.

Considerado um dos livros mais importantes da literatura brasileira, "Baú de ossos" é o primeiro volume do conjunto de seis obras memorialistas do autor, que teve postumamente publicado o sétimo livro, ainda incompleto. Segundo a professora aposentada da Faculdade de Letras da UFJF Ilma de Castro Barros e Salgado, uma das referências nos estudos da obra do escritor, a variedade de recortes possíveis na produção de Nava faz dele um autor atual. "O memorialismo por si só seria enfadonho. Há algumas décadas, as pessoas começaram a perceber várias outras leituras nas memórias dele", explica, apontando discursos relacionados a política, medicina, arte culinária, entre outros.

Médico como Pedro Nava – que se dedicou profundamente aos estudos da anatomia humana e tornou-se figura importante para os avanços da reumatologia -, o infectologista juiz-forano Cassimiro Baesso estreitou seus laços com a literatura estudando o inédito "O Dr. Torres Homem", para seu mestrado em letras. Apesar de inacabado, o manuscrito configura-se como a única biografia escrita por Nava, hoje pertencente ao acervo do intelectual, sob posse da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. "Ele escrevia memórias, mas, na verdade, tratam-se das lembranças de uma geração. Ele conseguiu abarcar muita coisa, por isso a obra só tende a crescer", aponta Baesso, certo de que o olhar mais distante propicia isenção tal, capaz de perceber as sutis nuances das narrativas.

Uma das áreas mais estudadas na produção naveana, os escritos relacionados à medicina, de acordo com estudiosos, contribuem para a historiografia da área. "A matéria médica está em toda a obra. Pedro Nava sempre escreveu como médico, dissecando perfis e situações. Ele foi um grande anatomista, enumerando todos os assuntos", analisa Baesso. Datado da década de 1940, o texto sob o qual o infectologista se debruçou confirma a estreita relação que Nava estabeleceu entre as palavras e o jaleco branco. "Os dois tinham personalidades muito parecidas. O Torres Homem, um reconhecido médico do século XIX, funcionou para Nava como um alter ego na medicina", comenta o estudioso.

 

História dos afetos

Tido como um dos projetos editoriais mais fortes de 2012, a reedição da obra completa de Pedro Nava pela editora Companhia das Letras, uma das maiores do país, corrobora o vigor literário do homem, que, após aposentar-se do serviço público, já na terceira idade, dedicou-se às letras. Cuidadosamente tratados, os quatro livros já lançados, seguindo a cronologia da produção, trazem uma sobrecapa simulando os antigos arquivos literários, tanto na fonte semelhante à máquina de escrever quanto no papel cartão. "A obra do Nava constitui uma das mais importantes da língua brasileira. Embora todos os livros sejam bem localizados tanto no tempo quanto no espaço, o que está ali é uma história dos afetos no Brasil, da sociedade nacional", defende o editor Leandro Sarmatz, responsável pelas novas edições.

Além de "Beira-mar", de 1978, que acaba de chegar às prateleiras, Sarmatz espera lançar, ainda esse ano, "Galo-das-trevas", de 1981. Em 2014, os últimos dois títulos – "O círio perfeito", de 1983, e "Cera das almas", póstumo, de 2006 – concluem o projeto editorial, o qual, de acordo com o editor, não configura best-sellers mas apresenta vendas constantes e satisfatórias. "A escrita do Nava é densa e refinada. Ele utiliza palavras regionais e tem parágrafos longos. É um autor canônico", afirma Sarmatz, que ainda completa: "Isso vai ficar como a história lírica do século XX".

 

O registro, o umbigo e o dente

 

Ao falar de Juiz de Fora em seu "Baú de ossos", Pedro Nava observa: "A margem esquerda da rua Halfeld marcava o começo de uma cidade mais alegre, mais livre, mais despreocupada e mais revolucionária.

O Juiz de Fora projetado no trecho da rua Direita que se dirigia para as que conduziam a Mariano Procópio era, por força do que continha, natural­mente oposto e inconscientemente rebelde ao alto dos Passos". Por uma coincidência do destino, o lugar pelo qual o escritor demonstrou admiração acaba de receber dois objetos pessoais de grande relevância: uma cadeira (conhecida por servir aos fantasmas, segundo apontou o autor em "Galo-das­-trevas") e uma máquina de escrever Remington. Expostos em "Navalha do tempo", mostra come­morativa que marcou o centenário do intelectual e ocupou o antigo Centro de Estudos Murilo Mendes (Cemm), os objetos, restaurados pela UFJF, estavam guardados na reserva técnica do Museu de Arte Murilo Mendes. 

Sob responsabilidade da professora Ilma Salgado, a cadeira e a máquina foram transferidas para a Biblioteca Comunitária Pedro Nava, do Centro Cul­tural Farol do Saber, no Bairro Monte Castelo, com a aprovação de Paulo Penido, sobrinho de Nieta, es­posa do escritor, e detentor dos direitos autorais da obra de Nava. "Essa cadeira deveria ficar num lugar público, porque ele é um homem público", defende Ilma, que planeja transferir, também, os seis volu­mes dos livros de Nava e obras de Charles Dickens e Shakespeare, pertencentes ao escritor e doados a ela pela irmã dele, Ana Nava. 

"Mesmo com todas as limitações de nosso espaço, nossa biblioteca é uma das poucas iniciativas que honram esse escritor em Juiz de Fora. As páginas mais bonitas e mais profundas que conheço, falan­do sobre a cidade, foram escritas por Nava", comen­ta o vereador Wanderson Castelar, um dos fundado­res da casa pertencente à SPM do bairro. De acordo com ele, a biblioteca, atualmente em reforma, deverá reabrir até o final de junho, com uma vitrine especial para os objetos. "Não há esse aspecto, que todo mundo fala, de que ele não gostava de Juiz de Fora. Ele dissecou a cidade como nenhum outro fez", afirma Ilma, assegurando não haver qualquer resistência do autor com sua terra natal. 

Em entrevista a Salvatore Maddalena, da finada Livra­ria Península, Pedro Nava – que se suicidou em 1984, semanas antes de completar 81 anos – demonstra o afeto que a cidade insiste em encobrir. Pedido para en­viar uma mensagem a sua terra, o escritor não hesitou: "Dêem-se as mãos e existam para nosso bem. Essa é a mensagem dum homem que nunca se esquece de que seu registro civil, seu umbigo e seu primeiro dente de leite ficaram em Juiz de Fora. E que esta cidade dispo­nha do meu coração".