A cidade que não mais será


Por MAURO MORAIS

01/07/2016 às 07h00- Atualizada 01/07/2016 às 08h31

como fazer arte moderna ou a evolucao das especies segundo charles darwin de ricardo cristofaro

“Como fazer arte moderna ou a evolução das espécies segundo Charles Darwin”, de Ricardo Cristofaro

Dragão pode se referir a um animal fabuloso e também a um soldado de cavalaria. Dragões da Independência podem se referir ao 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (1º RCG), a uma unidade do exército criada durante o regime imperial, e também aos desenhos que estampam trecho da Avenida Presidente Itamar Franco, outrora Avenida Independência. As formas, idealizadas por Itamar quando era prefeito, podem se referir, hoje, aos dragões e também a bichos sem forma, a manchas, a rabiscos, a nada. O dragão pode ser tudo e pode ser nada. “Como fazer arte moderna ou a evolução das espécies segundo Charles Darwin”, fotomontagem de Ricardo Cristofaro, pode ser registro irônico e hilário e também denúncia crua de um tempo que transforma até deformar.

Instigante pela reflexão que desperta, curioso pelo documento que conforma e inventivo pela simplicidade do olhar sensível, o trabalho que integra a exposição “Memorabilia urbis”, em cartaz no Museu de Arte Murilo Mendes, dá conta de uma cidade e seus passados conflitantes. Enumerando a ideia original e 64 fotografias de imagens recentes do “Dragão da Independência” do trecho entre o Colégio Stella Matutina e a Maternidade Therezinha de Jesus, o artista oferece uma visão da construção cotidiana que foge dos olhares menos atentos, ainda que calcem seus pés. “Querendo ou não, há um desleixo, que não é do pedreiro que executou a obra no local, mas de quem mandou fazer. Quem designou achou que estava tudo certo”, comenta Cristofaro sobre as imagens, subvertidas ao longo do tempo por conta de inúmeras reformas nos passeios.

Instalação de Francisco Brandão, retirada da Halfeld, é acolhida pelo Mamm

Instalação de Francisco Brandão, retirada da Halfeld, é acolhida pelo Mamm

“Encontro ali uma matéria de trabalho. A ideia de uma obra ser porta-voz de um inconformismo é um dos muitos papéis da arte. Talvez meu primeiro olhar sobre isso não tenha sido para criar esse atrito entre a memória da cidade e as pessoas. Existem aberturas de leituras que em certos casos nem vão tocar numa pauta de denúncia”, explica o artista, professor e diretor do Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF. Num tom semelhante, os registros da demolição da capela e do Colégio Stella Matutina (em pintura, Renato Stehling retrata o espaço), de Nívea Bracher, bradam por uma Juiz de Fora que se foi, assim como as pinturas de Fernanda Cruzick, sobre os ladrilhos hidráulicos, e as telas e os dioramas de Rámon Brandão, com cenas de um casario já ausente.

Retratando a “história anônima, que fica oculta no olhar”, como ele mesmo diz, Rámon recusa a ideia de maquete, com seus espaços numa forma ideal, e assume os dioramas, que são representações realistas da forma como o artista observou. Já Lotus Lobo recorre à restauração para visualizar uma tradição gráfica expressa na produção da Estamparia Juiz de Fora. Após ter recuperado pedras de matrizes litográficas, embalagens em folha de flandres, papéis impressos com imagens restauradas e matrizes em zinco, Lotus reúne em mídia digital material capaz de versar sobre a Manchester Mineira e suas fábricas, como a tecelagem de Bernardo Mascarenhas impressa em metal por Thereza Miranda. Reordenando o material proposto por Lotus, Roberto Vieira reverencia a litografia e a tal tradição em imagens que rumam a um abstrato, distante do lugar publicitário de tais criações juiz-foranas.

Os pés de ontem e as penas de amanhã

Como a filha, o pai da artista Valéria Faria guardava tudo. Um dia faria sentido. E seus sapatos, 30 deles, ganharam novo lugar. Enfileirados – junto da placa da já extinta A Cabocla Calçados, na Marechal Deodoro, e de montagens digitais com fotografias e anotações do estabelecimento -, os sapatos pretos revolvem os afetos estabelecidos entre cidadãos e comércio. “Ah! Quanta saudade daquela casa onde ia ainda menino!”, dizem, aos montes. “Todos os sapatos são do meu pai, que só comprava na loja. E por ser um acumulador, ele não jogava fora. Quando o sapato ficava velho, ele guardava. A loja era da minha avó Rosinha. Como meu pai era viúvo, adotei a avó do meu irmão, mais velho que eu, como minha”, conta a artista.

Instalação sobre loja A Cabocla Calçados, de Valéria Faria

Instalação sobre loja A Cabocla Calçados, de Valéria Faria

Embrenhado de uma sensibilidade que extrapola a objetividade jornalística, o artista, portanto, dá conta de uma memória que transcende o caráter oficial. “Não é possível preservar tudo. A cidade é como se fosse um ser vivo. Mas Juiz de Fora tinha várias referências visuais na parte central, de épocas diferentes. O ritmo da especulação imobiliária engoliu muita coisa, e acabamos perdendo o equilíbrio entre o que precisa ser preservado e o que merece ser renovado”, aponta Rámon Brandão. “Particularmente, acho a cidade muito mais feia hoje. Juiz de Fora perdeu uma arquitetura mais agradável visualmente e esteticamente mais coesa. Por mais eclética que fosse, havia um jogo”, concorda Ricardo Cristofaro. “O que se tem hoje não é nada em termos do que ela possibilitava como experiência.”

Nesse sentido, então, uma memória visual das mais recentes, a instalação de penas de gesso na Rua Halfeld, realizada no dia 10 de junho, integra a exposição, dando ainda mais potência à ideia de “experienciar” a urbe. O trabalho elaborado pelo jovem artista Francisco Brandão foi instalado no jardim do museu na tarde de ontem (quinta-feira) e recebe, nesta sexta, um vídeo na porção interna da instituição, retratando a obra que existiu por horas no Calçadão e criou um impacto de grandes proporções nos passantes. Ainda que não tenha sido acolhida pela Prefeitura, que solicitou a retirada do trabalho horas depois de sua demorada colocação, a instalação parece, enfim, abraçada, justamente pela instituição que formou o corajoso artista. “Ex-votos” representa, no discurso de “Memoriabilia urbis”, essa saudade que é ontem, mas também hoje. Essa cidade que, nostalgicamente, se foi. Infelizmente.

“MEMORABILIA URBIS”

Segunda-feira, do meio-dia às 18h, e de terça a sexta-feira,

das 9h às 18h. Até 2 de setembro

Museu de Arte Murilo Mendes

(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)