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Um aperto de saudade


Por JÚLIA PESSÔA

02/04/2013 às 07h00

"Ninguém vai tombar a minha bandeira." No auge de sua carreira, Clara Nunes nem sabia que, ao entoar tais versos de "Guerreira", composição de seu marido Paulo César Pinheiro com João Nogueira, previa sua eternidade artística, a despeito dos 30 anos de sua morte, completados hoje. "O que ela fez é tão belo e tão atemporal que encantará muitas gerações vindouras", enfatiza o jornalista Vagner Fernandes, autor da única biografia da cantora, "Clara Nunes- Guerreira da utopia", que deve ter uma adaptação para os cinemas lançada ainda este ano.

Natural de Paraopeba (hoje Caetanópolis), a mineira dos cabelos atrevidamente vermelhos e crespos renasce até hoje na voz de outros talentos, que continuam a tê-la como referência. É o caso de Aline Calixto, que sempre foi comparada à cantora. "Acho que a semelhança que as pessoas encontram é na entrega, no fato de cantar com o corpo todo, acreditar no que se canta, algo que definia a Clara, que traduz a obra dela, e que eu busco no meu trabalho. Além dos fatores óbvios de sermos mineiras e termos o samba como carro-chefe da carreira", conta a cantora, que, no ano passado, fez um show em homenagem aos 70 anos do nascimento da "guerreira" em Belo Horizonte. "A recepção do público foi muito impressionante, porque não cantei só as músicas mais conhecidas. Dava para sentir a emoção da plateia, e isso foi muito marcante", relembra Aline.

Recentemente, a artista gravou um dos clássicos de Clara Nunes, "Canto de areia", em versão completamente repaginada e que conta com a participação do rapper Emicida. "Gravar uma música foi a maneira que encontrei de materializar uma homenagem à Clara. Escolhi ‘Conto de areia’, que é muito emblemática na voz dela, mas mantive minha identidade musical dentro da referência a ela. E os versos que o Emicida fez casaram-se perfeitamente com essa proposta." A canção está disponível para download gratuito na internet, além de poder ser visualizada no Youtube. "É uma forma de democratizar o acesso à Clara", brinca Aline.

Discípula assumida de Clara Nunes, a juiz-forana Sandra Portella, também cria do samba, possui um acervo com discos, livros e pôsteres sobre a artista, presença garantida em seu repertório. "A energia dela vai além da voz, que, por sinal, é lindíssima, e mesmo das interpretações emocionantes dela. Quando canto suas músicas, sinto algo diferente de quando interpreto outras grandes cantoras de samba. Parece que minha voz é um instrumento da mensagem de amor, de fé e de crença que ela canta, e fico feliz por poder levar isso ao público."

 

A relação de Clara Nunes com Juiz de Fora vai além da devoção a canções eternizadas nos repertórios das rodas de samba espalhadas pela cidade. É daqui o compositor de uma das músicas mais importantes de sua carreira, "Tristeza, pé no chão", assinada por Mamão e gravada pela cantora em 1973, alcançando a venda de mais de cem mil compactos. "Foi como ganhar na loteria. A música rodou o país inteiro em shows e nas rádios, e a Clara deu vida a ela, tornou o que ela é hoje, a forma como é lembrada. Tive o prazer de poder cantá-la junto com ela no Teatro da Lagoa, no Rio de Janeiro", relembra o músico.

Para Vagner Fernandes, a composição do juiz-forano representa uma reviravolta na carreira de cantora. "É uma letra lindíssima, que diz um pouco como a própria Clara era: à flor da pele e de uma tristeza tão profunda quanto bela", analisa o biógrafo, fazendo referência a difíceis momentos na vida da "guerreira", como a morte de seus pais ainda na infância e a impossibilidade de ser mãe, algo que a atormentou por toda a vida adulta. "Ela idolatrava a maternidade e sofreu três abortos espontâneos, o que a abalou demais", relata Vagner.

Segundo o músico e pesquisador Márcio Gomes, foi depois que gravou os versos de Mamão que Clara incorporou diversos aspectos que até hoje a identificam na memória coletiva. " ‘Tristeza, pé no chão’ ajudou a catapultar a carreira dela, e foi a partir daí que ela foi construindo e consolidando seu lado mais performático, e acrescentando, nas músicas e nas apresentações, elementos da cultura afro, do misticismo, da religiosidade e do ritualismo como ninguém havia ousado, e que hoje são tão associados ao seu trabalho."

 

 

Mito, mulher e artista

Quase em metalinguagem, Clara transbordava o que seu nome anuncia: clareza. "Em dez anos de convivência com este personagem, vejo que a Clara dos palcos era a mesma do cotidiano: uma mulher simples, querida, muito amada pelos amigos e pela família e que tinha no canto um instrumento de transformação social, e de proclamação de fé. Aquela figura de vestido branco e cabelos soltos na imaginação de todos era a verdade dela, sendo porta-voz das coisas em que acreditava ", observa Vagner.

Outro traço marcante na trajetória de Clara é o pioneirismo, em diversos sentidos. Ela foi a primeira mulher a alcançar uma vendagem superior a cem mil cópias de samba, quebrando vários tabus da época, como o de que as vozes femininas não vendiam discos. "Além de um timbre de voz especialíssimo, que se destaca de qualquer outro, seu repertório era muito bem selecionado, e os músicos de seus álbuns também eram de primeira linha", explica o músico e pesquisador Márcio Gomes. Foi também Clara que ajudou a levar o samba para a TV, tendo participado de diversas edições do "Fantástico", da Rede Globo, com videoclipes e apresentações.

Antes de se consagrar como uma das principais vozes do samba, entretanto, Clara se aventurou na música romântica, em uma tentativa frustrada dos produtores musicais de transformá-la em um "Altemar Dutra de saias", conforme relata seu biógrafo. " Até o fim dos anos 1960, seu trabalho nada tinha a ver com o que a tornou uma intérprete consagrada, que cantava música tipicamente brasileira. Além do samba em todas as suas vertentes, incluindo o samba-enredo, uma raridade entre mulheres, ela gravou, com maestria, xote, baião e outros estilos que muitos nem imaginam", conta Vagner.

Sempre à frente de seu tempo, a cantora também fez uma passagem apressada pelo mundo, que deixou aos 41 anos. "A morte precoce -rodeada de mistérios na época, e que foi em decorrência de um choque anafilático durante uma cirurgia – fortalece muito sua imagem de mito. O que precisa ser enfatizado é que a Clara não morreu na música brasileira. Nem morrerá. Em qualquer roda de samba de qualquer lugar, as músicas perpetuadas na voz dela são fundamentais e estarão presentes, atravessando diversas gerações", pontua Vagner.