Procon abre investigação contra Itaú após fechamento de agências em Juiz de Fora

Procon aponta indícios de violações ao consumidor em plano de fechamento de agências do Itaú


Por Bernardo Marchiori

28/01/2026 às 08h02

O Procon de Juiz de Fora instaurou uma investigação preliminar contra o Itaú Unibanco S.A. para apurar práticas que podem configurar violações sistêmicas aos direitos do consumidor no processo de fechamento de agências físicas e migração de clientes para canais digitais. A medida foi formalizada pela Portaria nº 01/GAB/2026, publicada na terça-feira (27).

Segundo o órgão, somente em Juiz de Fora, três agências do banco foram fechadas. De acordo com a portaria, a estratégia teria sido implementada sem transparência, sem diálogo com a comunidade local e sem alternativas adequadas para consumidores que dependem do atendimento presencial, com impacto mais intenso sobre idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade.

A análise do Procon/JF aponta indícios de irregularidades com base em notícias recentes, estudos relacionados à saúde mental de trabalhadores bancários e no histórico de relacionamento do banco com o órgão de defesa do consumidor. Entre as possíveis infrações ao Código de Defesa do Consumidor citadas no documento estão a violação ao direito à informação clara e adequada, diante da migração digital forçada sem suporte suficiente; o comprometimento da qualidade dos serviços, com sobrecarga das agências remanescentes e atendimento precarizado; e a dificuldade no exercício de direitos, indicada pela ausência de resposta a cerca de 20% das notificações encaminhadas pelo Procon e pela taxa de resolutividade em audiências de 10,53%.

A portaria também menciona a possível exploração da vulnerabilidade do consumidor, com exclusão financeira de idosos e de pessoas com dificuldade de acesso aos meios digitais; o descumprimento de obrigações perante o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, diante da revelia em 25 das 42 audiências para as quais o banco foi convocado entre agosto e outubro de 2025; a violação ao princípio da boa-fé objetiva; e a alteração unilateral e abusiva das condições do serviço, com redução substancial do atendimento presencial.

O procedimento ainda aponta a possibilidade de dano moral coletivo, ao atingir valores como o acesso a serviços essenciais e a dignidade da pessoa humana, além de citar ausência de diálogo e desconsideração dos impactos sociais decorrentes do fechamento das agências.

Como primeiras determinações, o Procon/JF notificou o Itaú para que apresente, em dez dias, informações detalhadas sobre os estudos que embasaram o fechamento das unidades, o perfil demográfico dos clientes afetados, as alternativas oferecidas, as métricas de qualidade do atendimento e as justificativas para o baixo nível de cooperação com o órgão.

Além disso, a instituição foi instada a adotar, em 48 horas, uma medida reparatória imediata como demonstração de boa-fé. Entre as possibilidades listadas estão a suspensão de novos fechamentos no município, a reabertura temporária das três agências já encerradas ou a disponibilização de unidades móveis, ou alternativas presenciais equivalentes, nos mesmos locais.

O Procon/JF informou que o descumprimento das determinações pode caracterizar crime de desobediência, nos termos do artigo 330 do Código Penal, além de sujeitar o banco às penalidades administrativas cabíveis. O Sindicato dos Bancários de Juiz de Fora foi comunicado sobre a instauração do procedimento.

A superintendente do Procon/JF, Tainah Moreira Marrazzo da Costa, que assina a portaria, afirmou que a apuração busca assegurar o respeito aos direitos da população. “O progresso que exclui não é progresso, é abandono travestido de modernidade. Enquanto o Itaú celebra lucros recordes e anuncia uma suposta inclusão digital, promove nos bastidores um desmonte silencioso e brutal do serviço bancário essencial, abandonando idosos, prejudicando vulneráveis e precarizando o trabalho daqueles que ainda atendem. A digitalização forçada, sem diálogo, sem alternativas e sem responsabilidade social, viola a boa-fé, fere a dignidade e transforma um direito básico, o acesso a serviços financeiros, em um privilégio para poucos.”

A Tribuna entrou em contato com o Itaú, e a assessoria informou que deve se manifestar até o início da tarde desta quarta-feira (28).

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