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Sete meses após novo deslizamento, encosta no Vitorino Braga segue sem solução

Área que recebeu obra de contenção de R$ 5,3 milhões em 2024 ainda tem terra e destroços no terreno


Por Fernanda Castilho

29/09/2026 às 06h00

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Foto: Felipe Couri

Sete meses após a encosta abaixo do talude de contenção entre as ruas Rosa Sffeir, no Alto Grajaú, e Vitorino Braga, no bairro homônimo, na Região Leste de Juiz de Fora, voltar a ceder, os impactos do deslizamento de 23 de fevereiro ainda permanecem no terreno do trabalhador Adailton Aristeu Cândido, de 48 anos. Terra e destroços seguem no local, um dos quatro automóveis atingidos continua soterrado, e a família permanece fora de casa, sem previsão de quando poderá retornar.

A situação se arrasta enquanto Juiz de Fora se aproxima de um novo período de chuvas intensas. Segundo Adailton, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que pretende executar uma nova contenção na parte inferior do talude, mas, até o momento, ele não recebeu previsão para a intervenção.

O problema, porém, não começou em fevereiro deste ano. Em janeiro de 2022, antes da construção da atual estrutura de contenção, a encosta já havia deslizado, provocando a interdição de imóveis. Depois de mais de dois anos, a Prefeitura entregou, em julho de 2024, uma obra de contenção no local, que recebeu investimento de R$ 5,3 milhões e tinha, segundo o Município, o objetivo de melhorar o escoamento da água e evitar um novo deslizamento. Menos de dois anos depois da conclusão da intervenção, um novo deslizamento atingiu a área, mas, segundo a Prefeitura, não comprometeu as estruturas de contenção executadas.

Foi na noite de 23 de fevereiro, durante as fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, que um trecho da encosta voltou a ceder. A movimentação de terra ocorreu abaixo do talude de contenção, que faz divisa com o terreno de Adailton, e atingiu um muro, quatro automóveis estacionados e a casa do térreo, na qual seu pai morava.

A equipe de reportagem da Tribuna de Minas contou esta história na semana posterior à ocorrência. Naquele momento, os moradores relataram que a área já havia apresentado problemas antes da obra de contenção, mas o deslizamento, mesmo que somente de uma parte, se repetiu.

À época, a Prefeitura afirmou à Tribuna que a estrutura de contenção implantada na Rua Rosa Sffeir não havia sido comprometida pelas chuvas. Segundo o Município, o deslizamento ocorreu em um trecho de encosta localizado entre estruturas de contenção e o ponto já estava mapeado para uma possível nova intervenção.

Sete meses depois, terra e destroços permanecem no terreno

Ao retornar ao imóvel e mostrar a situação atual, o morador Adailton Cândido aponta que pouco mudou desde fevereiro. Segundo ele, a intervenção realizada no local não teria resolvido o problema da encosta. “Foi uma obra mal feita, né?”. Segundo conta, após a conclusão da obra, representantes responsáveis pela intervenção e pela segurança da área afirmaram que o local estava novamente seguro e que os moradores poderiam retornar às casas.

“Quando deu a chuva em fevereiro, caiu tudo de uma canaleta que eles fizeram. Caiu muita coisa e destruiu tudo. Não se faz uma obra sem pé, não é? Não tem lógica, tinham que ter feito a obra aqui também”, avalia.

Além dos danos às casas, parte do material que deslizou continua no terreno. Um dos veículos atingidos segue soterrado desde fevereiro. Para Adailton, a permanência dos destroços reforça a sensação de que a situação ficou sem solução.

“Aqui tinha que ser indenizado. Na verdade, eu quero que faça a obra, que solucione a situação. Foi uma obra mal feita, não foi o barranco que caiu igual na cidade inteira, mas até agora nem tiraram a terra que caiu aqui.”

Adailton afirma ter sido informado por representantes da Prefeitura sobre a intenção de executar uma nova obra de contenção na parte inferior da encosta. Segundo ele, entretanto, ainda não há previsão para o projeto.

