‘Conseguimos chegar lá’
Ainda de mala nas mãos, logo após descer do carro que a trouxe de Belo Horizonte, a museóloga Célia Maria Corsino recebeu a Tribuna para uma entrevista. Acostumada com viagens e muitos compromissos, ela se preparava para participar do II Seminário "Olhar sobre o que é nosso", promovido pela Funalfa entre os dias 24 e 26. Célia, diretora do Departamento do Patrimônio Imaterial do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), realizou a palestra de abertura na terça. Carioca, a museóloga mora hoje em Brasília, mas possui residência e laços fortes em Belo Horizonte. Há cerca de dez anos, ela se transferiu para a capital mineira a fim de coordenar a implantação do Museu de Artes e Ofícios. "O combinado era que eu ficasse seis meses. Acabei permanecendo por nove anos." Em julho do ano passado, Célia foi convidada a retornar ao Iphan, onde já havia atuado na área de edificação e documentação. Otimista, a diretora afirma que o país conquistou avanços significativos no campo do patrimônio. Outro dia, ficou satisfeita ao acompanhar o neto nas tarefas escolares. "Observei que o livro trazia para as crianças um olhar diferente em relação à cultura, não mais aquele distante e exterior."
Tribuna – Numa cidade como Juiz de Fora, de médio porte, quais os principais pontos a serem debatidos quando o assunto é patrimônio?
Célia Maria Corsino – Juiz de Fora é uma cidade peculiar. Está entre Belo Horizonte e Rio e, de alguma forma, é a porta de entrada de Minas. Além disso, sempre costumo dizer ao pessoal do Museu Mariano Procópio que há ali uma pérola de coleção. Um acervo que dialoga com o do Museu Imperial, de Petrópolis. Ao mesmo tempo, sendo uma cidade de médio porte, é importante identificar as referências culturais da região. Quando um lugar se modifica rapidamente, perde tais referências, mas elas são responsáveis por fazer de Juiz de Fora uma localidade diferente das outras. O que tem acontecido em muitos casos? As pessoas se preocupam com o desenvolvimento econômico e social e se esquecem que ele deve estar alicerçado no desenvolvimento cultural, para que os cidadãos se sintam acolhidos. Como gostar da cidade, de suas partes antiga e moderna, se o indivíduo está descolado das referências? Juiz de Fora cresceu muito, há muita gente nova por aqui, por conta de uma série de oportunidades de emprego. Mas é preciso que os que chegam aprendam a gostar do lugar. E como aprender isso? Conhecendo. Você só preserva aquilo que conhece. Se não conhece, você não entende e não enxerga.
– De que maneira essa valorização da cultura local se relaciona com a globalização e a quebra de fronteiras trazida pela internet?
– Há 30 anos, eu pensava que essa questão da globalização seria prejudicial. O que se vê hoje é que todas as facilidades do mundo digital estão a favor da diferença, não da homogeneização. Você pode estar plugado no mundo, mas sempre com a sua diferença. Se observarmos bem, em 30 anos, conquistamos a restauração do patrimônio histórico edificado, a valorização de grupos históricos regionais, entre outras questões. Temos um conjunto de ações de políticas públicas na área de cultura que valorizam o local e o regional, em contraponto àquele internacional que já está posto. Para que o sujeito apareça no mapa, precisa ter sua identidade diferenciada, porque se não, é apenas mais um.
– Em entrevista à Tribuna, os demais palestrantes do seminário "Olhar sobre o que é nosso" enfatizaram as mudanças necessárias na maneira de se compreender patrimônio e preservação. Até que ponto essas modificações saíram do campo das discussões e foram implementadas e transmitidas aos cidadãos?
