Recomeçar depois da chuva: comerciantes de Juiz de Fora ainda enfrentam incertezas na reconstrução de seus negócios
Cerca de 60% dos estabelecimentos da cidade contabilizam danos; foram R$ 18 milhões de linhas de crédito contratados, segundo Casa Civil
A noite do dia 23 de fevereiro deste ano causou muitas mudanças em Juiz de Fora. Meses depois do temporal, os sinais da destruição ainda são visíveis em diferentes pontos do município. O principal cartão-postal, o Morro do Imperador, no Bairro Paineiras, região central, agora carrega as marcas do desastre. De várias regiões, é possível observar as rachaduras na terra que sustenta o morro, lembrando à população diariamente o que aconteceu naquela noite. Mas muito além dos impactos na paisagem urbana, muitas famílias ainda convivem com perdas, incertezas e lembranças dolorosas daquele dia. A data ficou marcada não apenas na história da cidade, mas também na memória de quem vive e trabalha por ela. É o caso dos comerciantes que precisaram refazer a vida nesse período: foram danos em 60% dos comércios, de acordo com pesquisa do Sindicato Empresarial do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio JF).

O levantamento revelou que os mais afetados são os pequenos negócios. É o caso do comerciante Abraão Vito Dantas Pereira, 67 anos, proprietário da lanchonete e bar Colina do Imperador, localizada na área do Morro do Imperador, local popularmente conhecido como Morro Cristo, bem ao lado do parquinho para crianças. A loja vende um pouco de tudo, comidas, bebidas, sorvetes e souvenires de viagem para os turistas que por ali passam. Mas desde o dia 23 de fevereiro está de portas fechadas e sem nenhuma expectativa de retorno. Quem também sente os impactos da situação é Lara Duarte, 25 anos, dona da loja de roupas infantis masculinas Alfa Men Kids, no Santa Cruz Shopping, que já tinha sofrido com as fortes chuvas de dezembro — chegando a ter, naquele momento, um prejuízo financeiro de R$10 mil — e precisou se reinventar após o temporal de fevereiro.
O comerciante que viu o Morro do Cristo mudar

Poucas pessoas conhecem tão bem o Morro do Cristo quanto o Abraão. Há 26 anos, pouco tempo depois de ter saído de Guiné Bissau, na África, e se estabelecido em Juiz de Fora, ele teve a oportunidade de montar seu negócio em um dos pontos mais tradicionais da cidade. Os famosos bijus — biscoito artesanal feito à base de polvilho ou farinha de trigo, ovos e açúcar —, que marcaram a infância de muitos juiz-foranos, são produzidos por ele.
Antes do fim dos anos 2000, Abraão trabalhava na antiga TV Tiradentes, que também funcionava no Morro do Cristo. Em um dia normal de trabalho, um colega comentou que viu um grupo de alunos que realizavam um passeio escolar no local à procura de água e refrigerante, mas não tinham onde comprar. Foi assim que ele decidiu começar seu negócio, primeiro em um trailer e, mais tarde, na loja que se tornou sua principal fonte de renda.
Na primeira chuva, Abraão estava trabalhando no local e saiu cerca de 30 minutos antes do grande deslizamento de terra acontecer. “Quando cheguei em casa, o segurança me ligou dizendo que tinha acontecido um barulho forte. No outro dia, recebi as fotos e vi que tinha caído tudo”, relembra.
A Defesa Civil interditou o espaço por questões de segurança, o que impossibilitou o funcionamento do comércio e exigiu a retirada de produtos perecíveis. Desde então, o empreendedor passa diariamente pelo local para acompanhar a situação e evitar perdas adicionais.
Ainda sem previsão para o fim da interdição, que depende de estudos geológicos para viabilizar a estabilização do espaço, Abraão teve que buscar outras maneiras para sustentar a família. No começo, ele passou a vender marmitas em aplicativos de delivery, mas encontrou dificuldades com taxas elevadas e prazos longos de repasse financeiro. “O dinheiro demora muito para cair e vem com desconto alto. Para quem precisa girar capital, fica inviável”, explica.

