Redes sociais no combate ao crime

No aplicativo, morador alerta sobre tentativa de assalto a uma senhora, no Poço Rico

Dois homens foram presos depois de invadirem um prédio. O caso foi alertado no WhatsApp

Moradores de Juiz de Fora estão, cada vez mais, buscando as redes sociais na internet para aumentar a segurança de sua casa e de seu bairro ou condomínio. Por iniciativa própria, vizinhos estão criando grupos no WhatsApp e no Facebook para alertar sua comunidade e denunciar casos de criminalidade. Pelo aplicativo do smartphone, mensagens, fotos e vídeos são trocados com intuito de informar a respeito de pessoas em atitude suspeita, assaltos em via pública e dicas de autoproteção. No Facebook, já há páginas que ajudam proprietários de veículos furtados ou roubados a recuperar seu patrimônio.
Essas iniciativas contam com o apoio da polícia, que, inclusive, as incentiva. Porém, conforme especialistas, a atitude desses usuários traz à tona a insatisfação da população com a lenta resposta das forças de segurança pública frente ao avanço dos crimes. O número de roubos no município, em 2015, mantém-se crescente comparado ao ano passado. Conforme a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), os casos aumentaram em quase 8,7%. Foram 1.029 roubos entre janeiro a agosto deste ano contra 939 no mesmo período de 2014.
Os constantes casos de assaltos a pedestres e a residências no Poço Rico, Zona Sul, levaram os moradores do bairro a criar o grupo no WhatsApp “Poço Rico protegido”, que já conta com cerca de 200 participantes. “Aqui tem aparecido pessoas estranhas e grupos de viciados. Perambulam pelas ruas dia e noite. O grupo no WhatsApp é para um morador alertar o outro”, afirma Érica Romano, 41 anos, lembrando que, em 13 de setembro, em plena tarde, dois homens invadiram um prédio na Rua Amazonas. A dupla foi flagrada por um morador retirando as lâmpadas e os globos no interior do imóvel. Os dois foram detidos pela população e, após a chegada da polícia, levados para a delegacia. “Avisamos o caso no grupo e fomos alertados que esses indivíduos já tinham sido vistos tentando roubar celular e bolsa de pessoas na Rua Doutor Vilaça”, relatou Érica.
Nem a Igreja Menino Jesus de Praga escapou. Em junho, o templo foi invadido e teve objetos revirados, mas nada foi levado. Para o padre Geraldo Viegas, o episódio instalou uma situação de insegurança entre os fiéis. “Consultamos empresas para projetos de segurança tanto da casa paroquial quanto da igreja e instalamos sistema de câmeras e de alarme e concertinas”, ressaltou o sacerdote que faz parte do grupo no aplicativo. “O bairro convive com esta realidade de violência, assaltos e arrombamentos. A comunidade está sensível e temerosa.”
Depois de reunião realizada com o comando da 135ª Cia da PM, o Poço Rico vai adotar, a partir de hoje, o programa “Rede de vizinhos protegidos”, como forma de coibir os crimes. A cerimônia de implantação do projeto está marcada para 19h, na Rua da Bahia, e vai contar com apresentação da Banda de Música de Polícia Militar.
De olhos atentos para alertar os vizinhos
Em um prédio com 16 apartamentos, na Rua Pétala Misteriosa, no Estrela Sul, Zona Sul, os cerca de 35 moradores acompanham o dia a dia do condomínio por meio do circuito de câmeras de vigilância e do grupo no WhatsApp chamado “Residencial Ávila”. Em janeiro deste ano, um policial militar foi assassinado com três tiros na via onde localiza-se o edifício, que é considerada deserta pelos residentes. “Se há pessoas estranhas rondando o prédio, problemas com o portão que ficou aberto, compartilhamos no grupo”, afirma a síndica, Natália Nascimento Goretti Lage, 31, acrescentando que já houve muitos assaltos a pedestres na rua.
Segundo ela, já teve ocasião de pessoas estranhas circularem no interior do prédio. “Quando isso acontece, avisamos no grupo. Temos câmeras, e muitos moradores optaram por captar as imagens na sua televisão. Quem está em casa olha as imagens e avisa. Às vezes é parente de alguém. Como síndica, monitoro as mensagens e tomo as providências.”
A mesma iniciativa foi adotada no Novo Horizonte, Cidade Alta. Cerca de 60 residentes das ruas das Margaridas e Pinheirais trocam mensagens no aplicativo. Conforme o cardiologista Darlan Kneipp, foi detectada a constância de assaltos a granjas durante o dia e a noite, levando os moradores a criarem o grupo. “Todos estão conectados. Também nos revezamos em uma ronda de carro e passamos as informações no grupo. Quando um vizinho viaja, o outro fica de olho”, ressaltou o médico, acrescentando que a comunidade já tem marcada uma reunião com o comando da companhia da PM da Cidade Alta a fim de estudar a implantação da “Rede de vizinhos protegidos” no bairro e a reativação da Associação dos Moradores da Região do Bairro Aeroporto. “Todas estas ideias surgiram a partir do WhatsApp, que é barato e de rápida comunicação.”
