“Amanhã eu não sei o que vai ser”: vítimas das chuvas, desabrigados esperam por moradia definitiva

Quase cem dias após a tragédia em Juiz de Fora, vítimas ainda vivem em hotéis, enfrentam sintomas de trauma e aguardam uma moradia definitiva enquanto tentam reorganizar a rotina entre perdas, medo e incertezas 


Por Pâmela Costa

31/05/2026 às 07h00

POR JF NOVO LOGO VERSOES 1À espera do quarto bebê, a mãe solo Glenda Maria Vieira Silva, 37 anos, espera no futuro ter uma casa para criar os filhos, mas a sensação é de incerteza. Quase cem dias depois das chuvas que desalojaram cerca de nove mil pessoas em Juiz de Fora, 65 famílias como a da ex-moradora do Bairro Linhares seguem vivendo em quartos de hotel pagos pelo poder público, outras 80 ocupam apartamentos alugados pela Emcasa e, fora das planilhas oficiais, um número ainda desconhecido de famílias retornaram – ou não saíram, das áreas de risco. 

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Glenda está em um hotel com a família, aguardando a chance de recomeçar a vida em uma moradia permanente (Foto: Leonardo Costa)

Após ter que sair de casa com as três filhas – de 9, 5 e 3 anos – e o bebê na barriga, Glenda foi levada com as filhas para a Escola Municipal Áurea Bicalho onde permaneceu por cerca de 20 dias até ser novamente encaminhada a outra moradia provisória. O hotel onde está – um dos seis que estão acolhendo os desabrigados – chegou a receber 90 pessoas, dessas, 66 já foram embora. Agora, sentada no refeitório do local, Glenda desabafa que aguarda sua vez para poder, enfim, tentar recomeçar sua vida em uma moradia permanente. A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que existe a previsão de reassentamento definitivo para as famílias atingidas por meio do programa Compra Assistida, modalidade do Minha Casa Minha Vida, da Caixa Econômica Federal.

O programa atende famílias que residiam nos imóveis atingidos no momento do desastre — incluindo inquilinos — desde que atendam aos critérios de renda do Minha Casa, Minha Vida, de até R$ 5 mil mensais, além da validação cadastral. O acesso ao benefício não ocorre de uma hora para outra. O processo para inclusão das famílias nos programas habitacionais começa com o cadastramento realizado pelas Prefeituras das pessoas atingidas pela tragédia. Em seguida, os dados passam por validação em sistemas do Governo federal, com cruzamento de informações como CadÚnico, renda familiar, CPF e situação do imóvel. Após a análise, a Caixa Econômica Federal divulga as listas de famílias consideradas elegíveis e habilitadas ao programa. Segundo a Prefeitura, o processamento ocorre de forma contínua, permitindo a inclusão gradual de novos beneficiários, enquanto as listas são atualizadas semanalmente. Embora 92 famílias já tenham sido consideradas elegíveis para avançar à etapa de escolha do imóvel, quem espera ainda não fala em reconstrução. 

Vítimas da tragédia sem espaço para recomeçar

É o caso de Glenda. No esforço de recuperar alguma ideia de normalidade depois de perder a casa, os móveis, o emprego como caixa de uma rede de supermercados e a rotina que sustentava a vida, ela chegou a cogitar voltar para a sua casa, que faz parte de uma das 2.096 que chegaram a ser interditadas total ou parcialmente por estar em áreas risco. Na última semana, enquanto as filhas estavam na escola, Glenda subiu novamente a Rua Engenheiro Paulo Corrêa e Castro, onde morava, mas encontrou apenas os vestígios do lugar que conhecia. O quarto das filhas havia cedido. A cozinha também, arrastada em direção a um bambuzal. De pé, restavam a sala, o quarto onde dormia e a varanda da frente. A casa dela não faz parte da lista de 597 imóveis já desinterditados após avaliação técnica. 