Com isso, a alternativa encontrada no momento foi transferir parcialmente as atividades para um novo endereço, na Avenida Olegário Maciel, também no Bairro Paineiras, onde pretende reabrir a lanchonete em formato semelhante ao que mantinha no antigo espaço. A mudança, no entanto, representa novos custos, como aluguel, impostos e despesas operacionais. “Agora é começar de novo, fidelizar clientes, construir tudo outra vez”, afirma.
Apesar das perdas operacionais, Abraão destaca o apoio de fornecedores que flexibilizaram pagamentos e aceitaram ajustes nos prazos de cobrança. Alguns produtos foram preservados para utilização futura no novo ponto comercial, outros não foi possível recuperar. Sem estimar ainda o total dos prejuízos, ele avalia que a maior perda foi a interrupção das vendas. Ainda assim, tem esperanças de um dia retornar para o seu lugar.
“Os clientes sempre perguntam como eu estou, mandam mensagem. Isso dá força para continuar. O pessoal gosta de vir aqui para curtir, relaxar, espairecer. Não sou só eu que estou sendo afetado. O Morro faz falta para muita gente”, lamenta.
Tentativa de reconstrução e clientes afastados
Quando o Natal de 2025 se aproximava, Lara Duarte planejava uma última viagem para São Paulo para comprar mais mercadorias para vender em sua loja. Quando estava a caminho do ônibus, no entanto, uma enchente atingiu a cidade: “Entrou muita água, perdi o piso e tive que mandar refazer alguns móveis. Alguns dos sapatos para vender também foram molhados”, relembra. Ela, então, teve que ficar na cidade para contabilizar o prejuízo.
Além de perdas na loja, Lara teve que fechar o comércio em um dos picos de vendas do ano e lidar com a falta de mercadoria, já que parte do estoque foi afetado e ela não conseguiu viajar para repor o que precisava. Por causa dessa experiência, quando voltou a chover, meses depois, o estrago foi menor para o seu negócio. “Eu tinha me planejado. As chuvas aqui são recorrentes, então, mandei fazer uma placa de contenção. Veio pouca água, mais barro”, relata.
Mesmo assim, a loja novamente foi prejudicada e precisou interromper as vendas. E isso, em um cenário em que os prejuízos já se somavam por situações de adversidade envolvendo as chuvas. “Desde fevereiro, o que está mais atingindo a gente foi a queda de vendas. Ainda está difícil, o movimento está bem fraco. Parece que a cidade está sem dinheiro.”
Para tentar contornar esse cenário, a empresária procurou o Sebrae Minas, que estava oferecendo consultorias gratuitas para orientar empresários quanto ao plano de ação para retomada das atividades após as chuvas. O que ela precisava, principalmente, era auxílio para atrair novamente os clientes e trabalhar melhor as vendas on-line. Lara também recebeu dicas para potencializar os negócios, como trabalhar com “combos” de roupas. As expectativas, para os próximos meses, são de melhoras. “Aqui no shopping, temos muitas lojas fechadas e muitas para alugar, que por mais que abaixe o preço não são ocupadas. Espero que melhore realmente e volte a circular o dinheiro e a vontade de comprar, porque a gente está precisando”, diz.
Mais de 70% dos comerciantes precisaram de financiamento

De acordo com a pesquisa do Sindicomércio JF, o uso de linhas de crédito foi o principal meio usado por comerciantes da cidade para a retomada das atividades. Segundo o levantamento, 72,7% indicaram a necessidade de financiamento para auxiliar na recomposição de estoques, pagamento de despesas operacionais e reorganização do fluxo de caixa. Em entrevista à Tribuna, a prefeita Margarida Salomão (PT) afirmou que o órgão vai publicar decretos regulamentando as leis que já existem e isentando ISS e IPTU para as áreas econômicas que foram atingidas. Desde que as chuvas ocorreram, ela também destacou que o município já recebeu uma injeção de R$ 360 milhões, com liberação em FGTS, PIS/PASEP e antecipação de benefícios. De acordo com a Casa Civil, foram 43 empresas com pedido de crédito, 47 operações realizadas e mais de R$18,56 milhões contratados para ajudar a reconstruir os negócios.
O professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Weslem Faria, assim como os comerciantes, reforça a importância do acesso a linhas de crédito e financiamento para auxiliar na retomada das atividades diante da situação de calamidade do município. Para ele, a maioria dos negócios consegue se reerguer quando há políticas adequadas de financiamento.
No entanto, ele pontua que os impactos das chuvas sobre os pequenos negócios vão além dos prejuízos imediatos causados pela água ou pelos deslizamentos. Segundo ele, interdições de vias e queda na circulação de pessoas também comprometem o funcionamento dos empreendimentos, principalmente daqueles que dependem do movimento diário de clientes. “Tem esse prejuízo de médio e longo prazo, que pode até levar ao fechamento do empreendimento quando o problema perdura mais”, alerta.









