‘Me sinto livre para escrever outra coisa’
Iniciada em 2005 com o romance Mamma, son tanto felice, a pentalogia intitulada Inferno provisório, de autoria do jornalista e escritor mineiro Luiz Ruffato chega ao fim com uma das maiores láureas da literatura feita nas Américas. O mais recente romance de Ruffato, Domingo sem Deus, que encerra a série, ganhou, na noite da última quinta, em Havana (Cuba), o prêmio Casa de las Américas na categoria melhor livro brasileiro. Fundado em 1959, o prêmio é realizado pela instituição homônima, que busca promover e incentivar as artes do continente.
Produzida após o elogiado Eles eram muitos cavalos, de 2001, que lhe rendeu os prêmios de melhor romance pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e Machado de Assis pela Fundação Biblioteca Nacional, a série resulta da investigação poética do escritor sobre o proletariado brasileiro. Exercitando a linguagem fragmentária que marcou sua produção, Ruffato conclui com Domingo sem Deus a temática que lhe conferiu originalidade e ineditismo. Quando decidi, em 2003, que iria escrever esses cinco volumes, eu sabia quando ia começar e quando iria parar. Não sabia delimitar o tempo, mas tinha a certeza de que terminado esse ciclo eu não queria mais trabalhar com esse tema, aponta o escritor.
Selecionado por um júri composto pelos escritores Marcelino Freire e Carola Saavedra e pela poeta, pesquisadora e produtora Suzana Vargas, Domingo sem Deus será traduzido para o espanhol em tiragem inicial de dez mil exemplares, consequência do prêmio que também destina US$ 3 mil ao autor. Presente na ata do júri, a justificativa afirma que a obra vencedora apresenta diversos episódios independentes que se entrelaçam, formando o mosaico de um Brasil essencial, embora esquecido.
Natural de Cataguases e formado em Comunicação Social pela UFJF, Ruffato notabilizou-se no cenário nacional por defender a ideia do escritor como um operário das letras, em referência direta ao universo no qual se debruçou. Eu não escrevo para ganhar prêmios, explica, para logo concluir: Prêmio é um acidente, é claro que é importante, mas é sempre acidental. Depende da pessoa que está lendo o seu livro naquele momento e de quem está concorrendo com você.
Apesar da identificação, tanto do público quanto da crítica especializada, de Ruffato com a temática do trabalhador, que mergulhou nesse universo até na obra Estive em Lisboa e lembrei-me de ti – fruto de um intercâmbio em Portugal, promovido pelo projeto editorial Amores expressos, cujo objetivo era apresentar a literatura contemporânea nacional através de histórias de amor vividas em outras geografias -, o escritor já vislumbra outros horizontes. Me sinto livre para escrever outra coisa, conta, atualmente ocupado com o início de uma nova obra ainda sem lançamento previsto, mas com um tema bastante diferente.
Em sua 54ª edição, o prêmio Casa de las Américas também contemplou outros brasileiros: Rodrigo de Souza Leão, escritor morto em 2009, recebeu menção honrosa na categoria literatura brasileira, pela novela Carbono pautado – memória de um auxiliar de escritório, e o mineiro Evandro Affonso Ferreira ganhou menção na mesma categoria pelo livro O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam. O compositor e escritor Chico Buarque também se sagrou vencedor, levando o Prêmio de narrativa José Maria Arguedas pelo livro Leite derramado, de 2009.









