‘Esconde-esconde’: curta de 1988 com Fernanda Torres é restaurado
Filme que mistura terror e humor, com direção de Eliana Fonseca, foi premiado na Alemanha e ganhou restauração na CineOP

O curta “Esconde-esconde”, da diretora Eliana Fonseca, foi uma das produções que abriu a sessão histórica na Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP). A obra junta o gênero de humor com o terror, e parte de uma noite em que um casal de jovens fica em casa, até que a mulher propõe que eles façam “algo diferente” para inovar na relação. Ela, então, se esconde — e ele precisa encontrá-la em uma casa que parece se transformar e virar uma caixinha de surpresas feita para o aterrorizar. A obra teve estreia em 1988 e foi premiada internacionalmente, contando com a atuação de Fernanda Torres como uma das protagonistas. O curta ganhou restauração feita pela mostra, e a diretora contou, à Tribuna, como é rever a obra quase 40 anos depois, o que mudou em sua carreira e até na forma de encarar o humor.
O curta provocou reações variadas desde que foi lançado e, anos depois, continua bastante atual e com um deboche vívido. Quando ganhou o festival de Oberhausen, na Alemanha, já provocava debates sobre a relação entre os personagens e o que acontece durante a noite aterrorizante que passam juntos, em um apartamento que vai se tornando um cenário de horror. “Eles passaram o curta e depois tinha uma sala de discussão. A sala se dividiu em metade falando que o filme era muito feminista e metade falando que era machista. Eu acho o filme super feminista, porque tira sarro desses ‘homões’, de qualquer redpill”, analisa Eliana.
Para ela, foi muito interessante ver como as mulheres podiam ocupar um lugar inesperado no humor, e como o filme podia debochar dos papéis esperados de homens e de mulheres dentro de uma relação amorosa. “Nós, mulheres, temos esse lado de que vemos a vida como mais do que aparenta ser, inclusive no sexo. Acho que a gente explora bem mais o sexo que os homens, temos uma calma, uma não necessidade de nos provar. Acho que temos mais hormônios, somos seres mais complexos”, reflete. A diretora conta, ainda, que a obra também pôde refletir sobre esse homem que procura sempre a mãe, que quer aquela mulher que cuida — um tema que continua fazendo todo sentido em 2025.
A restauração chega em um momento bem propício, já que a carreira de Fernanda Torres nunca esteve tão em alta. No curta, ela tinha apenas 23 anos, e já dava pra ver o talento que faria com que ela se tornasse um nome internacional. “Ela já era ótima, incrível. Como ela deixa essa dubiedade, dá essa profundidade. Eu fiquei prestando muita atenção nela, porque ela era uma garota ali. Já era conhecida, mas hoje a gente vê ela sendo muito mais reconhecida, se tornou um ícone. (…) Hoje eu brinco: ‘aprendeu tudo comigo’”, conta Eliana e ri.
Riso é eterno
Rever um filme feito tantos anos antes, e em uma praça cheia de pessoas que inclusive nem eram nascidas na época, foi uma experiência emocionante pra ela, que também pôde refletir sobre a própria carreira como diretora e atriz. “Eu não imaginava nem que a minha vida fosse assim tão longa. Quando somos novos, é muito diferente a percepção do tempo. (…) Foi incrível ver como as pessoas estavam reagindo, achei que o curta envelheceu bem”, diz ela.
Apesar de considerar que o momento atual é complicado para o humor, ela entende que há algo que permanece fazendo graça (e sentido) sempre. “Acho que o que é engraçado faz com que a gente ria a vida inteira. O patético e o dramático da vida humana são elementos eternos. (…) Nós gostamos de rir e rimos das mesmas coisas feitas de forma diferentes, porque vamos aprendendo a rir de nós mesmos, vemos o ridículo de algumas coisas que passamos e até dos nossos medos. Tem a ver com a nossa alma e como a gente se enxerga”, conta. Como curiosidade, ela também revela que, depois desse filme, ficou com medo de fazer filme de terror: especificamente por causa de uma estátua fluorescente, de demônios, que aparece em cena. “Era uma estátua que era pra cair no chão e quebrar, mas aquele treco não quebrava, jogamos do segundo andar e não quebrava, demos marretada e o diabo do capeta não quebrava”, ri.
Fazer do humor uma carreira
Antes de “Esconde-esconde”, Eliana Fonseca já tinha feito “Frankenstein punk”, um curta de animação, e seguiu com uma carreira que inclui produções como Castelo Ratimbum e Casseta e Planeta. Durante essa trajetória, que também inclui trabalhos como atriz e apresentadora, ela conta que já tinha pensado nesse recorte de mulheres no humor — não porque quis, mas porque precisava, tendo lidado inclusive com desemprego por conta de sua gravidez. “Vemos em vários filmes as mulheres falando que gostam dos caras porque eles as fazem rir, mas em nenhum eles falando que gostam das mulheres porque elas os fazem rir. (…) Humor é reflexão. Porque na boca do homem é sensual e da mulher é vulgar? É complexo, é uma questão social. Mas acho que está mudando, é algo que não nos pertencia”, diz.
Recentemente, ela também tem sido professora e coordenadora do projeto “É nois na fita”, um curso de cinema gratuito para jovens de baixa renda e ainda feito produções de humor no Instagram. O que não mudou é algo que sempre esteve presente, desde o começo. “A coisa que eu tenho maior prazer é quando faço uma graça e as pessoas riem. O humor é uma coisa sedutora, não tem nada mais gostoso que compartilhar uma risada. É código, só rimos do que entendemos. E quando riem com a gente nos sentimos compreendidos”, conta ela.
Tópicos: mostra de cinema de ouro preto









