Juiz-foranos usam tecnologia para reclamar de buracos

Buracos em via pública, estacionamento irregular de veículos e problemas relacionados à limpeza urbana estão entre as principais reclamações da população juiz-forana na rede social Colab. O serviço foi adotado pela Prefeitura há pouco mais de um mês como um canal de interação com o Poder Público, já que é possível registrar reclamações, via internet, e acompanhar o andamento por meio de um computador ou aplicativo em smartphone. A Tribuna analisou o andamento das demandas durante duas semanas e verificou seu funcionamento. Ao todo, foram postadas, no período, 105 reclamações, de 62 usuários, em 40 bairros. As solicitações vieram de todas as regiões da cidade, sendo mais concentradas na Zona Sul, com 28. Em seguida apareceram as regiões Leste (21), Norte (18), Centro (16), Nordeste (10), Cidade Alta (7), Sudeste (4) e distritos, com uma. Os dados foram coletados para esta reportagem no dia 14 de janeiro e referem-se a um intervalo compreendido entre os dias 14 e 28 de dezembro. Até o dia da análise, 46 casos tinham sido resolvidos. Em 28 deles, houve prosseguimento da demanda para órgãos competentes e, em 24, a Prefeitura respondeu com uma resposta padrão. Não houve retorno do Poder Público em cinco e, em duas, a veracidade da informação fornecida pelo usuário foi questionada. Isso aconteceu quando o problema relatado não foi encontrado ou o endereço estava incorreto.
Os três temas mais reclamados somam 43 registros, sendo que, destes, 23 foram solucionados após a inserção na rede social, dez foram encaminhados aos órgãos competentes e oito receberam uma resposta padrão, com registro de protocolo para acompanhamento. Na Rua Padre Matias, Bairro Morro da Glória, região central, por exemplo, uma usuária reclamou, provavelmente no dia 19 de dezembro, de um buraco na via que aumenta a cada chuva. O Colab não informa a data exata da publicação, e sim há quantos dias a reclamação está inserida. Como resposta, ela recebeu a informação que o caso seria encaminhado ao setor responsável. A reportagem voltou ao local na última segunda-feira (25) e verificou que a operação tapa-buraco ainda não havia sido feita, já que a erosão estava tampada por terra, assim como na imagem encaminhada pela usuária.
Situação semelhante foi identificada na Rua Miguel Batista Lima, no Paineiras, também na região central. No local, um cidadão denunciava, provavelmente no dia 24 de dezembro, buraco em via pública, que estava sinalizado com um galho. Quando a reportagem foi ao local, também na segunda, constatou-se que a cratera havia sido coberta, mas com terra e brita, sem receber asfalto.
Casos resolvidos
No dia 23 de dezembro, um usuário denunciava vazamento de água na Avenida Doutor Moacir Siqueira, no Bosque dos Pinheiros, Cidade Alta. Em 5 de janeiro, a Prefeitura respondeu que os reparos foram realizados, assim como a recomposição da vala. Outro exemplo é o da Rua Valdir Martins, no Cascatinha, Zona Sul. O morador mostrava-se preocupado com entulhos em um terreno em obras, que poderia servir de criadouro para o mosquito da dengue. No mesmo dia, o Poder Público informou que o local é vistoriado a cada 15 dias e a área passa por limpeza e tratamento químico com larvicida na água acumulada. Por esta razão, garantiu não haver riscos à população.
Estratégia para se aproximar do cidadão
O Colab já foi adotado por cem prefeituras do país, de acordo com a assessoria de imprensa do serviço. Em Juiz de Fora, até a última terça-feira, eram 866 cadastrados, resultando em 464 fiscalizações e 30 propostas de projetos. Na rede, buracos em via pública também concentram o maior número de reclamações, com 24,8% do total. Em seguida, aparecem entulhos na calçada/via pública (8%) e mato alto e limpeza urbana (7,3%). Outro dado relevante é que 88% dos registrados são homens, e a faixa etária mais presente, no município, é a compreendida entre 30 e 39 anos, com 46% do total.
