Hepatite A avança em Juiz de Fora e casos disparam 20 vezes em fevereiro
Secretaria de Estado de Saúde monitora aumento em Minas e trata cenário como surto

Juiz de Fora registrou 141 casos de hepatite A em fevereiro, número cerca de 20 vezes maior que o contabilizado no mesmo mês do ano passado, quando houve apenas sete notificações. Dados da Secretaria de Saúde do município também mostram avanço em relação a janeiro, que teve 58 ocorrências. Enquanto a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) classifica o aumento como pontual, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) trata a situação como surto e reforça a vigilância epidemiológica.
Especialistas avaliam que a alta de casos não pode ser atribuída exclusivamente às chuvas intensas e enchentes registradas nos últimos meses na cidade, embora esse cenário possa aumentar o risco de exposição ao vírus. Segundo eles, a contaminação de água e alimentos, além da prática sexual desprotegida, está entre os principais fatores associados aos casos. A Subsecretaria de Vigilância em Saúde (SVS) da PJF também reconhece que a cobertura vacinal contra hepatite A entre crianças permanece baixa no município.
Prefeitura minimiza alta, mas Estado trata casos de hepatite A como surto
A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) considerou o aumento no número de casos como “pontual”. Conforme explicação do órgão, o termo “surto” é utilizado quando há número de casos acima do esperado para o período e vínculo epidemiológico comprovado entre os casos. “Até o momento, não se verificam essas duas condições, já que o município acompanha um crescimento de casos no cenário nacional e não há evidência de vínculo epidemiológico entre os registros.”
No entanto, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), em nota, tratou o aumento de registros da doença como “surto” e afirmou intensificar a vigilância epidemiológica no município. A pasta declarou reforçar ações de bloqueio e investigação de casos, coleta de dados e medidas de controle.
Aumento de registros
Para o infectologista Mário Lúcio Novaes, o aumento dos registros de casos de hepatite A pode ser explicado por diversos fatores, dentre eles o aumento da investigação de sintomas relatados e o maior acesso da população a informações sobre saúde. O especialista também cita como uma das causas a contaminação dos alimentos, ingeridos sem higienização adequada. Associado a esses fatores, o período de fortes chuvas pode favorecer a exposição a água contaminada e, consequentemente, contribuir para o aumento dos casos.
“Diante de qualquer sintoma, mesmo sem amarelão ou icterícia, há maior investigação sobre hepatite A. Também percebo que os cuidados primários com a saúde tiveram uma queda, pois hoje vemos pouco cuidado com a alimentação e com a água que se toma, principalmente na rua”, explica.
O médico ressalta a importância da vacina contra hepatite A para toda a população, especialmente a partir de 1 ano de idade. Além disso, pessoas imunossuprimidas, pessoas que fazem tratamento com Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ou Profilaxia Pós-Exposição (PEP), e profissionais que atuam em enchentes e outras situações de risco, como bombeiros e policiais, também integram o público-alvo. A ampliação da imunização deve-se à alta exposição desses grupos à contaminação.
Saneamento básico e educação em saúde
Dentre as medidas de prevenção contra a doença apontadas pelo infectologista estão o tratamento da água e a higienização de alimentos. O tratamento do esgoto coletado também deve ser ampliado — o baixo índice apresentado pelo município é considerado uma deficiência no saneamento básico. “A educação em saúde pode reduzir os casos de doença, reivindicando a qualidade da água, o descarte de dejetos em locais seguros e sem redes de esgoto a céu aberto. Todos esses envolvimentos sanitários são importantes para melhorar a qualidade de vida da população”, explica Novaes.

Vacinação contra hepatite A segue baixa no município
O aumento de casos de hepatite A tem sido observado não somente em Juiz de Fora, mas em diversas cidades, conforme avaliação da subsecretária de Vigilância em Saúde, Louise Cândido. Como aponta, além da ingestão de água e alimentos contaminados e sem higiene adequada, as práticas sexuais desprotegidas também são um dos fatores que contribuem para a elevação dos registros. Em Juiz de Fora, segundo observação, 60% dos casos da doença ocorrem entre homens adultos jovens, acompanhando o cenário nacional.
A subsecretária reconhece que a vacinação contra hepatite A entre crianças segue baixa no município, ainda abaixo da meta de 95% preconizada pelo Ministério da Saúde, e aponta a necessidade de ampliar a cobertura vacinal. “Temos feito um trabalho de vacinação nas escolas, de ampliação dos horários das salas de vacinas nas unidades básicas, que agora atende aos sábados, e de levar o vacimóvel para mais perto da população.”
Entre as ações de prevenção, além da vacinação, Louise destaca o trabalho da Vigilância em Saúde na distribuição de hipoclorito para desinfecção de água e alimentos, na fiscalização de estabelecimentos comerciais e no monitoramento e controle da doença. “Uma equipe do Ministério da Saúde está fazendo uma investigação em conjunto para identificar as melhores formas de prevenção da doença e identificar os fatores de exposição”, afirma.
Região Sudeste também tem aumento de casos
De acordo com o último Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais do Ministério da Saúde, publicado em julho de 2025, o Brasil registrou 302.351 casos de Hepatite A entre 2000 e 2024 — o equivalente a 36,6% de todas as hepatites virais notificadas no país. Nesse período, a maior proporção de infecções concentrou-se na região Nordeste.
Nos últimos dez anos analisados, a taxa de incidência da doença caiu 47%. Em 2024, porém, houve aumento de 54,5% em relação ao ano anterior, crescimento impulsionado pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O Sudeste também foi a segunda região com maior número de óbitos, tendo a doença como causa básica, ficando atrás apenas do Nordeste.
Quando analisada a incidência de hepatite A nas capitais brasileiras, Belo Horizonte aparece como a quinta com taxa acima da média nacional, como também superior à registrada no estado. O boletim ainda aponta que a proporção de casos da doença entre homens foi maior do que entre mulheres.








