Encosta volta a ceder após intervenção milionária e deixa desabrigados no Vitorino Braga

Após deslizamento em 2022, famílias ficaram até três anos fora de casa; contenção na Rua Rosa Sffeir foi entregue pela Prefeitura em julho de 2024, mas chuvas de semana passada voltaram a destruir casas de moradores


Por Davi Sampaio

05/03/2026 às 10h25

As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora na últimas semana voltaram a expor o risco vivido por moradores da Rua Vitorino Braga, no bairro homônimo, Zona Sudeste, que tiveram casas atingidas após um deslizamento vindo de uma encosta na Rua Rosa Sffeir, via acima, no Bairro Alto Grajaú. A área já era conhecida por episódios anteriores: em janeiro de 2022, parte do barranco cedeu, provocou interdições e manteve famílias fora de casa por um longo período. Em julho de 2024, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) entregou uma obra de contenção e, à época, informou, em seu site, que se tratava de uma intervenção “definitiva”. O valor gasto para a construção foi de R$ 4.277.527,17, Ainda assim, com o novo episódio, moradores voltaram a relatar perdas, medo e questionar a segurança do local.

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Casas na Rua Vitorino Braga ficaram destruídas (Foto: Leonardo Costa)

 

A reportagem procurou a Prefeitura e questionou qual é a situação atual da encosta, se será necessário uma nova obra ou somente reparos, se há uma previsão para a entrega, o que os moradores da rua foram orientados a fazer, e a confirmação da possibilidade da demolição de casas. A resposta foi que “as obras de contenção na Rua Rosa Sffeir não foram comprometidas em momento algum durante as fortes chuvas de fevereiro”. Segundo a nota enviada à reportagem, “em um pequeno trecho, entre dois muros de contenção, houve um pequeno deslizamento de terra, provocado pelo alto volume de chuvas, provocando a interdição de apenas uma casa na Rua Vitorino Braga”. A PJF acrescenta que o ponto já estava “mapeado preventivamente como um possível objeto de construção de nova contenção”.

No entanto, moradores ouvidos pela Tribuna na última terça-feira (3), durante apuração na Rua Vitorino Braga, relataram ter presenciado a destruição de imóveis na última semana em local também contemplado pelas obras recentemente finalizadas pelo Executivo. Nas entrevistas, os residentes do bairro atingido dizem ter retornado às casas após aval de órgãos municipais, investido em reformas com recursos próprios e, agora, se veem novamente fora do lar. “Voltamos acreditando que estávamos seguros. A obra custou milhões de reais, segundo disseram. Secretário de Obras, Defesa Civil, prefeita, todos garantiram segurança. E colocaram nossas vidas em risco novamente”, afirma Michelle Aparecida Ribeiro Matos, 42 anos, que mora na rua desde a infância e diz que a mãe vive no local há mais de cinco décadas.

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(Foto: Leonardo Costa)

Cronologia de um problema que se repete

A moradora reconstrói a sequência de eventos desde o primeiro grande episódio, em 11 de janeiro de 2022. “Uma segunda-feira à tarde. Nem estava chovendo naquele momento, quando uma parte do barranco simplesmente desceu. Junto com a terra, veio até uma tampa, tipo de fossa, que parou aqui embaixo. Foi algo muito assustador. A Defesa Civil chegou praticamente na mesma hora e já pediu a interdição das casas.” Ela conta que, a partir dali, o processo se prolongou: “Cada vez que chovia, descia mais terra. Era uma quantidade enorme, que foi quebrando paredes, invadindo as casas, destruindo o muro da divisa com o vizinho. Isso se repetiu ao longo do período de chuvas de 2022, em 2023 e ainda um pouco em 2024.”

A saída das famílias, segundo Michelle, foi imediata. “Na própria noite do dia 11 de janeiro de 2022, eu, minha filha, minha mãe, meu irmão, minha irmã, o marido dela e os filhos saímos prontamente. Fomos dormir na casa de parentes e não podíamos retornar, porque o risco continuava. E realmente continuou caindo cada vez mais terra, dia após dia.” Ela diz que o tempo fora de casa foi longo e desigual entre os moradores: “No total, ficamos cerca de três anos fora. Algumas pessoas ficaram três anos e dois meses; eu, quase quatro anos.”

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Foto de moradora de 2025 mostra situação da encosta (Foto: Arquivo pessoal)

Obra entregue e retorno com custos próprios

A contenção feita pela PJF foi inaugurada em julho de 2024. “Disseram que estava tudo seguro, que poderíamos voltar. A inauguração foi feita junto com a prefeita, a Defesa Civil liberou, o secretário de Obras também. E, a partir daí, começaram a cortar o auxílio-moradia, porque, segundo eles, já era possível retornar.”

Ela afirma, porém, que o retorno não era simples, porque as casas estavam danificadas e parte do patrimônio havia sido perdido durante o período de interdição. “Portas quebradas, janelas danificadas, paredes comprometidas, fiação roubada. Não tinha como entrar sem antes reformar. Cada família teve que arcar com os próprios custos.” No relato, ela dimensiona o impacto financeiro. “Eu gastei cerca de R$ 12 mil; minha mãe, cerca de R$ 20 mil. Tudo do próprio bolso. O auxílio-moradia começou em R$ 600 – ninguém alugava casa por esse valor. Muitos pagavam R$ 800, R$ 900 e completavam a diferença. Só perto do fim aumentou para R$ 900. Não era um valor digno.”

