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Número de inscritos no Enem cai pela metade em Juiz de Fora

Ao todo, 10.641 candidatos se inscreveram este ano na cidade. Número é 54,9% menor do que na edição passada


Por Mariana Floriano, sob supervisão de Eduardo Valente

31/10/2021 às 07h00

Em Juiz de Fora, 10.641 candidatos se preparam para a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que acontece nos dias 21 e 28 de novembro. Destes, 10.094 se inscreveram para a prova impressa e 547 para a versão digital, ambas aplicadas nas mesmas datas. O número representa apenas 54,9% dos candidatos inscritos na edição do ano anterior, em 2020, no qual o total foi de 19.350 participantes na cidade.
A redução a quase metade dos candidatos segue a disposição nacional, visto que em 2021 o Enem teve o menor número de inscrições em 16 anos.

Tal queda atingiu de forma acentuada um perfil específico. De acordo com o levantamento da Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação (Semesp), entidade que representa mantenedoras de ensino superior no Brasil, há redução de 77,4% das inscrições de pessoas com renda familiar de até três salários mínimos. Ou seja, estudantes que tiveram sua declaração de carência aprovada pelo Ministério da Educação (MEC). Entre os alunos com inscrição gratuita – que concluíram o terceiro ano do ensino médio em escola pública ou são bolsistas integrais em escola privada – a diminuição foi 20,8%. Por outro lado, o número de inscrições pagas cresceu. Em 2021 foi registrado o crescimento de 39,2% do número de alunos que podem pagar a taxa.

Abstenções e falta de gratuidade

A última edição, em 2020, apresentou recorde de abstenções. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 51,5% dos candidatos faltaram no primeiro dia, e 55,3%, no segundo. Por conta da pandemia da Covid-19, as provas foram adiadas e aplicadas em janeiro de 2021, quando os números já davam novamente indícios de agravamento, avançando para uma segunda onda da doença que viria a acontecer entre março e abril.

Para fazer o Enem, o candidato que não possui a isenção precisa pagar uma taxa de R$ 85. Pelas regras do edital, quem teve direito à gratuidade no Enem 2020, mas faltou à prova, só poderia obter nova isenção se conseguisse comprovar documentalmente a ausência, bem como se encaixar nas hipóteses previstas, que não incluíam situações relacionadas à pandemia.

No entanto, após meses de embate, em setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, pela reabertura do prazo para o pedido de isenção da taxa de inscrição do Enem de 2021 para estudantes de baixa renda, sem que seja necessário justificar a ausência no exame de 2020. As novas inscrições puderam ser realizadas entre 14 e 26 do último mês.

Mesmo com esta decisão, o doutor em Educação e Diretor de Ações Afirmativas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Julvan Oliveira, considera que o principal motivo para a queda no número de inscrições continua sendo a decisão do MEC de barrar a gratuidade de quem faltou no Enem de 2020, assim como a crise econômica agravada durante a pandemia. “Não aceitar a isenção da taxa é cruel”, afirma Julvan. “Nós vivíamos um dos momentos mais difíceis da pandemia e nesse caso era necessária uma sensibilidade que faltou ao Governo federal.”

De acordo com ele, esses números representam o rompimento de uma trajetória de inclusão de estudantes mais pobres, negros e indígenas que ocorria nos últimos anos no Brasil. “Nós tínhamos uma Universidade que vinha contribuindo para o processo de inclusão desses grupos minoritários que se viam às margens da sociedade. Infelizmente, é uma opção que o Brasil fez de voltar com essa exclusão.”
As dificuldades de acesso ao ensino remoto e o abandono das atividades escolares, para ele, também são pontos que implicam no baixo quantitativo de inscritos.

