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De volta ao começo


Por RENATA DELAGE

01/06/2013 às 07h00

Quando leu, ainda criança, "A vida íntima de Laura", de Clarice Lispector, Nivaldo Vasconcelos pôde não ter compreendido todas as nuances da obra, só descobertas anos mais tarde. A leitura, entretanto, causava certa angústia, na mesma medida em que se mostrava instigante ao cineasta alagoano. "A capacidade de a criança abstrair certos aspectos e assimilar outros é muito rica", avalia. "Eu podia pegar o que minhas mãos alcançassem na prateleira. Era a única censura imposta pelos meus pais", conta Vasconcelos, que começou a ler cedo, aos 4 anos – mesma idade da sobrinha Eloah, uma das motivações que o fez revisitar o universo dos pequenos. O cineasta se envereda agora por uma outra maneira de contar histórias e assina seu primeiro livro infantil, "Embolados", lançado em abril pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

O novo autor infantil se junta a muitos outros que, nos últimos anos, decidiram se aventurar no mundo das letras infantis. Vindos das artes plásticas ou da música – caso de Vik Muniz e Adriana Calcanhotto, que assinaram "Melchior, o mais melhor" -, do esporte – como o nadador Gustavo Borges, em "Tchibum" -, da dramaturgia – a atriz Tania Khalill lançou em parceria com o marido, o músico Jair Oliveira, "Grandes pequeninos" – ou dos quadrinhos – como o cartunista Dalcio Machado e seu "Não brinque com a comida!" -, outros tantos profissionais, de áreas diversas, decidiram reviver as emoções despertadas ainda na infância para dar forma a uma obra literária.

Para a cantora Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, tudo começou com uma visita que fez ao zoológico de Ueno, em Tóquio, no Japão. "Percebi que muita gente vai lá apenas para ver o panda-gigante e ignora praticamente todo o resto dos animais. Eu também não conhecia o panda-vermelho, mas como visitei o zoo todo, me encantei pelo bichinho", conta, em entrevista à Tribuna por e-mail, a cantora, que no fim do último ano lançou "A gueixa e o panda-vermelho", com selo da Editora Cobogó. "Essa história escrevi em 2008, quando tinha uma coluna semanal em dois jornais. Sempre achei que, ilustrada, ‘A gueixa e o panda-vermelho’ seria um bonito livro para crianças. Quando o Pato Fu lançou o CD "Música de brinquedo", em 2010, me aproximei ainda mais pelo público infantil. Então percebi que era uma boa hora de me comunicar com eles também através da literatura", completa.

 

Moral da história

Embora a educadora juiz-forana Marly Renault, radicada hoje em Poços de Caldas, tenha trabalhado por mais de 30 anos em contato com as crianças, só assinou agora sua primeira obra infantil, "O galo cantador", lançado pela Editora Multifoco. "Eu aprendi a amar as histórias infantis desde pequena, quando minha mãe, Nellie (também educadora) nos contava histórias, reproduzidas em seguida em teatrinho. Depois, comecei a contar para meus filhos e, hoje, para meus netos. Eles pediam histórias de bruxa, de gato, e por aí vai. Eu inventava, e, depois de um tempo, eles pediam a mesma história. Tive que escrever para não esquecer, e me entusiasmei", diz Marly, que produz histórias musicadas, acompanhada pelo marido Martimiano Valério Borges.

Segundo a educadora, aposentada, querendo ou não, as histórias transmitem diversas morais às crianças. Por isso, é preciso cuidado na escolha dos livros. "Mesmo quando diz não querer dar uma ‘moral’ ou ‘educar’ por meio de uma história, o autor, objetiva ou subjetivamente, está passando seu modo de pensar, aquilo que ele acredita", avalia Marly, que em seu livro conta a história de um galo músico, que começa a incomodar um homem novo na cidade com sua cantoria da madrugada. As histórias da educadora tendem sempre para o humor, já que, por longa experiência, a autora avalia que este é um truque infalível para chegar até os pequenos.

Fernanda Takai destaca a importância de as obras infantis abrirem espaço para a discussão de certos temas, por vezes esquecidos. "Elas precisam ter entre os ingredientes um bocado de entretenimento, conteúdo didático e vocabulário novo, isso tudo de uma forma leve que incentive a criança a ler mais e não a deixe enfadada", diz. "Independentemente do público, eu sempre tento ser muito responsável por aquilo que transmito, seja na música ou nas letras. Gosto de colocar um tantinho de mistério, não fechar completamente o significado das coisas, pois muito vem da soma das experiências de quem recebe."

No fim de "A gueixa e o panda-vermelho", que narra a improvável e mágica amizade entre uma jovem japonesa e o raro animal, há uma espécie de guia sobre alguns termos, escritos para uma melhor compreensão dos pequenos, assim como um resumo da história de Fernanda e a ilustradora Thereza Rowe. "Depois de muito tempo que escrevi a história, descobri o trabalho da Thereza, e tudo fez sentido. Sabia que tinha encontrado a outra metade do livro, que são as imagens", acrescenta.

 

 

Entre o bem e o mal

Para Fernanda, cada vez mais o mundo tem deixado de lado alguns conceitos, enquanto "engessa" o que é certo ou errado, bom ou mau. "Existe mesmo um caminho do meio, de ponderação e sensibilidade", conclui.

Em "Embolados", Maria e João são duas crianças bem diferentes, que brigavam feito cão e gato, mas que dançavam coco de roda como ninguém. Até que certo dia, na festa mais animada da cidade, enquanto dançavam juntos, a contra-gosto, um diabinho que andava por lá jogou um feitiço sobre os dois, transformando-os em uma única pessoa. Desesperados por pensar que ficariam grudados para sempre, foram procurar o velho sábio da cidadezinha, que deu o seguinte conselho: "Para desembolar, basta comer um pedaço do céu". Decididos a desfazer a magia, as duas crianças embarcam em uma aventura que as fez descobrir o valor da amizade e da união.

Na obra, ilustrada por Herbet Loureiro (que também faz sua estreia no mundo dos pequenos), os personagens adquirem forças dúbias. O protagonista, segundo Nivaldo Vasconcelos, não é o herói, mas também não o deixa de ser. "Ouvi muito que as crianças não iriam entender a história", conta Vasconcelos, que, antes de qualquer coisa, ressalta ter aprendido a não subestimar o público infantil. "As conotações que a cabeça delas é capaz de criar as permitem ler de tudo", diz. Segundo o cineasta, é inevitável aceitar que o maniqueísmo está impregnado na nossa realidade. "Nossa cabeça trabalha assim, mas a criança pode ser muito mais ampla que isso."