– Não sou uma pessoa da universidade, sempre trabalhei na gestão e com patrimônio. Tive alegria grande há alguns dias ao reler dois livros. Um deles, "E triunfo?", de Aloísio Magalhães, é meu livro de cabeceira. Essas obras me fizeram ter a consciência de que nos últimos 30 anos nós conseguimos chegar lá. Posso dizer que hoje já temos participação comunitária e, com todas as críticas que se possa fazer, a partir do Governo Lula, conseguimos estabelecer os conselhos. O conselho de política cultural, por exemplo, com suas câmaras técnicas de diversos segmentos. As comunidades se organizaram e começaram a ter voz. É nesse sentido que o patrimônio imaterial dentro do Iphan se destaca do material. No departamento de patrimônio imaterial, tudo é feito com anuência prévia dos detentores. Nada acontece se aquele que está brincando maracatu, por exemplo, não concordar. É diferente de tombamento, ato que pode ser solicitado por um historiador ou por alguém famoso da cidade. No registro é diferente, não há indicações individuais, somente coletivas. Para que as Bonecas Karajá fossem registradas, tive anuência dos chefes e das associações de artesãos de cinco aldeias. Então, a base social tem voz durante todo o processo. Essa nova visão é o que assegura a diversidade.
– Como abordar a preservação do patrimônio imaterial em uma sociedade que sequer assegura seus bens materiais, visíveis e palpáveis?
– O patrimônio imaterial está presente no cotidiano. Quando o assunto é esse, na verdade, fala-se sobre a alma das coisas. Peguemos como exemplo as já citadas Bonecas Karajá, feitas de cerâmica, que acabaram de ser tituladas como patrimônio imaterial do Brasil. O que foi titulado não é a boneca. Ela é o produto, o material, algo que fica em exposição por um tempo. O que foi titulado é o modo de se fazer a Boneca Karajá. Ele está intimamente ligado à cosmogonia do povo Karajá, à educação das crianças. Por meio das bonecas, os mais velhos ensinam os mitos e ritos. Então, o patrimônio imaterial é aquilo que está por trás dessa boneca. Muita gente a compra para colocar na estante como decoração ou, até mesmo, porque respeita o povo. Mas a boneca é muito mais que isso: para o povo Karajá, ela é o que vai garantir a transmissão da cultura. Trata-se da produção de um objeto carregado de simbolismo. É importante fazer essa fronteira entre material e imaterial. É uma relação de delicadeza. Não dá para fazer uma pequena empresa de índio Karajá para fornecer duas mil peças a uma feira de artesanato no exterior. Não é o artesanato, é o modo de ver o mundo.
– Aproveitando que a senhora falou sobre o Museu Mariano Procópio, que caminhos seriam interessantes para a instituição, fechada há três anos?
– O Museu Mariano Procópio é de importância nacional. Ocorre que ter e revitalizar museus hoje, de maneira geral, são tarefas muito custosas. No Mariano Procópio, há uma equipe muito boa. Claro que toda instituição sempre vai dizer que precisa crescer. Mas o que o museu precisa é de um choque de financiamento, para que possa, no menor tempo possível, estar de novo à disposição da comunidade. Ele trabalha com cultura, meio ambiente, história, artes decorativas, artes plásticas. É múltiplo. Acho que os mineiros estão de parabéns, mas talvez ainda não tenham olhos para ver a pérola que é esse museu. Então, é necessário investir de uma forma sistemática. Não digo que é um problema da Prefeitura ou do Estado. As ações devem ser conjuntas. O lugar é grande, até fisicamente. Seus prédios são complexos e exigem restaurações também complexas. Não estamos falando de um pavilhão feito agora. Além disso, o museu possui história na museologia, porque uma área dele foi construída para esse fim. Considero esse um dos maiores desafios de Juiz de Fora. Mas não só da cidade: do Estado e do Brasil. Não acredito que só a Fundação Museu Mariano Procópio consiga tudo num tempo viável. Talvez num tempo maior até consiga. Mas a cidade, me parece, clama pela reabertura. E há a necessidade de se fazer um trabalho rápido, porém cuidadoso.
– Então os recursos devem vir de todos os níveis? Como?
– Sei que o museu tem procurado a Lei Rouanet. Entretanto, é preciso que haja uma ação mais coordenada. Este assunto está acima de qualquer questão partidária. Não sei se isso já está acontecendo, pois estou falando a partir das últimas informações que possuo. Não sei se houve novidades, embora venha conversando sempre com Douglas (Fasolato, diretor do museu). Se o problema não for colocado assim, não vejo muitas condições. Agora, a Prefeitura deu um passo importante há alguns anos, quando a instituição foi toda reestruturada. Eu, inclusive, participei desse momento.









