População chama, mas Samu não vai

Assistência à vítima, que teria saído da UPA sem autorização, acabou sendo feita pelo Resgate
A demora na prestação de assistência médica a uma vítima de agressão, no Bairro Ipiranga, na Zona Sul, deixou moradores indignados, no início da tarde desta quarta-feira (27). O homem, 44 anos, teria esperado cerca de uma hora, esvaindo-se em sangue, caído em uma calçada, na esquina das ruas Doutor Costa Reis e Antônio Batista, para ser resgatado. Apesar das ligações feitas do local ao Samu, para que o agredido pudesse ser socorrido, nenhuma equipe do serviço de atendimento móvel compareceu. Só após a chegada da Polícia Militar, o agredido foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros e encaminhado ao Hospital de Pronto Socorro (HPS). De acordo com o sargento da 32ª Companhia de Polícia Militar, que estava no local para registrar o fato, mas preferiu não se identificar, o homem teria sido golpeado com uma barra de ferro pelo sobrinho, na manhã de quarta, por volta das 9h. A vítima teria sido encaminhada, com um corte no braço, para a UPA de Santa Luzia. Na unidade, ele não teria esperado pelo término do atendimento e ido embora. O agredido teria voltado para casa e começado a realizar serviços do lar, quando o ferimento voltou a sangrar.
Depois de perambular pelas ruas do bairro, a vítima teria caído na calçada, onde foi encontrada pelos policiais. O caso foi registrado como crime de lesão corporal. A partir daquele momento, policiais deram início a um rastreamento a fim de procurar o suspeito da agressão, de 25 anos, que já estava identificado, e apreender a barra usada para feri-lo. Entretanto, após as buscas, nem o suspeito e nem a arma foram localizados. Uma moradora, 59 anos, contou que, quando percebeu que a vítima estava ensanguentada, no chão, passou a acionar o Samu, mas só teria recebido respostas negativas quanto ao socorro do ferido. "Cheguei a fazer 14 ligações e, em todas, a alegação era de que não poderiam fazer nada, já que o homem havia saído da UPA." Outra mulher, 45, que mora em frente ao local onde a vítima foi resgatada, disse que, pelo menos, dez vizinhos ligaram para o Samu e obtiveram a mesma resposta. "É um absurdo negar socorro em um caso desse, quando há uma pessoa caída na rua, em uma poça de sangue, e o órgão responsável pelo salvamento se recusa a vir até o local."
Em nota, a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde informou que o usuário deu entrada na UPA de Santa Luzia, na segunda, entre 10h30 e 11h, apresentando ferimento no antebraço direito, sozinho e sem documentos. Ele foi atendido e realizou exame de raios X, não sendo detectada fratura. Na unidade, foi feita a limpeza, curativo e encaminhamento ao HPS, pedindo parecer para a cirurgia geral. Enquanto o médico assistente fazia o pedido, o usuário evadiu, entre 11h40 e 12h. Quanto à solicitação feita ao Samu para o socorro da vítima, a Secretaria de Saúde respondeu que, como o caso não se configurava como emergência, já que o usuário estava acordado e consciente (segundo informações dos próprios populares), foram prestadas orientações para compressão do ferimento (para estancar o sangramento) e que este se dirigisse ao HPS para atendimento. O paciente deu entrada no HPS, por volta das 14h40, (levado pelo Resgate), onde foi atendido, medicado, feita sutura local e liberado.
Conselho defende central única
Apesar de não ter recebido reclamação formal por parte de familiares da vítima e ter tido ciência do caso ocorrido no Ipiranga por meio do jornal, o secretário-executivo do Conselho Municipal de Saúde, Jorge Ramos, afirmou que o procedimento do Samu contrariou as normas de atendimento do serviço móvel. Segundo ele, mesmo que tenha feito orientações para que populares realizassem a compressão do ferimento da vítima, o Samu deveria se dirigir ao local, uma vez que faz parte de sua competência. "A orientação deve ser feita por telefone enquanto a viatura se desloca até onde a vítima está", ressaltou Jorge, acrescentando que o Resgate tem competência para atendimento em locais de difícil acesso e casos de vítimas presas às ferragens. Ele orienta que os familiares do homem agredido devem procurar o conselho e a Ouvidoria de Saúde para formalizar uma denúncia, que pode até servir para abrir processo de sindicância.
Ainda segundo ele, as dificuldades de atendimento móvel, na cidade, só serão sanadas, quando Juiz de Fora implantar o Plano Diretor de Urgência e Emergência, acabando com a divisão de prestação de socorro entre Samu e Resgate. "Quando houver uma única central de atendimentos, com um corpo médico único, os problemas serão minimizados." Mesmo sem apresentar números, a ouvidora de saúde de Juiz de Fora, Edna Aparecida Rodrigues, disse que recebe muitas reclamações sobre demora de atendimento envolvendo o Samu. "A justificativa para o atraso sempre está ligada à falta de viatura, ambulâncias em manutenção e grande demanda de atendimentos. É uma situação grave com sérios desvios, que mostra que o sistema precisa ser melhorado", avaliou Edna, completando que, no caso de uma vítima apresentar sangramento, o auxílio médico deve ser imediato.







