‘Quase artesanal’
No artista, corpo e voz são indissociáveis. Os 30 anos de contato com os instrumentos fundamentais ao ser que sobe ao palco, completados em janeiro de 2013, dão à cantora e preparadora vocal Babaya uma visão singular de como a consciência física – e emocional – leva ao aprimoramento do ator, cantor, performer. "O ator, na verdade, se preocupou antes que o cantor com essa necessidade. O ator está habituado ao ensaio, que pode ser diário e se estender por horas. Enquanto o cantor tem uma cultura mais flexível quanto à preparação", avalia Babaya, indicada quatro vezes ao Prêmio Shell, na categoria de "Melhor direção musical", com os espetáculos "Gota d’água", "Ópera do malandro", "Saltimbancos" e "Leonce e Lena", todos dirigidos por Gabriel Villela, em São Paulo.
Mineira, iniciou sua carreira em Cássia, no Sul do estado, tendo se radicado em Belo Horizonte em 1975, onde está à frente da Babaya Casa de Canto, primeira escola de Minas voltada exclusivamente para o aprimoramento da voz no canto popular. A cantora, que também é professora da Bituca Universidade de Música, em Barbacena, chega a Juiz de Fora para ministrar, no fim de semana, oficina de resistência vocal e corporal, na Casa de Cultura Estação Palco. Parcerias de peso, como a firmada com o próprio Bituca, Milton Nascimento, engrossam a lista de artistas que cercam a profissional.
"O artista contemporâneo se vê obrigado a ser completo", constata a preparadora vocal, apontando – com entusiasmo – para o boom dos musicais pelo país. Outro aspecto que corrobora para a ampla preparação, neste caso, para o cantor, são as performances cada vez mais frequentes e elaboradas utilizadas pelos músicos no palco. A especialização dos profissionais da voz na área artística e a facilidade de encontrá-los no mercado dão mais um motivo à ampliação da conscientização dos artistas quanto à sua pluralidade. "O avanço da tecnologia e o trabalho do otorrinolaringologista e do fonoaudiólogo, associado ainda ao do fisioterapeuta e do professor ou instrutor de canto, dão suporte e contribuem para o sucesso do artista", completa.
Para dar vida ao personagem em cena, cativar a plateia, o performer corre, chora, gargalha, grita, canta, dança. A consciência do corpo como um todo é essencial à manutenção do fôlego. "É preciso adquirir resistência física e vocal, representando esta última a saúde da voz. Chegamos a essa resistência a partir de exercícios específicos, associados ao aquecimento, à respiração, ao fortalecimento da musculatura", explica. A técnica, então, se propõe a dar suporte à longevidade de corpo e voz.
Força da palavra falada e cantada
Na preparação vocal de texto, a atenção se volta para a ampla compreensão da palavra, do entendimento dos sentidos. "É como se eu fosse a ponte entre o ator e o diretor", avalia. "O diretor me fala de que forma gostaria que o texto fosse interpretado, que tipo de voz imagina para o personagem, e eu busco meios para resolver essas demandas, tecnicamente."
Para isso, garante a preparadora, não há fórmulas. É preciso explorar os mais diversos aspectos da voz falada e, por muitas vezes, cantada. "É um trabalho quase artesanal", ri. "Depende muito do ator, do diretor, do texto, do contexto. Nos preocupamos com palavra por palavra, com cada vírgula, cada acentuação", revela. Atores como Renata Sorrah, Marieta Severo, Leandra Leal, Tiago Lacerda, Nelson Xavier, Giovanna Antoneli e Letícia Sabatela já foram preparados pela profissional para atuação nas telonas e em espetáculos teatrais.
A ligação profissional com Juiz de Fora também vem de longa data, segundo a cantora, que já participou da preparação de musicais do então Teatro Infantil da Academia (TIA), hoje Companhia de Atores Academia, grupo dirigido por Nilza Bandeira James durante mais de 30 anos. "O trabalho na cidade é sempre muito sério. É muito enriquecedor poder estar em contato com os artistas de Juiz de Fora, que representam grande parte dos meus alunos da Bituca e pelos quais tenho muita admiração", conclui.