Melhor expectativa com volta do ensino presencial

Com o avanço da vacinação e a melhora dos dados epidemiológicos, a expectativa dos professores é que o número de abstinências seja inferior ao do ano passado. Para o professor de química do Colégio Academia de Juiz de Fora, Carlos Eduardo Nogueres, a volta do ensino presencial também é um fator relevante na preparação dos alunos, mas de acordo com ele, não deverá causar grande impacto nas notas do exame, visto que é um retorno recente e híbrido, onde muitos ainda estão estudando de casa. “Esse retorno vai impactar na motivação. Os alunos que vão fazer a prova passaram a maior parte do ensino médio afastados da sala de aula. O ensino on-line, por mais que o aluno tenha foco, com o tempo ele se desmotiva. Nessa reta final ter esse contato mais próximo é muito importante para dar um gás na preparação.”

enem academia
Com o desejo de cursar medicina na UFMG, Isaac Guedes se inscreveu no Enem do ano passado como treineiro, mas teve que faltar à prova após ser diagnosticado com Covid. “Este ano vai ser mais tranquilo, principalmente com o avanço da vacinação” (Foto: Divulgação/Academia)

De acordo com o estudante do colégio Academia, Isaac Guedes, se preparar para a prova de forma remota foi difícil, principalmente no início, durante o período de adaptação. “Agora com a volta do ensino presencial está sendo muito bom, tem uma facilidade maior em tirar dúvidas e é bom rever os amigos também, dá um ânimo a mais para estudar.” Ele, que sonha em cursar medicina na Universidade Federal de Minas Gerais, se inscreveu no Enem do ano passado como treineiro, no entanto, teve que faltar à prova, pois poucos dias antes do exame se contaminou com a Covid-19. “Eu acabei tendo que faltar e fazer a prova de reaplicação em fevereiro. Esse ano vai ser mais tranquilo, principalmente com o avanço da vacinação. Agora, nessa reta final, o importante é cuidar também do psicológico, ficar com uma cabeça boa para poder realizar uma boa prova.”

Em busca de um sonho

Desde 2007, Natalie Lima pensa em cursar psicologia. Na época, com 19 anos, prestou o Enem para o curso, mas não conseguiu passar. “Eu cheguei a entrar em um pré-vestibular, mas antes que eu conseguisse fazer a prova de novo descobri que estava grávida”. Quinze anos mais tarde e mãe de dois filhos, foi o projeto de extensão Garra, da UFJF, que a motivou a tentar de novo. “O Garra me escolheu, porque eu não tinha planos de tentar entrar para a faculdade agora. Mas quando conheci o projeto, que oferecia aulas on-line e de graça, eu pensei que pelo menos prejuízo eu não iria ter.”

Porém, o que começou sem maiores pretensões, hoje motiva seus dias. “No curso eles costumam me chamar de mulher maravilha”, conta Natalie. E ela faz jus ao nome. Todos os dias, após cumprir as tarefas de casa e levar os filhos para escola, ela reserva cerca de uma hora de seu dia para se dedicar aos estudos. “É difícil competir para a mesma vaga de um adolescente que tem dedicação exclusiva aos estudos.”

Oportunidade para todos

O diretor de ensino do curso Garra, Ayrã de Oliveira, disse que a preparação para a prova de 2021 ficou prejudicada por conta do adiamento do exame anterior. “Geralmente temos de nove a dez meses para nos preparar, e este ano tivemos apenas sete. Felizmente, devido à persistência dos alunos, conseguimos desenvolver uma programação bacana e as expectativas são boas.” Atualmente, o Garra conta com 50 alunos ativos. Ayrã diz que o curso também teve a preocupação de ser acessível aos estudantes durante o ensino remoto. “Buscamos plataformas de fácil utilização pelos alunos, disponibilizando os materiais gravados no YouTube e pelo grupo no WhatsApp.
Porém, Ayrã afirma que, mesmo que tente, o Garra não consegue suprir todo o déficit no ensino básico que, segundo ele, foi agravado durante a pandemia.

“É uma turma muito heterogênea, de alunos que há muito tempo saíram do ensino médio, e alunos que ainda estão cursando o ensino médio. Buscamos nos atentar às condições e disponibilidades de cada um, porque a gente sabe que quando as pessoas procuram a gente, elas estão confiando não apenas uma prova, mas os seus sonhos em nossas mãos.”