As semanas de suspensão após uma tragédia, explica a psicóloga Maira Leon, permanecem quando a água já abaixou e a lama foi lavada. O trauma nasce no instante do desastre, mas continua sendo nutrido pela instabilidade que se segue, como em Juiz de Fora, três meses após os deslizamentos. “Do ponto de vista psicológico, sobreviver a uma tragédia e se recuperar de uma tragédia são mecanismos muito diferentes”, observa Maira. “Ligar o modo sobrevivência”, como define a psicóloga, está relacionado à tentativa de reorganizar minimamente a rotina diante do trauma. No caso de Glenda, isso aparece em tarefas simples, como cumprir os horários para sair do hotel e levar as filhas à escola. Mas sobreviver, ela ressalta, não significa recuperar a qualidade de vida. “Já a superação é uma elaboração mais profunda, mais demorada. Porque essa reconstrução emocional demora muito mais do que uma reconstrução material”, explica.

Lucimeire da Silva Vieira, 65 anos, também tenta dar conta da nova rotina imposta após a tragédia. Todos os dias, leva e busca as duas netas na escola onde estudam, no Bairro Linhares. Antes moradora do Três Moinhos, ela vivia perto do colégio. Agora, atravessa a cidade ao menos quatro vezes por dia, de segunda a sexta-feira. “É uma luta. Estou lutando. Não escondo de ninguém. Levo menina para escola, busco, pego ônibus. Tem dia que pago passagem, tem dia que não. Faço isso todo dia. É só eu e Deus que sabem o tanto que dói aqui no peito”, conta a mulher, que ajuda a criar os netos enquanto a filha trabalha.

Foram necessárias quatro décadas de trabalho para erguer, à base da enxada empunhada pelos próprios moradores, a casa onde Lucimeire realizou o sonho de ter um imóvel próprio, com piso e um quarto para cada integrante da família.  Mas levaram segundos para que ela e a família fugissem antes da terra tomar tudo. Lucimeire recém tinha comprado uma geladeira branca com freezer, quando teve que deixar a casa de oito cômodos — construída ao longo da vida trabalhando como empregada doméstica e, posteriormente, como secretária. A mulher, o marido, a filha de 20 anos, um neto de 14 e duas netas ainda crianças foram socorridos em meio à lama que ultrapassava os joelhos. 

Hoje, eles vivem no mesmo hotel que Glenda, tentando sobreviver à nova rotina sem ainda encontrar espaço para elaborar a própria dor. Quando o assunto é reconstrução, sua reação imediata é o medo. Após tanto trabalho, ela fala que nunca imaginou ter que passar por isso. “A vida inteira trabalhando. Eu sou aposentada. Até eu conseguir uma casa e voltar, vai machucar demais. Tudo de novo. Será que eu vou aguentar? Mas para Deus nada é impossível. Tenho que lutar por elas”, diz a avó, de olhos fundos e marejados, enquanto tenta manter a firmeza diante da neta, que brinca no cômodo ao lado. “Deus ajuda a gente a voltar para nossa casinha. Porque machuca demais.”

 

Revivescência: o retorno da mente à tragédia afeta vítimas

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Avó e neta, ex-moradoras do Bairro Três Moinhos, se apoiam e esperam em hotel temporário, um lar definitivo. (Foto: Leonardo Costa)

Os netos são o que sustenta a força de Lucimeire, mas também representam a parte mais dolorosa do trauma que ficou. Ela conta que, nos dias seguintes à tragédia, as netas acordavam durante a noite revivendo o deslizamento. “Elas gritavam: ‘Corre, vó, corre, vó, tá caindo.’ Só eu e Deus sabemos o que está aqui dentro”, diz. Diante delas, porém, tenta permanecer firme. “Eu tinha que ser forte. Quando começava a chorar, elas vinham com água, com sal, falando: ‘Bebe, vó.’ Então estou guardando muita coisa dentro de mim, por elas também.”

A família foi socorrida por vizinhos em meio ao que Lucimeire descreve como um cenário inimaginável. “A lama puxando a gente, os postes caindo no chão. A gente via isso na televisão, igual Mariana, mas nunca imaginou viver uma coisa dessas”, relata a aposentada. A lembrança recorrente da cena é um dos sinais do que especialistas chamam de revivescência — experiência em que a pessoa volta a sentir, de forma intensa, episódios traumáticos já vividos como se tivesse os vivenciando novamente. 

