Símbolo da resistência
Resistência. Essa é a palavra que norteia o espetáculo "Teófilo – Um sonho de liberdade", que estreia quinta-feira para convidados e segue em cartaz toda sexta, sábado e domingo, até o dia 19 de maio, às 20h30, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. Teófilo é um negro, que vive ao lado da mulher e dos filhos em regime de escravidão, em uma fazenda do município de Belmiro Braga, em pleno século XIX. Revoltado com sua condição, resolve fugir, porém é capturado quatro anos mais tarde pelo italiano Domingos Lamoniaca. Como castigo, é chicoteado até a morte por um outro escravo chamado Marcelino. A ordem foi dada pelos donos da terra. No processo que foi aberto contra seus senhores, consta que ele morreu devido ao longo percurso percorrido e não por causa dos açoites.
A história acima é narrada pelo negro Jeremias, um neto de escravos e conhecedor de muitos causos, na cena inicial da peça, dirigida pelo ator da Record Maurício Ribeiro. "Esse é o fio condutor, baseado em fatos reais, mas outras tramas vão surgindo em paralelo. Usei a peça para colocar meu ponto de vista sobre esse período sombrio da história do Brasil", diz Adelino Benedito, que assina seu segundo texto. Sua estreia como autor aconteceu com a comédia "Piastras e fuxicos."
De acordo com Benedito, que também dá vida ao protagonista, a montagem é resultado de um trabalho de pesquisa no acervo do Arquivo Histórico de Juiz de Fora. Contudo, a ideia de dar corpo ao projeto não veio desses estudos. O pontapé inicial foi a descoberta de um livro infantil, cujo nome é "O negro Teófilo", de Valéria Guimarães. "Apesar de termos uma praça no Bairro Vitorino Braga com o nome de Teófilo, eu não a conhecia. Essa foi uma de minhas grandes descobertas. Nosso intento não é falar do sofrimento que a escravidão acarretava. Isso, a história oficial cansa de fazer. Da resistência, pouco se fala. Criamos uma reflexão em cima da questão para mostrar que o negro tentava resistir à situação. Para isso, contamos a relação dele com a esposa e os filhos e deixamos claro que ele almejava algo melhor para a vida", destaca.
"Sou negro, e o que quero é fazer as pessoas acordarem para a forma como tratam esse assunto. O negro não é só escravidão. Alguns livros dão a entender que muitos foram escravizados porque quiseram, porque foram fracos. Só lembramos do Zumbi, e a realidade está além disso." Um aperitivo do que será apresentado já tinha sido mostrado na edição de 2012 do projeto "Cenas curtas", realizado pela Funalfa. Na época, Benedito se desdobrava entre todos os personagens. No espetáculo que tem duração de 60 minutos, o elenco também é formado por Cristiano Balboa, Verônica Pagliares, Sandra Almeida e Marcos Languanje. O figurino é da carioca Adriana Oliveira, a produção é da CorreCotia Produção Cultural, e a produção executiva é de Tom Brynner em parceria com Adelino Benedito.
Música, teatro e dança
Conforme Maurício Ribeiro, como o drama é mais denso que a comédia, é preciso inserir nele elementos que prendam a atenção do público. "As peças dramáticas transitam por uma área um tanto cansativa. Vamos exibir muita coisa forte, como a cena de um parto e pessoas sendo açoitadas. Portanto, para deixar a montagem mais leve, resolvi misturar teatro, música e dança. Sem contar que a história dos escravos é completamente repleta de sons", defende o diretor, que também assina a iluminação e a cenografia.
A trilha sonora é uma das apostas do diretor, que optou por levar para o palco um artista tocando e cantando ao vivo. Canções já conhecidas do público são entremeadas com músicas autorais, compostas especialmente para a peça. Como cenário, preferiu lançar mão da praticidade. Não há trocas. Apenas duas casas, uma ao lado da outra, servem de moradia para os escravos e para o cantor. Atento às novidades, outros ambientes são projetados em um tecido suspenso. "Sou apaixonado pelo velho teatro, mas temos que trazer o que tem de moderno por aí."
Ribeiro é formado em cinema e, há 8 anos, faz parte do casting de atores da Record, onde atuou em "Prova de amor" e "Alta estação." Atualmente se prepara para viver Manassés, um dos filhos de José, na minissérie "José do Egito." A mudança do juiz-forano para o Rio se deu quando tinha 18 anos – época em que dividiu o palco com o ator Osmar Prado, no espetáculo "Que esse bem somos nós." Na Globo, fez participações em "Malhação" e "Mulheres apaixonadas". "Teófilo – Um sonho de liberdade" é seu segundo trabalho como diretor. Seu próximo projeto é levá-lo para as telonas. Antes já tinha assinado a direção de "Piastras e fuxicos. "É sempre bom fazer trabalhos na minha terra. Embora tenha feito a faculdade em 2005, ainda não tinha tido a oportunidade de exercer a função de diretor. Está sendo ótimo", avalia Ribeiro, chamando atenção para a temática apresentada. "É uma peça que tem que ser assistida mesmo. Além de ser uma história bonita, traz para nós a reflexão de que todos temos um sonho que deve ser realizado. Não podemos ficar só na utopia", conclui.
TEÓFILO – UM SONHO DE LIBERDADE
Sexta, sábado e domingo, às 20h30. Temporada de 3 a 19 de maio
CCBM
(Av.Getúlio Vargas 200)









