Reconstrução de Juiz de Fora precisa considerar novo cenário climático, defende pesquisador do Inpe
Em evento na UFJF, Jean Ometto afirma que eventos extremos tendem a ser mais frequentes e fala sobre importância da cidade priorizar adaptação e redução de riscos

Após enfrentar, em fevereiro deste ano, um dos maiores temporais da história local, Juiz de Fora vive agora o desafio da reconstrução. De acordo com o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST), Jean Ometto, neste momento, a cidade precisa ir além da recuperação da infraestrutura e se preparar para um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e intensos.
Para Ometto, que participou de relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC; ou Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, em tradução livre) — principal órgão global de avaliação científica das mudanças climáticas —, os desastres climáticos já não podem ser tratados como episódios isolados.
Durante o XX Congresso Brasileiro de Limnologia, maior congresso sobre águas da América Latina, realizado nessa semana na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o especialista falou à Tribuna de Minas sobre os desafios da adaptação das cidades às mudanças climáticas, os impactos de eventos extremos como as chuvas que atingiram Juiz de Fora em fevereiro e o papel da ciência no planejamento urbano. Confira a entrevista na íntegra.

Tribuna de Minas: De que forma a expansão das cidades e as mudanças climáticas têm afetado a disponibilidade de água e agravado eventos extremos, tanto de seca quanto de chuvas intensas?
Jean Ometto: Com a expansão das cidades e o aumento da população, a gente passou a demandar cada vez mais recursos naturais, e a água é um recurso absolutamente essencial à vida. Nós olhamos para água na questão de qualidade e quantidade, e o congresso traz muito isso. A gente depende de água para produzir alimento, para o abastecimento, para gerar energia. Então, tanto a seca quanto a cheia são problemas sérios. Historicamente, essas variações climáticas sempre existiram, mas o que vem acontecendo é que a gente está saindo da normalidade climática. Os eventos climáticos extremos estão se aprofundando, estão se acumulando e se intensificando. Essa intensificação leva, potencialmente, a desastres, seja de seca extrema ou de precipitações intensas, que elevam o nível dos rios e podem provocar deslizamentos de terra. Isso teve um exemplo dramático aqui em Juiz de Fora no início do ano.
Tribuna: O que explica essa intensificação dos eventos extremos?
Jean: Tem dois elementos importantes. Um é que o planeta está ficando mais quente. O aumento da temperatura é um fato consolidado pela ciência e leva o clima a ficar mais extremo. Os eventos climáticos ficam mais intensos. O outro elemento é a urbanização. Hoje, essencialmente, 85% da população brasileira vive em cidades, e elas não foram planejadas para um clima diferente daquele ao qual a humanidade estava habituada. Nós temos que pensar as cidades diante de uma nova lógica climática, diante de uma nova configuração climática, e isso o congresso também tratou.
Tribuna: Juiz de Fora está na fase de reconstrução após as chuvas de fevereiro. Como a cidade deve conciliar a recuperação dos danos com a preparação para novos eventos?
Jean: Esse ponto é absolutamente central. Um aspecto importante é que a gente pode ter um pouquinho de previsibilidade. O El Niño, por exemplo, é um processo que vem se consolidando e a gente já conhece quais são os efeitos dele no clima do país. Mas não temos uma delimitação absolutamente geográfica de onde aquele evento vai se expressar de uma maneira mais intensa. Então, tem que se preparar. Eu entendo que um elemento absolutamente central é trazer para a gestão pública uma perspectiva de clima diferente. Nós temos que trazer isso para o Plano Diretor da cidade, para a gestão dos recursos hídricos, para o ordenamento territorial. Tudo isso precisa ser pensado considerando que o clima está mudando. Pensando que esse evento que aconteceu em fevereiro em Juiz de Fora pode acontecer ano que vem? Tem uma possibilidade, mas a gente não sabe se vai acontecer. O que é possível é saber que o clima está mudando e trazer isso para a gestão fazer análises multidisciplinares, com pessoas olhando o problema urbano em diferentes facetas, para entender como reconstruir o espaço e recuperar a ocupação das pessoas com um nível de risco menor.
Tribuna: Quais medidas podem tornar uma cidade mais resiliente?
Jean: Sistemas de alerta são importantes para que um evento climático não vire um desastre. O evento pode acontecer, mas ele não pode matar pessoas. Ele pode acontecer, mas tem que danificar o mínimo possível a infraestrutura do espaço. Como fazer isso? Com sistemas de drenagem, soluções que resgatem a relação da cidade com a natureza e um ambiente urbano mais resiliente. Nós temos que buscar resiliência para eventos que vão acontecer. Eles sempre aconteceram. A diferença é que agora são mais intensos e mais frequentes.
Outro ponto que é absolutamente central é a questão da justiça. Porque a gente precisa entender quais são os espaços mais vulneráveis das cidades e olhar para essas populações diante de um clima que está mudando. Normalmente, as populações mais impactadas são aquelas que vivem em situações mais precárias. É um elemento importante para a gente lidar, claro, dentro da gestão pública, mas de uma gestão pública olhando para um clima diferente.
Tribuna: Como os dados produzidos pelo INPE podem ajudar nesse planejamento?
Jean: O INPE produz dados em várias frentes. Especificamente nessa questão de mudança climática e risco de impactos, nós desenvolvemos uma plataforma chamada AdaptaBrasil. Ela analisa os 5.570 municípios do país e avalia o risco de impacto que essas cidades têm. É uma plataforma voltada para gestores públicos, aberta, com dados disponíveis para qualquer pessoa acessar. A ideia é aproximar a ciência da gestão pública para que as decisões sejam tomadas com mais informação, baseada em metodologias globalmente aceitas. O INPE também produz dados sobre uso do solo, recursos hídricos, emissões e diversas informações ambientais que ajudam a compreender a realidade de cada município e a planejar ações diante das mudanças climáticas.
Tópicos: por jf









