Interdição da Gentil Forn e de outras vias expõe desafios da mobilidade urbana em Juiz de Fora

Motorista de van escolar relata aumento de 7,5 quilômetros por dia no trajeto após fechamento da estrada


Por Bernardo Marchiori

31/05/2026 às 07h00

POR JF NOVO LOGO VERSOES 1O quanto a interdição de uma única via altera a mobilidade urbana de uma cidade? Motorista de van escolar, Hermann Toledo demora, a mais do que o habitual, cerca de 40 minutos para levar as crianças à escola e outros 40 minutos para deixá-las em casa desde o final de fevereiro. A principal razão é o fechamento da Estrada Engenheiro Gentil Forn, causado pelas fortes chuvas em Juiz de Fora que resultaram em tragédia.

Interdição da Gentil Forn e de outras vias expõe desafios da mobilidade urbana em Juiz de Fora
(Foto: Felipe Couri)

“Tenho que passar pela Rua Júlio Menini, na subida da esquina do Democrata. A volta se transformou em mais 7,5 quilômetros por dia. Trabalhando nos cinco dias da semana, imagina o saldo do mês. Continuo tendo muitos prejuízos. A única que sobrou para a gente subir foi essa (Júlio Menini) – que, por sinal, ainda tem barro na pista. A gente ainda pegava a Rua José Lourenço para subir, mas teve aquele problema das manilhas que estouraram com demora para resolver”, relata.

O itinerário do transporte escolar de Hermann teve que ser completamente alterado. Consequentemente ao aumento do tempo, o consumo de combustível também cresce. “As questões geopolíticas já vinham elevando o preço, agora essa diferença no roteiro faz o mesmo. Me afetou em R$ 800 por mês. Ainda tem o desgaste do veículo.” Ele cita a própria confiança em relação às famílias que contratam o serviço, já que o horário das crianças precisou ser alterado para que todas fossem contempladas no trajeto.

Com o fechamento de uma importante via para a mobilidade urbana de Juiz de Fora, o trânsito ficou mais intenso em diversas regiões. Para Hermann, isso também deve ser levado em consideração no planejamento das rotas para dar conta de atender todas as crianças dentro do horário previsto. Além disso, cita o estresse constante. “Você nunca sabe como vai estar a situação. Até as crianças dentro do carro ficam estressadas e cansadas, porque é um percurso que, no total, eu fazia em, no máximo, 1h. Hoje estou gastando 1h40. É desgastante física e mentalmente para todos.”

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(Foto: Felipe Couri)

Atual situação da Gentil Forn e outras vias da cidade

No momento, a situação da Estrada Engenheiro Gentil Forn, conforme a Prefeitura de Juiz de Fora, é a seguinte: “a empresa Geoconsult Engenharia e Consultoria LTDA já foi contratada e iniciou a elaboração do anteprojeto, com previsão de 60 dias. Já foram realizadas as primeiras sondagens e o levantamento topográfico”. De acordo com publicação no Atos do Governo, em 28 de abril, a contratação com objetivo de elaboração de anteprojeto de estabilização da encosta e drenagem na via foi autorizada de forma direta, sem disputa de lances de licitação e assinada pela secretária de Obras, Bruna Rocha.

Além disso, atualmente, 18 linhas de ônibus estão operando por rotas alternativas para garantir o atendimento à população, devido ao fechamento da Gentil Forn. Segundo a Secretaria de Mobilidade Urbana, as linhas 525, 530, 531, 532, 533, 535, 538, 544, 548, 555 e 755 utilizam a Rua José Lourenço desde 12 de maio. Já as linhas 534, 536, 539, 540, 541, 542 e 547 continuam realizando desvio pela Avenida Presidente Itamar Franco.

Outras 12 ruas, no momento, estão com o fluxo interrompido por cancelas instaladas a pedido da Defesa Civil, desde as fortes chuvas registradas em fevereiro:

  • Rua Antônio Chimico, Bom Clima;
  • Rua Artesão Antônio de Oliveira, Adolpho Vireque;
  • Rua Bernardo Mascarenhas, Fábrica (Curva da Miséria);
  • Rua Doutor Geraldo Paleta, Santa Rita;
  • Estrada Athos Branco da Rosa, Parque Serra Verde;
  • Rua João Luís Alves, Vila Ideal;
  • Rua Jorge Angel Livraga, Solidariedade;
  • Rua José Claro Dia, Dom Bosco;
  • Rua Luiz Rocha, Eldorado;
  • Rua Luiz Zuddio, São Pedro;
  • Rua Ouro Fino, Bonfim;
  • Rua Sebastião Nunes da Costa, Vila Alpina.

‘Nunca prevenção, sempre emergencial’

No momento de recuperação da cidade, a mobilidade urbana – que envolve questões como circulação, acesso ao trabalho, transporte público, logística e integração urbana – é uma das principais preocupações. Especialista no tema, além de nascido e criado em Juiz de Fora, José Luiz Britto explica que a cidade é antiga e foi crescendo aos poucos de forma “completamente desordenada”.

