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Aluno não vence habilidades básicas


Por KELLY DINIZ

26/07/2015 às 07h00

Apenas 4,4% dos alunos do ensino médio da rede estadual de Minas Gerais aprenderam efetivamente o conteúdo ministrado em matemática. Já em língua portuguesa, o número é um pouco superior, mas ainda assim alarmante, com 37,3% dos estudantes no nível recomendado de desenvolvimento. “O ensino médio é preocupante, não só em Minas, mas em todo o país. Os alunos estão saindo do ensino médio sem sequer vencer as habilidades básicas essenciais. Há uma grande defasagem de aprendizagem, que já começa a ser apontada nas avaliações do 9º ano (do ensino fundamental)”, afirma a coordenadora-geral do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed) da UFJF, Lina Katia de Oliveira. Os dados, divulgados na semana passada, foram levantados por meio das provas do Programa de Avaliação da Rede Pública de Educação Básica (Proeb). Já o exame do Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa) mostrou que 92,7% dos alunos das escolas estaduais saem do 3º ano do ensino fundamental alfabetizados. Comparando o resultado das duas avaliações é possível verificar que, quanto maior o grau de ensino, menor o rendimento dos estudantes (ver quadro).

Para o sociólogo da educação e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFJF, Fernando Tavares, vários fatores colaboram para esses resultados discrepantes. “Além dos conteúdos ficarem mais complexos, há o fato de as deficiências de desempenho serem acumulativas. Não é que o aluno não aprendeu o conteúdo do ensino médio, mas ele já carrega os déficits dos anos anteriores.” Outro ponto apontando pelo sociólogo é a diferença de ensino encontrada pelos alunos, que são de gerações diferentes. “A geração que está hoje na alfabetização é de uma época em que houve maior investimento nos anos iniciais. Essa geração chegará ao ensino médio com desempenho melhor. Quem está hoje no ensino médio teve uma alfabetização inferior.” Já Lina Kátia aponta a queda no monitoramento aos alunos com o passar dos anos como uma das causas dos baixos números de rendimento. “Nas séries iniciais, há um acompanhamento e monitoramento mais efetivo dos alunos. Até o 5º ano (do ensino fundamental), por exemplo, é um único professor que leciona.”

Nos últimos cinco anos, a proficiência média dos alunos da alfabetização da rede estadual subiu 77,5 pontos. Já no 5º ano do ensino fundamental, o crescimento foi bem inferior, de 10,3 pontos em português e de 13,1 em matemática. No último ano da educação básica, em português, a proficiência média melhorou 6,5 pontos. Em matemática, o desempenho dos alunos caiu 0,6 pontos.

Desafio

O sociólogo considera esperado um percentual de rendimento maior na alfabetização. No entanto, julga alarmante o quão baixo está o percentual do ensino médio. “Estamos falando dos futuros profissionais do país. São mais de 90% de alunos que perderão grandes oportunidades.” Para ele, é preciso repensar a escola pública e aproveitar de forma mais eficaz os diagnósticos apontados pelas avaliações. “Se não houver ousadia e um investimento maior, esses números não irão melhorar. É preciso alterar esse sistema que já deu diversas provas de que não está dando certo. Essas avaliações produzem bons diagnósticos, que nos mostram os aspectos piores e nos dão mais clareza dos desafios que temos que encarar. No entanto, não adianta olhar os resultados e fazer tudo igual. São necessárias medidas que impulsionem as redes a melhorar.”

A Secretaria de Educação de Juiz de Fora informou que “está parametrizando os resultados das mais de 70 escolas avaliadas na cidade e, tão logo o diagnóstico esteja consolidado, fará a divulgação da análise pedagógica”.

 

Avaliações irão passar por mudanças

A partir deste ano, as avaliações da rede pública de ensino – o Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa) e o Programa de Avaliação da Rede Pública de Educação Básica (Proeb) – irão passar por mudanças, com o objetivo de estimular a utilização dos dados educacionais como ferramenta pedagógica pelos gestores escolares. O anúncio foi feito na semana passada, durante apresentação dos resultados dos exames pela Secretaria de Estado de Educação (SEE).

A primeira mudança é a aplicação do teste do Proeb para o 7º ano do ensino fundamental e o 1º ano do ensino médio. Atualmente, as provas são realizadas apenas pelos alunos do 5º e 9º anos do ensino fundamental e 3º ano do ensino médio. Conforme a SEE, “a medida vai possibilitar intervenções pedagógicas antes que o aluno termine a etapa em curso”. O Proeb avalia as habilidades e competências desenvolvidas pelos alunos do ensino fundamental e médio em língua portuguesa e matemática, e os resultados são apresentados em uma escala de 0 a 500. Já o Proalfa é aplicado aos alunos do 3º ano do ensino fundamental (alfabetização), e os resultados são apresentados em uma escala de mil pontos.

A coordenadora-geral do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed) da UFJF, Lina Katia de Oliveira, vê com bons olhos a mudança. “Por exemplo, avaliando o aluno no 1º ano do ensino médio, é possível, com o resultado, elaborar um programa de intervenção antes da conclusão da etapa pelo aluno, dando maior condição para que ele melhore as habilidades.” O Caed é responsável, desde 2000, pela elaboração, coordenação, aplicação, análise e divulgação dos resultados das provas do Proalfa e Proeb.

Dados na web

Outra mudança que deve ocorrer ainda neste ano é a disponibilização no sistema de gestão escolar de todos os dados das avaliações, incluindo os microdados (informações por escola, turma e aluno). Já a partir de 2016, serão disponibilizados também os dados individuais dos alunos para pais e responsáveis na web. Com uma senha, será possível acessar os dados das avaliações sistemáticas e as notas obtidas na escola (boletim escolar).

Movimento pretende tornar escola atrativa

Doze das 49 escolas estaduais de Juiz de Fora irão participar do movimento Virada Educação Minas Gerais, da Secretaria de Estado de Educação (SEE). A ação visa a tornar a escola mais atrativa e reduzir o percentual de evasão escolar. Segundo o coordenador de Juventude da Superintendência de Ensino Médio da SEE, a ação surgiu a partir de um estudo inicial focado no público de 15 a 17 anos, que deveriam estar no ensino médio. Segundo o Censo Escolar 2010/2014, cerca de 14% desses jovens estão fora da escola. Dos que permaneceram em sala de aula, 40% estão atrasados no estudo.

A Virada Educação teve início em 8 de julho, quando as escolas analisaram os indicadores de desempenho, identificando desafios e potencialidades. No dia 20 de agosto, as escolas da Zona da Mata irão realizar rodas de conversa com professores e alunos, onde serão discutidas ideias para uma escola melhor. “O Unicef irá sistematizar as conversas e elaborar um diagnóstico. Assim, poderemos construir políticas públicas, por meio do olhar dos jovens e dos professores.”

No dia 21 de setembro, serão abertas inscrições para o ensino médio. “Vamos realizar um grande chamamento público. A ideia é que os jovens voltem para as escolas, que serão escolas mais atrativas.”