Segundo Michelle, o próprio funcionamento da obra já teria apresentado sinais de instabilidade meses após a entrega. “Minha irmã retornou em dezembro de 2024, depois de reformar a casa. Poucos dias depois, voltou a chover e a parte feita para a captação da água, na escada hidráulica, começou a ceder. Desciam pedras, lama. Sempre que começava a chover, ela saía com as crianças e ia para a casa da minha mãe, que ainda não tinha retornado.” A moradora diz que procurou as autoridades e que houve intervenção pontual, mas sem resolver o problema. “Vieram mexer, mas fizeram apenas um remendo. Construíram uma parede pesada em cima de terra solta, num ponto que já tinha apresentado problema. Nós avisamos que não daria certo, mas foi feito assim mesmo. E, de fato, não deu.”

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(Foto: Leonardo Costa)

Novo deslizamento, perdas e trauma na encosta

O episódio mais recente, narrado por moradores, ocorreu durante a chuva forte do último dia 23 de fevereiro. Michelle afirma que, desta vez, a família estava dentro de casa quando percebeu sinais de movimentação de terra. “Ficamos todos juntos ali. Pouco depois – acho que não deu nem dez minutos – ouvimos um estrondo enorme. Vidros quebrando, a casa estremecendo, poeira subindo. Saímos correndo para a rua, mesmo com a água passando forte. Não sabíamos a dimensão do que tinha caído, nem se cairia mais.”

A moradora relata o impacto nas crianças e o estado emocional da família. “Meus sobrinhos, de 7 e 4 anos, ficaram desesperados. O de 7 já estava traumatizado desde 2022; começou a chorar antes mesmo do deslizamento, teve febre.” E acrescenta: “É algo que traumatiza. Qualquer barulho hoje nos deixa em alerta.” Para ela, a repetição do risco, após um retorno autorizado, é o ponto central. “Não poderiam ter autorizado nossa volta sem total segurança. E se alguém tivesse morrido ali, no lugar que disseram que era seguro?”

Segundo Michelle, os danos materiais atingiram estruturas e móveis. “As perdas foram muitas. O muro da divisa caiu inteiro sobre a casa da minha mãe, quebrando a parede da lavanderia e da cozinha. A terra chegou quase ao teto. Perdeu tudo na lavanderia e praticamente tudo na cozinha.” Ela relembra que tentou retirar o que restava, mas novas entradas de água e lama causaram mais prejuízos.

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Parte de trás da casa de Michelle foi destruída (Foto: Leonardo Costa)

Cobrança por responsabilização e ressarcimento

Ao comparar os dois momentos, Michelle aponta uma diferença. “Em 2022, foi um desastre natural. Agora, no dia 23 de fevereiro, foi consequência de obra mal feita. Precisam se responsabilizar, ressarcir as famílias.” Ela afirma que, após o novo episódio, não recebeu visita de autoridades no local. “Até agora, nem prefeita, nem secretário de Obras, nem Defesa Civil vieram aqui. Entendemos que houve outras tragédias na cidade, perdas piores, mas aqui foi uma obra pública inaugurada em julho de 2024. Em dezembro já apresentava problemas. Em janeiro houve alerta. E nada foi feito além de um remendo.”

Outro morador, Joaquim Cândido, 85 anos, aposentado, que vive na região há 63 anos, reforça que a contenção não resolveu o problema. “Antes, eles começaram uma obra lá na Rosa Sffeir. Começou boa e terminou uma porcaria. Quando terminou, falaram: ‘Está pronto’. A água passou por debaixo da canaleta que fizeram ali e desceu de novo. Não é a primeira vez, é a terceira.”

Ele ainda relata perdas e a sensação de insegurança após a orientação de retorno. “Todo mundo deu aval que estava bom, que podia voltar. Nós voltamos. Aí a situação foi essa: nós perdemos quatro carros. Um meu, dois de um filho e mais um de outro filho. Um carro zero quilômetro está preso ali dentro até hoje.”

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Carros ficaram completamente destruídos (Foto: Leonardo Costa)

O morador também descreve danos estruturais e o deslocamento da família. “Agora nós estamos nesse problema, porque tiraram a gente de casa. Fora o rombo naquela casa ali”, aponta para uma residência vizinha. “Lá dentro tem um buraco na parede, porque o carro caiu na terra, a terra empurrou o carro, que furou a parede na hora.

Após mais de seis décadas no bairro, ele pensa em sair. “Agora eu estou na casa de um filho, o Adilson. Se tiver chance, saio fora. Isso aqui não dá mais, não.”

Dessa forma, Joaquim espera o ressarcimento. ” Dinheiro para falar que vou fazer outra casa, eu não tenho. Isso não existe. A não ser que a prefeitura pague a perda. Eu pago IPTU, não estou aqui de graça.”

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(Foto: Leonardo Costa)

“O medo fica”

No local, moradores dizem que, para além da discussão técnica sobre o que foi ou não comprometido, o que pesa é o histórico: a sequência de interdição, retorno autorizado, investimento em reformas e, novamente, a necessidade de sair às pressas. “Bens materiais a gente reconquista, mas o trauma fica. O medo fica. E a sensação de que nossas vidas foram colocadas em risco por falta de responsabilidade é algo muito sério. Muito sério mesmo”, lamenta Michelle.

Enquanto aguardam definições sobre obras, perícias e eventuais novas contenções, famílias seguem espalhadas em casas de parentes e conhecidos, tentando reorganizar a rotina. “Hoje, estamos todos separados, cada um na casa de alguém. Minha irmã e os filhos estão com familiares do marido. Minha mãe para um lado, meu irmão para outro. Eu e minha filha também não estamos juntas”, explica Michelle. “E precisamos recomeçar, buscar casa para alugar, lidar com exigência de fiador ou caução, algo que ninguém tem no momento.”

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Moradores e Exército têm limpado os bairros nos últimos dias (Foto: Leonardo Costa)