‘Veículos roubados JF’
Com os mesmos objetivos dos grupos do WhatsApp, páginas proliferam no Facebook. Uma delas, intitulada “Veículos roubados JF”, visa a auxiliar pessoas a encontrar seus carros ou motocicletas roubados ou furtados. O biólogo Yuri Silva, 27, é o criador do grupo, que já conta com 380 membros. “Percebi que páginas de assuntos diversos sobre a cidade recebiam comentários a respeito de carros e motocicletas desaparecidos. A partir disso, criei uma página que tratasse desse tema, já que havia esta necessidade”, afirma Yuri.
Segundo ele, a ideia é a vítima postar informações como modelo, placa, cor, local, dia e hora do desaparecimento do veículo e até características exclusivas, para haver troca de informações. “Já aconteceu de receber mensagem no chat de pessoas que publicaram lá e conseguiram informações a respeito do destino do carro. As vítimas entram em contato com a gente, com mensagem inbox, e a colocamos em contato com quem passou a informação”, destaca o administrador da página.
Ele explica que, como regra, quando um veículo é localizado, o próprio dono deve publicar o aviso de recuperação para conscientizar os usuários. Na visão de Yuri, as pessoas já perceberam que, juntas, têm mais força para resolver problemas. “Não é que a polícia é ineficaz, mas realmente há uma demora para a solução dos casos. Isso vem acontecendo no que diz respeito a roubo de veículos e a outros problemas que afligem a sociedade”, acredita Yuri.
‘Clamor à falta de resposta’
Na visão do professor do programa de pós-graduação de Ciências Sociais da UFJF Paulo Fraga, as redes sociais têm sido utilizadas pelas pessoas para várias mobilizações, e a questão da segurança pública não fica de fora. “Pode ser um clamor à falta de resposta dos órgãos de segurança pública a crimes como furtos e roubos ao patrimônio, que, muitas vezes, ficam sem investigação”, afirma o sociólogo.
Segundo ele, esta é uma situação que suscita preocupação. “Quando as pessoas substituem os órgãos de segurança pública, pode haver uma resposta fora da lei. Essas iniciativas deveriam auxiliar as polícias. Em outras cidades, como no Rio de Janeiro, isso já vem acontecendo. Quando há uma relação entre o uso dessas tecnologias em parceria com as forças de segurança é positivo. Temos que cobrar desses órgãos que as investigações sejam mais rápidas e que policiais se aproveitem dessas ferramentas para que, junto da população, encontre soluções dentro da lei e com respeito aos direitos humanos.”
Polícia Militar estimula uso da internet
Recorrer ao WhatsApp e Facebook para combater a criminalidade, segundo a Polícia Militar, é uma iniciativa bem-vinda. “Temos usado essas tecnologias a nosso favor. Esses grupos nas redes vêm funcionando dentro do princípio da ‘Rede de vizinhos protegidos’, que consiste em um morador auxiliar o outro. O compartilhamento de informações é importante, pois nem sempre o residente está em casa, e o outro pode ajudar quando percebe movimentação estranha”, observa a assessora de comunicação organizacional do 2º Batalhão de Polícia Militar, tenente Evelyn Souza.
Conforme a oficial, identificado algum suspeito, o morador deve alertar os vizinhos e acionar a PM por meio do 190 ou através dos telefones das companhias, para que uma viatura seja enviada e faça uma abordagem. Segundo ela, ainda não há dados oficiais sobre o número de grupos, via WhatsApp ou Facebook, funcionando na cidade voltados à segurança, já que muitos são formados por iniciativa dos moradores. “Temos fomentado a criação dos grupos e cadastrado alguns. Algumas vezes não é o bairro todo mobilizado, mas apenas uma rua. Nossa intenção é fazer dessas ferramentas algo mais oficial, com a participação efetiva de um policial”, afirma.
A comunidade que deseja criar um grupo nas redes sociais deve entrar em contato com a companhia da PM do bairro para que seja feita uma reunião que definirá a melhor maneira de trabalho.
Cautela
Sobre o Facebook, tenente Evelyn faz uma ressalva, pois se trata de uma rede de grande alcance. “É necessário tomar cuidado com as postagens, com a exposição de fotos de pessoas e de bens, nomes e informações. O que tem fonte segura é sempre bem-vindo para gerar alerta, mas deve-se ter precaução para não causar pânico, pois há notícias inverídicas. Jamais a população deve atuar de forma isolada.”








