‘Queria muito ver o lado humano da guerra’
Pela primeira vez na vida, tive certeza que de que eu ia morrer. Embora previsse estar perto do fim, o jornalista pernambucano, ganhador do prêmio Vladmir Herzog de Direitos Humanos e, por duas vezes, do Jabuti, Klester Cavalcanti, em momento algum, duvidou de suas decisões. Fui porque quis. Estava lá por algo maior. A Síria é um país que faz fronteira com Israel, Jordânia, Iraque, Turquia e Líbano. Não é à toa que os americanos e russos estão enlouquecidos. Eles têm consciência de que aquilo pode gerar uma terceira guerra mundial. Aquilo ali é história. A frase que abre esta entrevista é a mesma que inicia o livro também finalista do Jabuti de 2013 Dias de inferno na Síria (Saraiva), o quarto de Cavalcanti, que assina também O nome da morte, Viúvas da terra e Direto da selva. Lançada aqui na cidade nesta terça, às 19h, no Campus da Academia, durante a programação da Semana da Comunicação do Centro de Ensino Superior (CES-JF), a publicação traz o relato da experiência do ex-editor da revista Isto É durante passagem pelo país árabe para fazer uma reportagem especial sobre a guerra na região.
Depois de descumprir uma ordem do Governo Sírio, o escritor tornou-se o único jornalista brasileiro a entrar em Homs. Mesmo portando visto de imprensa, foi preso ao lado de 20 árabes em 2012, sem direito a dar um telefonema sequer, ameaçado, algemado e torturado. Estava oficialmente autorizado a trabalhar no país. No site do livro (www.benvira.com.br/diasdeinferno), tem fotos e vídeos. No visto, eles colocaram uma observação dizendo que era para eu me apresentar em Damasco assim que chegasse lá, mas não fiz isso. Sabia que, se fizesse o que eles queriam, colocariam um oficial na minha cola, e eu viraria um assessor de imprensa. De Damasco fui direto para Homs. Deduzi que a razão de eu ter sido preso foi ter descumprindo essa recomendação. É a única explicação que tenho, afirma.
Na palestra de hoje, além de narrar o drama vivido, o jornalista, que já passou também por redações de veículos, como Veja e Estadão, discorrerá sobre a profissão. Em entrevista à Tribuna na tarde do último sábado por telefone, ele falou sobre suas leituras, as circunstâncias ideais para escrever, o mercado editorial brasileiro e sua escrita marcada pela denúncia à impunidade. Também passarão pelo CES, entre outros nomes, a jornalista da Tribuna Daniela Arbex (quinta-feira) e um representante do Mídia Ninja (sexta-feira). A entrada é gratuita. Programação completa em www.cesjf.br/index.php/publicidade-e-propaganda-semana-de-comunicacao.
Tribuna – O que te motivou a ir para a Síria?
Klester Cavalcanti – Fui para a Síria porque, como muitos jornalistas, sempre tive o sonho de cobrir uma guerra, ainda mais no Oriente Médio. Acho fantástica aquela região. Fico muito incomodado com as matérias que a gente recebe aqui no Brasil, elas são sempre numéricas, estatísticas. Vem um relatório da ONU, o relatório oficial do Governo da Síria, mas ninguém fala como é viver num país em guerra. A imprensa brasileira está cobrindo isso de uma forma muito distante, só compra conteúdos e republica. Queria muito ver o lado humano da guerra, como as pessoas conseguem viver neste clima. As coisas chegam para nós de maneira muito fria. Holms é a cidade da Síria onde a guerra é mais intensa. Lá tem 1,8 milhão de pessoas, tem cinema, estádio de futebol, shopping, teatro, universidades… Imagina uma cidade grande como esta totalmente cercada, sendo bombardeada. Esse é o cenário. Não é todo mundo que vai embora de lá, muitos não querem deixar o lugar onde nasceram.
– Mas Dias de inferno na Síria não é um livro só sobre a guerra.
– Quando cheguei a Homs, vi locais destruídos, casas, prédios, lojas depredadas, marcas de tiros, estradas, asfaltos detonados, encanamento estourado, jorrando água que se misturava com as cinzas das explosões, só que fui para ver as pessoas. Na época, era editor executivo da Isto é. Quando eles me prenderam, me colocaram na cela com mais de 20 presos, eu era o único estrangeiro, o único jornalista no lugar, e me deram o que eu queria de mais valioso, que eram pessoas, histórias de vida. Tinha um cara que falava inglês, o nome dele é Ammar, foi meu irmão lá dentro, que me ajudou.
– Como foi estar perto da morte?