“Na minha juventude, a cidade era muito melhor que a de hoje. Naquela época, éramos em torno de cem mil habitantes. A frota circulante era muito menor e tínhamos um transporte público muito bom – os carris urbanos ou bondes, que atendiam muito bem à população. Era um sistema simples, mas de responsabilidade. O bonde não atrasava, o sistema respeitava as regras da prestação de serviço. Até 2016, nunca o transporte público havia sido concedido por licitação. Então algumas pessoas recebiam autorização e criavam linhas de transporte público por ônibus. Dava certo, apesar de tudo.”

Passado esse tempo, conforme Britto, a mobilidade foi piorando com o crescimento da cidade. Nos dias atuais, a tragédia causada pelas chuvas de fevereiro acaba sendo, na visão do especialista, “apenas um detalhe a mais na mobilidade urbana em Juiz de Fora, que piora ano a ano”. Segundo ele, a estrutura rodoviária do município é ruim, enquanto a frota de automóveis é grande e sempre crescente. “Com o transporte público de péssima qualidade, a tendência é que o uso do automóvel como meio de transporte seja a solução. Aqui, ninguém ousa mexer com os carros.”

Em relação à capacidade de Juiz de Fora em se reconstruir, Britto acredita que a tragédia despertou a cidade para as limitadas formas de deslocamento no espaço público. “A Administração pública não age preventivamente: sempre em caráter puramente emergencial.” Ele usa como exemplo a deterioração da Gentil Forn, que, na sua perspectiva, deveria ser resolvida “em curtíssimo prazo, em face à necessidade que a via representa para vários bairros da Cidade Alta”. “Não temos na cidade uma via alternativa para atender de maneira facilitada a demanda que ela tem.”

Soluções e dificuldades para ciclistas

A solução para Juiz de Fora, segundo Britto, passa pela implantação de um sistema de transporte moderno, confortável, confiável e de qualidade. Nessas condições, o uso do automóvel seria menor, resultando em vias menos adensadas. Além disso, ele também cita a adoção da bicicleta como modal de transporte, inclusive com a criação de uma rede cicloviária segregada, e o estímulo às caminhadas para as distâncias menores.

Mesmo assim, os ciclistas também enfrentam problemas desde as chuvas. Guilherme Mendes, que faz parte da Associação Juiz-forana de Ciclistas, conta que até os dias atuais, quando acessa bairros mais periféricos enquanto anda de bicicleta, percebe que há muitas vias com barro e terra. As únicas partes com limpeza mais profunda, de acordo com ele, são por onde os carros passam.

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(Foto: Felipe Couri)

“O pessoal limpa só pela trilha dos automóveis. Já tem quase três meses desde o dia das chuvas e as ruas seguem assim. Atrapalha não só a gente, mas o trânsito todo. Se o barro não for retirado, a cada vez que chover vai descer mais ainda. Se já estivesse limpo, até iria descer, mas causaria menos problemas. Sentimos falta de uma atuação mais presente do Poder Público”, ressalta.

Em relação aos perigos enfrentados pelos ciclistas no trânsito diário na cidade, Guilherme afirma que a situação é constante não apenas para quem se desloca de bicicleta, mas também para quem caminha, utiliza cadeira de rodas e outros meios de transporte ativos. “De qualquer forma, não deixaremos de usá-los. Precisamos olhar pelo todo e para frente, senão caímos. Por outro lado, quando o tráfego está parado, é favorável para nós. É direito nosso de compor a mobilidade urbana. É importante que haja respeito de todos. Queremos compreensão e paciência. A educação no trânsito deve ser trabalhada.”

Posicionamento da PJF

Em resposta aos questionamentos da Tribuna sobre a mobilidade urbana da cidade após a tragédia referente às chuvas de fevereiro, a Prefeitura diz que, inicialmente, houve monitoramento contínuo e atuação estratégica para garantir a segurança da população, com implantação de sinalização em trechos de risco, atuação de agentes de transporte e trânsito e instalação de painéis de mensagens viárias.

“Neste momento, há uma mudança nas rotas habitualmente utilizadas pela população em seus deslocamentos, principalmente em razão das interdições de maior impacto que permanecem. São os casos da Estrada Engenheiro Gentil Forn, da Curva da Miséria e do Acesso Norte, por exemplo”, continua.

Nesses casos, a PJF explica que foram realizadas intervenções de engenharia nas vias utilizadas como rota alternativa, como a implantação de um novo binário na Rua José Lourenço, ajustes nos tempos semafóricos e adequações na sinalização de trânsito.

Além disso, a Administração cita os desvios das linhas de ônibus que passavam pela Gentil Forn como “um esforço contínuo de redistribuição do fluxo viário entre diferentes acessos”. “Em conjunto com as obras de reconstrução, seguem os esforços operacionais e a atuação diária dos agentes para garantir a fluidez do trânsito na cidade. Destaca-se também o uso de tecnologias como o monitoramento das vias, a integração com o aplicativo Waze e a manutenção dos painéis de mensagens viárias, que já fazem parte da rotina dos condutores e apresentam resultados significativos”, finaliza.