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Na corda bamba


Por MAURO MORAIS

01/08/2013 às 07h00

"Os artistas não devem se transformar em ídolos", sugere a artista performática sérvia Marina Abramovic em seu "Manifesto sobre a vida do artista", de 2009. Considerada ícone na utilização do corpo como suporte para sua expressão artística, Marina elenca uma série de deveres, desde a conduta pessoal do artista até a relação dele com o erotismo, com o suicídio e com a depressão. "O artista deve sofrer", afirma, para logo completar: "O sofrimento cria as melhores obras", "O sofrimento traz transformação" e "O sofrimento leva o artista a transcender seu espírito". Reconhecida por performances polêmicas como "A artista está presente", apresentada no MoMa, em 2010, e na qual permaneceu sentada em uma cadeira diante de outra vazia, aberta ao público, durante três meses, por longas horas diárias, Marina choca ao manifestar que "o artista deve morrer conscientemente e sem medo". Nas apresentações deste fim de semana do Festival Causa no Diversão & Arte Espaço Cultural, mais uma vez Juiz de Fora toma contato com esse espaço desafiador que se estabelece na performance.

Entre as dores reais e o penoso exercício do subjetivo, o carioca radicado em São Paulo Allyson Amaral transita entre o limite do próprio corpo e do próprio discurso. Em "Espancamento", que apresenta no sábado, às 20h30, o artista se deixa surrar pelos espectadores para logo em seguida reuni-los para uma conversa informal sobre sua vida e ofício, além de outros assuntos que possam surgir na imprevisibilidade que ele deseja. "A performance nasceu de uma forma muito espontânea, da tentativa e do desejo de dialogar com as pessoas, enfrentando-as e sendo enfrentado", explica, afirmando haverem algumas regras, dentre elas número máximo de pessoas em cena, tempo para a ação e direções através de apitos. "Quando pensei nela, queria ver sangue, mas acabei me percebendo num lugar do medo", comenta.

Ex-integrante da Companhia de Danças Lia Rodrigues, importante grupo carioca de dança contemporânea onde permaneceu por oito anos, Allyson começou a projetar sua performance quando constatou os olhares que as pessoas lhe dirigiam no dia a dia. "Desejava pensar e olhar para o meu corpo, o que ele faz os outros sentir. Para mim é importante me colocar à prova", aponta. E o tal teste se refere tanto às agressões físicas quanto aos questionamentos que se vê obrigado a responder. "A coletiva é uma performance de ideias que nunca está pronta. Ela se faz no tempo e no espaço, no lugar do inesperado", explica. Dessa forma, o dançarino por formação se sente mais artista ao abdicar do sistema da arte – atualmente ele dá aulas – e trabalhar em processos que valorizam a pesquisa e o experimento. "Existe muita responsabilidade em meu trabalho, mas também muita liberdade", adianta-se aos que veem seu exercício como atividade puramente estética, descomprometida com reflexões mais aprofundadas.

  

Obras em silêncio

Parceira de Allyson Amaral no Como Clube, misto de ateliê e estúdio em São Paulo no qual são desenvolvidos estudos acerca da performance, Ana Dupas transita entre os aspectos sensíveis da relação entre o corpo e a arte. Na performance "Sistemas são traduções que geram traduções que podem gerar sistemas…", que apresenta no domingo, às 19h30, a artista questiona o fluxo sonoro das palavras e a transposição da mensagem. Enquanto um lê um texto em inglês, outro, de forma simultânea, o traduz, e ainda outro sintetiza a mensagem. Um escrivão redige tudo que acontece, completando o quarteto que se forma ao redor de um mesmo escrito.

"Entendo que não existe corpo sem movimento", aponta Ana, que, despida de grandes movimentos, se restringe à sutileza dos pequenos gestos, mais habituais e cotidianos. "Meus questionamentos se pautam em como o ambiente afeta o corpo e como o corpo afeta o ambiente", explica ela, que também se diz influenciada por Marina Abramovic. "Ela traz essa questão da experiência pessoal, física e emocional para o universo da arte, entendendo a performance como uma extensão do corpo, do tempo", afirma. Como a sistematizar o exercício de Ana, Marina em seu manifesto também aborda as inquietações simbolizadas pela performance sobre traduções. "O artista cria seus próprios símbolos", sugere a artista sérvia.

Segundo Marina, "os símbolos são a língua do artista, e a língua tem que ser traduzida". Mas essa codificação da expressão artística, que no contexto contemporâneo arrebanha desde procedimentos extremamente herméticos até processos simples e banais, não quer dizer que a performance deva ser apenas literal. Para Ana, a emoção e a sensação fazem parte das leituras e não podem ser deixadas de lado. De acordo com a "avó da arte da performance", "o artista deve compreender o silêncio". Como num manual, que não se deseja restrito aos rituais do corpo, mas à pintura e outras manifestações, Marina vai ainda mais longe, evidenciando a tênue linha na qual o artista precisa se equilibrar: "O artista deve criar um espaço para que o silêncio adentre sua obra".

 

Festival Causa

 

"Espancamento"

de Allyson Amaral

Sábado, às 20h30

 

"Sistemas são traduções que geram traduções que podem gerar sistemas…"

de Ana Dupas

Domingo, às 19h30

 

Diversão & Arte Espaço Cultural

(Rua Halfeld 1322 – Centro)

 

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