– Em 2000, fui sequestrado na Amazônia, quando era correspondente da Veja, enquanto apurava uma matéria de denúncia. Por mais que essa experiência tenha sido angustiante, não foi nada perto do que passei na Síria. Na Síria, cheguei a fechar os olhos, baixei a cabeça e esperei um tiro. Estava descendo uma escada num corredor escuro com um soldado Sírio atrás de mim com um fuzil na minha cabeça. Fiz uma oração rápida e entreguei a alma a Deus. Como eu estava lá legalmente, acho que, se eles me matassem, ficaria mal para eles. Na prisão, fiquei numa ala de presos não perigosos. Por isso não tinha quebra-quebra. Nas outras alas, ouvíamos gritos dia sim, dia não. Minha mochila e roupas ficaram comigo. Ficava o dia inteiro na prisão trabalhando. Em vários momentos, quase pirei. Uma das coisas mais angustiantes não era a prisão, era não saber de nada. Muitas vezes escrevia sobre as loucuras que passavam na minha cabeça. As conversas com outros presos eram mais como uma terapia ocupacional. Pensava: vou apurar tudo que puder escrever para fazer a matéria se um dia sair daqui.
– Como surgiu a ideia do livro?
– Geralmente, para escrever um livro, passo muito tempo viajando, entrevistando muitas pessoas. Ficar uma semana num lugar jamais seria suficiente para escrever um livro. Só que quando fui preso, passei a ter uma história única. Até hoje sou o único jornalista do Brasil a ir para Homs, sou o único jornalista do mundo que foi com visto de imprensa para cobrir a guerra da Síria, foi preso e saiu vivo para contar uma história. A editora achou que valia escrever o livro. Só depois que o lancei, me dei conta de que falava de relações humanas. É muito sofrimento, e não só da minha parte, mas das pessoas que conheci, inclusive de gente do Governo da Síria.
– O resultado era o esperado?
– Queria escrever tudo que eu vi e vivi lá, mas não tinha a clareza de fazer um livro com a pegada de mostrar generosidade e bondade em plena guerra. Os outros, eu já comecei sabendo o que queria fazer. O terceiro, por exemplo, é a biografia de um assassino de aluguel que matou quase 500 pessoas no Brasil e até hoje está solto. É uma denúncia da impunidade e da injustiça no nosso país. Era o que queria fazer. Já o da Síria, quando me dei conta, fiz um livro muito positivo do ponto de vista humano.
– A experiência interferiu na sua maneira de fazer jornalismo?
– O fazer jornalismo não mudou, fui para lá porque acredito que se faz um jornalismo benfeito no lugar dos fatos. Não posso deixar de fazer o que acredito porque meus pais vão ficar preocupados ou a namorada vai ficar triste. É a minha vida que está rolando. Quando fui para Síria, meus pais ficaram muito angustiados. É bom sentir que vai morrer. Você passa a enxergar a vida diferente. Aquela frase que diz para vivermos cada dia como se fosse o último é piegas, mas é verdade. Naquele momento em que tive certeza de que ia morrer, fiquei muito triste, mas senti uma paz muito grande.
– Você consegue perceber um amadurecimento no seu processo de escrita?
– Escrevia de um jeito, li Hiroshima, de John Herseyroshima, entre meu primeiro livro e o segundo, e disse: quero escrever assim. Só que, para eu escrever assim, concluí que precisava apurar de outro jeito, com o máximo de detalhes possível. O segundo, terceiro e quarto livros são de uma qualidade literária narrativa estupidamente superior ao primeiro. Como a gente faz jornalismo, não pode inventar. Então tem que ser tudo na apuração. Depois de Hiroshima, passei a apurar de forma paranoica. Se a fonte falar do cachorro, quero saber até como o cachorro é.
– Alguma coisa te incomoda no meio editorial?
– Falando do ponto de vista egoísta, não. Hoje sou um escritor conhecido. Um estreante tem uma dificuldade grande de chegar ao mercado. Temos bons autores no Brasil. A editora não publica porque não são conhecidos. O Brasil, como provinciano, colonizado que é, dá muito mais valor para o que vem de fora. Tenho certeza absoluta de que se Cinquenta tons de cinza fosse escrito por mulher brasileira, seria um fiasco. O livro está vendendo muito bem, estamos chegando a dez mil exemplares, mas acho que Cinquenta tons de cinza vende este número em uma semana.
– Nunca teve medo de denunciar?
– Sim, mas se for o caso, você tem que fazer. É pelo bem da verdade. O que adianta fazer um livro de denúncia colocando nomes falsos? Deixa de ser denúncia. Como a polícia e a justiça vão atrás? Se eu usar nome falso, posso inventar a história que quiser. Como alguém vai comprovar o que estou dizendo? No livro da Síria, fico preocupado com muitas pessoas, principalmente com o sargento do exército da Síria, que me ajudou muito. Já soube que o consulado sírio aqui em São Paulo tem o meu livro. Só fui solto porque o Brasil intercedeu. Está lá o nome real dos meus amigos da prisão, do vice-cônsul do Brasil que me tirou da Síria. Saí de lá dentro de um carro da embaixada brasileira, é coisa de filme.









