Estudo identifica presença de 436 espécies de flora no Jardim Botânico

Mapeamento foi publicado na revista Rodriguésia, do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio


Por Gabriel Silva, estagiário sob supervisão do editor Eduardo Valente

26/07/2020 às 06h55

A variedade da flora, presente no Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), localizado na Mata do Krambeck, pode não ser facilmente notada a olho nu. Na verdade, pode até passar despercebida a amplitude de árvores, arbustos, ervas e outros tipos de vida presentes na região. Ao longo dos últimos anos, pesquisadores da UFJF se dedicaram a mapear todas as espécies que existem no local por meio de um estudo tão extenso quanto a ampla variedade de seres encontrados durante o trabalho.

No levantamento, o mais profundo realizado no Jardim Botânico até então, foram 436 espécies identificadas. Dessas, 404 (92,6%) são nativas, da Mata Atlântica, bioma de floresta tropical que envolve o espaço da UFJF. Outras 14 (3,2%) são espécies cultivadas, 11 (2,5%) exóticas e sete (1,6%) naturalizadas. Do total, dez delas estão ameaçadas de extinção, como são os casos da braúna, do cedro, do ipê-roxo e do pau-brasil, árvore nativa que se apresentava em abundância na mata.

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Área do Jardim Botânico, equivalente a 116 campos de futebol, reúne espécies nativas da Mata Atlântica, exóticas, cultivadas e naturalizada (Foto: Alexandre Dornelas-UFJF)

A região do Jardim Botânico foi identificada como um corredor ecológico, como é chamada a faixa de vegetação que liga fragmentos florestais ou unidades de conservação impactados pela urbanização. No caso da floresta de Juiz de Fora, há características do litoral do Rio de Janeiro e de São Paulo. “Embora ela seja bem representativa da floresta semidecidual, possui elementos que mostram a transição com a floresta ombrófila, que é característica do litoral do Rio de Janeiro e de São Paulo”, explica a pesquisadora Camila Neves, professora na UFJF e idealizadora do estudo. “Como corredor ecológico, a região tem uma área de importância biológica muito alta. O que é uma característica do município de Juiz de Fora, que liga a Serra do Mar à Serra da Mantiqueira”, complementa.

Apesar das semelhanças com outras áreas florestais do município, os 82,7 hectares de área preservada do Jardim Botânico, equivalentes a 116 campos de futebol, apresentam características próprias que diferem dos demais espaços. Entre elas, o formato de anfiteatro, pela inclinação do solo e presença de áreas planas, chamou a atenção dos pesquisadores. “Isso faz com que as encostas ao redor, pela declividade e a vegetação, gerem uma área central mais úmida. As áreas altas ficam mais expostas à incidência da luz solar. Isso cria uma vegetação bem típica destes dois ambientes, mais e menos úmidos. E essa estrutura é bem diferente de outros pontos da cidade”, esclarece Camila.

2 Realização do levantamento botânico Foto Pablo Salles
Pesquisa apontou que Mata do Krambeck funciona como um corredor ecológico (Foto: Pablo Salles)

O estudo
A pesquisa envolveu nove acadêmicos ligados à UFJF e ganhou reconhecimento após publicação de artigo na revista científica Rodriguésia, do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, neste mês. O mapeamento, no entanto, é realizado desde 2011 e surgiu como um projeto de mestrado da professora Camila Neves, encerrado em 2013. Após a apresentação do trabalho, a pesquisa seguiu a muitas mãos, necessárias para realizar coleta de amostras na extensa área, em trabalho de campo que durou até 2014. “A equipe é fundamental nesse tipo de trabalho. Sem a participação de todo esse pessoal, teria sido muito mais difícil”, afirma Camila.

Idealizadora do projeto há nove anos, Camila acredita que o estudo abre as portas para diversos outros trabalhos a serem realizados na região, em fertilidade que perpassa a flora local e atinge também o setor acadêmico. “Foi o primeiro levantamento da flora da área do Jardim Botânico. Foi muito importante para aumentar a visibilidade do município e da área que é fundamental para Juiz de Fora. Abre espaço para outros estudos que vierem depois”, completa.