Mudanças bruscas no tempo ou a ameaça de chuva, por exemplo, podem desencadear crises de ansiedade, taquicardia, sudorese e insônia, em um processo conhecido como revivescência, comum em quadros de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Segundo a especialista, também persiste um luto prolongado relacionado não apenas à perda das casas, mas de vínculos comunitários, objetos pessoais e memórias construídas ao longo da vida. “Três meses ainda é um período muito pequeno para elaborar tudo isso”, afirma.

Ainda assim, o recomeço é possível e costuma surgir em pequenos movimentos do cotidiano e por meio da rede de proteção psicossocial. A retomada gradual da sensação de segurança, a capacidade de voltar a dormir, reconstruir vínculos e planejar a vida para além da tragédia são sinais de que a reconstrução emocional começa, aos poucos, a acontecer. “Então, cada um vai vivenciar essa construção do novo normal de uma forma muito singular, de uma forma muito particular”, finaliza a psicóloga. 

Lucimeire afirma que ainda não consegue enxergar espaço para cuidar da própria saúde emocional enquanto continua vivendo provisoriamente em um hotel. “Não adianta me dar psicólogo agora sabendo que estou aqui. Quando eu estiver no meu cantinho, colocando minhas coisas no lugar, aí vai precisar”, desabafa. Apesar de dizer que é bem acolhida no local, ela reforça que o que falta é uma casa em que a porta possa ficar aberta, como era nos Três Moinhos. “Falaram que a próxima a sair a casa vai ser eu”, diz, agarrada à expectativa.

Juiz de Fora estará ‘bem melhor’ até 2028, afirma Margarida Salomão

Para o poder público, a palavra “reconstrução” passou a integrar o discurso oficial já no mês seguinte à tragédia — embora, para parte da população atingida, ela ainda pareça distante. Em 27 de março, durante coletiva do chamado gabinete de crise, a secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular (Sedupp), Cidinha Louzada, já tratava das ações de resposta aos desastres sob essa perspectiva. “Hoje, ao circular pela cidade, em muitos pontos, se não souber o que aconteceu, não parece que enfrentamos um desastre. Isso é resultado de um trabalho muito intenso, com a participação de diferentes instituições”, falou Cidinha à época

Em entrevista exclusiva concedida em maio, a prefeita Margarida Salomão tratou a reconstrução da cidade como um processo de longo prazo, que ocorre em diferentes frentes. “Eu tenho o propósito, no decorrer deste mandato, de tratar essa reconstrução e retomada da cidade como prioridade máxima. Agora, de fato, a reconstrução é algo que acontece em várias frentes”, afirmou. A chefe do Executivo também disse acreditar que, até o fim do mandato, em 2028, Juiz de Fora estará “bem melhor” e em outro estágio da reconstrução pós-tragédia.

Ela definiu que a cidade passa por uma retomada em três etapas. A primeira é a “retomada da normalidade”, conforme diz a líder do Executivo, com a desobstrução de vias, linhas de ônibus, contenção de novas erosões e lidar com os desabamentos, que chegaram a 300 na cidade. A atual etapa, ela qualifica como “muito mais sensível”, marcada pelo avanço na concessão de benefícios às famílias atingidas.

De acordo com ela, os primeiros lotes contemplam principalmente moradores que perderam bens materiais e tiveram a vida profundamente impactada pela tragédia. “Há locais em que, realmente, as pessoas terão que reorganizar suas vidas em outros lugares”, afirmou ao citar regiões como o Três Moinhos, apesar do forte vínculo comunitário existente no território. A última também já está em curso, trata-se das obras em andamento, segundo ela, são 70 obras concomitantes acontecendo na cidade. 

Corrida contra o tempo

Com a proximidade das eleições de outubro, a Prefeitura de Juiz de Fora tenta acelerar a captação de recursos federais para viabilizar obras consideradas estratégicas na reconstrução da cidade, como as intervenções previstas no Morro do Cristo. Segundo a prefeita Margarida Salomão, a tragédia também provocou mudanças na forma de pensar a gestão urbana e evidenciou a necessidade de articulação entre poder público e sociedade. “O desafio imposto pelos eventos climáticos extremos não pode ser resolvido apenas pelo Estado”, afirmou. Para ela, o enfrentamento da crise climática exige participação conjunta da população, universidades, veículos de comunicação e demais setores da sociedade civil. 

*Os dados numéricos de hospedagem usados na matéria têm por base até o dia 11 de maio.