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Dois casos de omissão de socorro em três dias


Por NATHÁLIA CARVALHO E SANDRA ZANELLA

31/01/2015 às 07h00

Em três dias, dois condutores atropelaram pedestres e fugiram sem prestar socorro na cidade. O primeiro, ocorrido na última terça-feira, feriu uma idosa de 67 anos. Já o outro, registrado nesta quinta à noite, tirou a vida de Miguel Reis Fernandes, 39 anos. Segundo informações da Polícia Militar, pouco antes das 21h, ele foi atingido por um carro, na Avenida JK, na altura do Bairro Nova Era, na Zona Norte. Um pedreiro, 37, que presenciou o acidente, contou à PM que a vítima estava tentando atravessar a via, quando foi atropelada por um veículo preto, semelhante a um Ford Focus. O Samu foi acionado e prestou socorro ao pedestre, mas ele não resistiu aos ferimentos e morreu durante o atendimento médico, sendo o óbito constatado ainda no local.

Conforme a PM, a vítima era moradora do Bairro Santa Lúcia, na mesma região. O corpo foi encaminhado para necropsia no Instituto Médico Legal (IML). Na cena do acidente, militares recolheram peças do veículo envolvido que ficaram espalhadas pelo asfalto, como a carcaça e o espelho de um retrovisor. Os materiais seriam entregues à Polícia Civil para auxiliar a investigação. Policiais ainda realizaram intenso rastreamento na região, mas o carro suspeito não foi encontrado. De acordo com a assessoria de comunicação da Polícia Civil, o caso foi encaminhado à 3ª Delegacia, e o delegado Rodolfo Rolli informou que será aberto inquérito para investigar o atropelamento.

O comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PPTran), tenente Rodrigo Oliveira, ressalta a importância de prestar assistência no momento do acidente. Ele lembra que a pessoa não é presa por ter atropelado e matado alguém, mas sim pela omissão de socorro. “O condutor pode ser detido por outros motivos, como ser inabilitado ou estar embriagado, por exemplo, mas não pelo acidente em si. As circunstâncias serão analisadas posteriormente. Mas se a pessoa não prestar assistência e for pega logo em seguida, ela pode ser detida em flagrante”, diz.

 

Falta de conscientização

Para o presidente da ONG “Pense: menos velocidade, mais vida”, Gerson Meirelles, a violência no trânsito é resultado da falta de conscientização dos condutores, algo que deveria ser introjetado às crianças desde cedo. “As pessoas precisam entender que, ao dirigir um carro, elas estão com uma ferramenta de morte nas mãos. Sempre batemos na mesma tecla: lidar com a educação no trânsito nas séries iniciais nas escolas. Quem passou por um trabalho de conscientização vai chegar na autoescola mais preparado para o trânsito. Mas falta incentivo do Poder Público para lidar com a situação”, alerta.

Idosa atropelada no Mariano ainda está internada

Na última terça-feira, uma idosa, 67, ficou ferida ao ser atingida por uma picape na Rua Frederico Lage, quase esquina com a Rua Henrique Burnier, no Bairro Mariano Procópio, Zona Nordeste. Moradora das imediações, a vítima sofreu escoriações pelo corpo, mas ficou consciente. Parentes foram localizados, e a idosa socorrida por uma unidade do Samu, sendo encaminhada ao HPS. Segundo a Secretaria de Saúde, até ontem, ela permanecia internada em observação, lúcida, estável e orientada, aguardando avaliação da equipe de traumatologia. No dia do atropelamento, populares anotaram uma placa que coincide com a de um Chevrolet Montana preto. Diante da situação de fuga e omissão de socorro, militares repassaram via rádio as características do veículo suspeito, mas ele não foi encontrado, embora o proprietário da picape tenha sido identificado. Conforme a assessoria da Polícia Civil, o caso está sendo investigado pela 4ª Delegacia.

Três dias após o acidente, o marido da idosa atropelada, 62, contou à Tribuna como foi difícil ver a esposa caída no chão ferida. Sem querer se identificar, ele disse que vai buscar providências relacionadas ao caso, mas afirmou que sua primeira preocupação tem sido com a saúde de sua mulher. “Ela ainda não teve alta porque está sendo atendida por muitas especialidades. Teve escoriações na testa, braços e pernas, hematoma no rosto, outro roxo forte na coxa e estava com suspeita de fratura na bacia, por causa das dores que sentia. Isso era o que mais nos preocupava, porque teria que fazer cirurgia e ser transferida, mas felizmente um exame já descartou a fratura.”

Casado há 35 anos, com três filhos e três netos, o marido da idosa disse que a família nunca tinha vivenciado uma situação tão difícil como essa. “Ela passa por ali todos os dias. Estávamos todos juntos na feira: eu, ela, nossa filha e um neto. Na volta, minha esposa lembrou que havia esquecido de comprar salsinha e cebolinha e decidiu retornar. Nós seguimos para casa com as sacolas, e o carro a pegou. Fiquei muito preocupado com o jeito que a vi no chão. O choque na hora foi grande.”

Com relação à fuga do motorista e consequente omissão de socorro, o homem disse não ter ficado tão desapontado. “Apesar de o socorro ser uma atitude tão simples, apenas parar e ligar para um número, já que não se pode mexer na vítima, o que mais vemos hoje em dia são condutores não cumprindo com sua obrigação.” Ele lamentou a morte do pedestre na Avenida JK e disse que deverá acompanhar o andamento policial do caso. “Primeiro estamos cuidando dela (vítima), depois vamos mexer com essas questões de polícia e seguro. Mas espero que o motorista seja punido, pelo menos com doação de uma cesta básica, para sentir alguma coisa por ter cometido uma infração grave, com omissão de socorro.”