O secretário de Comunicação da Prefeitura, Michael Guedes, comemora o primeiro mês de utilização da plataforma. Segundo ele, o uso do Colab faz parte de uma estratégia de aproximação com o cidadão. “Identificamos, quando assumimos a Prefeitura, que havia um descrédito muito grande com relação ao Poder Público e a classe política, o que ocorre em nível nacional. Em Juiz de Fora, verificamos que a população tinha descrença com a coisa pública, como se uma repartição fosse um local que não resolve o seu problema. Precisávamos vencer isso, criando canais para estreitar esta relação. O Colab é uma consequência desta estratégia de aproximação, pois, por mais que respondêssemos a todos por meio da imprensa ou das redes sociais, precisávamos de um canal de entrada.”
Juiz de Fora é a primeira cidade de Minas Gerais a fazer parceria com a plataforma e, de acordo com Michael, já é a que teve maior crescimento percentual em número de usuários no primeiro mês de uso, passando de 120, antes da entrada oficial da Prefeitura, para quase 900. “O mais interessante é que o Colab nos permite ser didáticos com o cidadão, explicando diretamente o problema e mostrando as soluções. Neste primeiro mês, os resultados surpreenderam nossas expectativas. Estamos com uma demanda muito satisfatória de resultados. Em efetividade, já somos a segunda colocada, só perdendo para Niterói (RJ).”
Sobre a maior demanda ser pelo conserto de buracos em ruas, o secretário avalia que isso se deve ao fato de o período ser de chuvas, o que agrava esta situação.
Acesso a novas tecnologias
Um dado que chama atenção é que o uso do Colab não se concentra nos locais que, historicamente, têm mais problemas relacionados à estruturação urbana. Prova disso é que, dos dez bairros com menor renda per capita na cidade, conforme o último censo demográfico do IBGE, apenas dois aparecem no levantamento do jornal: Santa Rita, na Zona Leste, e Santa Efigênia, na Sul, que, juntos, somam cinco registros. Mesmo assim, dois destes registros referem-se a um mesmo problema, que é a necessidade de capina em um escadão no bairro da região Leste. Ao passo que, dos dez com maior renda, cinco estão na relação, com 19 ocorrências, nenhuma repetida. São eles o Santa Helena, o Bom Clima, o São Pedro, o Granbery e o Centro.
Para a doutora em ciência da informação Miriam Gontijo de Moraes, que é professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o acesso a novas tecnologias cresce gradativamente, embora, em sua opinião, ela ainda tenha um viés excludente. “São ferramentas que se renovam muito rápido e as pessoas acabam se perdendo, pois não acompanham este avanço. Não é nem questão de condição econômica, mas de idade e de acesso aos recursos.” De acordo com Miriam, que pesquisa temas como democracia digital, transparência e administração pública, o uso de ferramentas tecnológicas por parte do Poder Público, como uma forma de aproximação da sociedade, é uma tendência.
Ela também ressalta que criar um canal direto de contato com a sociedade não invalida outros meios de comunicação. Mesmo assim, reconhece a adesão a serviços, como o Colab, como uma medida de transparência e de otimização dos serviços. “Em 2000, antes mesmo da internet estar tão disseminada, fiz uma pesquisa na dissertação de mestrado em que verifiquei quem eram as pessoas que contatavam o Procon de Belo Horizonte por correio eletrônico. Percebi que as pessoas que usavam deste meio eram, sim, mais favorecidas, mas por outro lado, elas contribuíam para reduzir as filas nas repartições públicas de atendimento aos cidadãos.”
Mobilização
De acordo com o secretário de Comunicação da Prefeitura, Michael Guedes, ainda é cedo para fazer uma avaliação precisa sobre o perfil dos usuários do Colab em Juiz de Fora. No entanto, ele afirma que, em outras cidades, aconteceu algo semelhante. “Os administradores da plataforma nos disseram que as demandas chegam de setores e locais onde as pessoas são mais engajadas. Não vejo isso como um problema e acreditamos que iremos conseguir mobilizar a todos à medida que os retornos satisfatórios forem sendo dados.”








