O último holandês
Quando recebeu o título de cidadão benemérito de Juiz de Fora, em 2004, Padre Jaime Snoek se esquivou de um discurso pomposo. Humildemente, justificou-se dizendo que o mérito de tudo que já havia feito não poderia ser apenas dele. Nascido na Holanda, em dezembro de 1920, batizado Cornelius Jacobus Snöeck, o padre redentorista trilhou um caminho em que intelectualidade e solidariedade se misturam. Aos 92 anos, após permanecer internado por mais de 20 dias no Hospital Albert Sabin, Padre Jaime Snoek despediu-se. Mesmo tendo a possibilidade de retornar ao seu país de origem quando jovem, escolheu o Brasil e, ontem, como seu desejo, às 15h, foi sepultado no Cemitério Redentorista.
Ordenado padre em 1947, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, mais conhecida como Angelicum, de Roma, em 1949, o sacerdote transferiu-se para o Brasil em 1953. Sessenta anos antes, os primeiros holandeses fizeram o mesmo percurso, fundando a Província Redentorista, comunidade cuja primeira paróquia foi a Nossa Senhora da Glória, de Juiz de Fora, onde Jaime Snoek estabeleceu moradia. "Ele foi o último redentorista holandês a morrer em terras brasileiras. É o fim de um importante ciclo. Foi um grande privilégio conviver com ele e com sua presença sempre afável", lamenta o reitor da Comunidade Redentorista Padre Ronaldo Divino de Oliveira.
Pesquisador reconhecido nacionalmente, autor de "Ensaio de ética sexual: A sexualidade humana", padre Jaime Snoek, ao lado das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, fundou a Faculdade de Serviço Social da UFJF, em 1958, e em 1976 contribui para a criação do curso de ciências da religião, da mesma instituição. Professor aposentado, ele era conhecido como um grande estudioso, sempre diante dos livros. Catalogando e conservando um dos mais importantes acervos bibliográficos na área das ciências humanas e sociais do Brasil, o sacerdote fundou a Biblioteca Redentorista. "Temos um acervo precioso, que deve muito a ele, um homem dedicado ao pensamento. A biblioteca era o pupilo de seus olhos", conta Padre Ronaldo Divino de Oliveira.
Precursor
Direcionada aos seminaristas do Seminário da Floresta, a biblioteca foi transferida para um anexo da Paróquia Nossa Senhora da Glória na década de 1980, quando os jovens ingressaram na UFJF. Nessa oportunidade, Padre Jaime Snoek, que hoje dá nome ao espaço de leitura e guarda dos livros, decidiu-se por abrir as portas do lugar, permitindo o acesso do público. "Ele foi um homem grandioso, cujos talentos ele não guardava para si, mas dividia com imensa satisfação", destaca Padre Ronaldo Divino de Oliveira.
De seus anos de trabalho na igreja e na academia, o sacerdote deixou como marca seu apreço pelos direitos humanos. Segundo o reitor da UFJF Henrique Duque, em nota oficial, Padre Jaime Snoek foi um pioneiro. "Padre Jaime vai deixar um vazio muito grande em Juiz de Fora devido ao seu trabalho voltado para a defesa dos direitos humanos. Dentro da UFJF, foi o precursor da Faculdade de Serviço Social, um exemplo seguido por muitos até hoje."
O caráter desbravador foi sentido logo depois de sua chegada. No mesmo ano, o redentorista fundou o Ambulatório Nossa Senhora da Glória, um de seus maiores orgulhos, que esse ano completa 60 anos. Durante os anos de chumbo, o religioso fundou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH), confirmando-se corajoso e dedicado à causa dos homens. "Ele pautou-se pela misericórdia. Como teórico, professor de teologia, ele centrou-se no evangelho, ressaltando o aspecto misericordioso", conclui Padre Ronaldo.