À Tribuna, a Prefeitura informou que “prevê a realização de obras complementares na contenção existente na Rua Rosa Sffeir, com o objetivo de restabelecer o funcionamento adequado do sistema de drenagem do local, afetado pelas chuvas de fevereiro”. A Administração municipal, entretanto, não informou um possível cronograma para as novas intervenções.

Além disso, informou no texto, que as famílias do Vitorino Braga e da Rua Rosa Sffeir afetadas durante a calamidade “puderam acessar medidas de apoio, como o Auxílio Reconstrução, do Governo Federal, além de isenções de tributos municipais e da tarifa de água da Cesama”.

Sem previsão de retorno, família aguarda nova intervenção

A indefinição sobre o futuro da encosta também afeta diretamente a situação da família. Segundo Adailton, a perspectiva de uma nova intervenção no local impede que ele e o pai, proprietários dos imóveis atingidos, sejam enquadrados no programa Casa Assistida, do Governo Federal, destinado a pessoas que vivem em áreas de risco ou tiveram as moradias destruídas em desastres climáticos.

A casa vizinha também foi interditada, e o morador foi considerado elegível ao programa, que concede até R$ 200 mil para a aquisição de um imóvel. No caso da família de Adailton, porém, ele afirma que os dois imóveis construídos no terreno têm valor superior ao limite previsto pelo benefício.

Enquanto não há definição sobre uma nova obra, Adailton e o pai, Joaquim Cândido, de 85 anos, permanecem longe de casa. Joaquim viveu na região por 63 anos e passou ali a maior parte da vida. Adailton cresceu no imóvel do térreo e, após formar a própria família, construiu a residência no pavimento superior, há pelo menos 20 anos.

Desde o deslizamento de fevereiro, pai e filho vivem juntos em uma casa alugada na região Central. A expectativa é de que uma nova intervenção permita o retorno ao endereço do qual já haviam precisado sair em 2022 e para o qual voltaram após a conclusão das obras de contenção.

Agora, novamente afastados do local, aguardam uma solução que permita retomar a vida no terreno onde a família construiu sua história.

Problema na encosta começou em 2022

Em janeiro de 2022, o mesmo barranco, localizado entre a Rua Rosa Sffeir, no Alto Grajaú, e a Rua Vitorino Braga, no bairro homônimo, sofreu um deslizamento de solo. Na época, tanto os imóveis próximos ao topo da encosta quanto as casas situadas na parte inferior da área atingida foram interditados. A Defesa Civil classificou o local como de risco muito alto e demoliu três imóveis que apresentavam risco de colapso.

Quase um ano após aquele episódio, em dezembro de 2022, moradores ainda relatavam à Tribuna preocupação com a chegada das chuvas e cobravam uma solução definitiva para a área.

Mais de dois anos depois, em julho de 2024, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) realizou cerimônia de entrega das obras de contenção no local. Conforme descrição das intervenções pelo próprio órgão, foi construída uma parede em concreto armado “utilizada para minimizar e reduzir os deslocamentos do terreno”, e o solo foi grampeado com concreto projetado, “outra técnica bastante comum na contenção e reforço de taludes”. Também foram construídas redes de drenagem e uma escada hidráulica para “evitar alagamentos e enxurradas na via”.

“O investimento total da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) foi de R$ 5.320.313,24, com o objetivo de melhorar o escoamento da água e evitar que ocorra novamente um deslizamento na rua”, afirmou a Administração municipal.

Na ocasião, a própria Prefeitura apresentou a obra como concluída e afirmou que a entrega deixava o local “sem qualquer tipo de risco para moradores e comerciantes“. Após a conclusão da intervenção, moradores das residências atingidas na Rua Vitorino Braga foram autorizados a retornar às casas.

O novo deslizamento de fevereiro de 2026 ocorreu menos de dois anos depois da entrega da intervenção.