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Acordes de otimismo


Por Juliana Netto

23/11/2014 às 07h00- Atualizada 25/11/2014 às 10h41

Professor Luís Fernando Risan (de preto) comemora resultados positivos com estudantes da E. E. Francisco Bernardino
Professor Luís Fernando Risan (de preto) comemora resultados positivos com estudantes da E. E. Francisco Bernardino

Na contramão da violência, muitos educadores se empenham para propiciar experiências positivas no dia a dia de seus alunos. Embora a visibilidade de ações dessa natureza seja muito menor que a da explosão da criminalidade infantojuvenil, as experiências mostram que os resultados são compensadores. Na Escola Estadual Francisco Bernardino, no Manoel Honório, por exemplo, o professor de história Luís Fernando Risan, que leciona para o 9º ano, tem como principais desafios resgatar os jovens do crime e elevar a autoestima deles.

Foi na música que o docente encontrou o caminho para estreitar os laços com os estudantes, a maioria oriunda da periferia, atraindo a atenção para temas como tráfico de drogas, criminalidade e violência doméstica, presentes no cotidiano de muitos desses adolescentes. A ideia ganhou materialidade no projeto “Musicalidade como instrumento de interação e promoção de um ambiente de paz”, e já colhe bons frutos: as notas e o envolvimento dos alunos cresceram exponencialmente.

“Um dia, trabalhei uma letra de música com os estudantes e percebi que o contexto da sala de aula mudou, houve um interesse geral. Depois, levei a guitarra e a coisa ficou mais fervorosa. Os outros alunos falavam pelos corredores: ‘uma guitarra em sala de aula?'”, relata o professor. Criar situações diferentes da realidade dos jovens, que, muitas vezes, convivem com a violência e com problemas sociais, é a forma que Luís Fernando encontrou para intervir na vida dos alunos e proporcionar momentos de alegria. “Se não tiver algo para promover esses bons sentimentos, a tendência é que alguns sejam influenciados pelo negativismo do cotidiano.”

O professor defende que para combater a violência é necessário fazer um trabalho de paz interior, com algo que acalme, alegre, contagie, inspire, papel muito bem cumprido pela música. “Às vezes, o menino vem para escola com algum problema de casa e, dependendo do que ele está escutando, vai só se inflamando. No projeto, procuro trazer letras para reflexão, que estimulem o debate de temas importantes. Não basta só seguir o currículo escolar, é preciso se envolver e estimular a participação deles em atividades que despertem a sensibilidade.”

Conforme a professora e psicóloga Nathália Meneghine, a violência acontece quando a palavra perde lugar, por isso, é fundamental dar espaço para os jovens, sobretudo os que vivem em áreas periféricas, onde a incidência de crimes contra a vida é maior. “É comum vermos notícias de assassinatos na periferia, eles (os estudantes) sempre têm um conhecido que morreu de forma violenta. Cada vez mais, isso é banalizado, pois acontece a todo momento, está no cotidiano deles. O educador deve mostrar que não é dessa maneira que resolvemos os conflitos, há um outro jeito e esse é um grande passo.”

Sonho coletivo
O colégio vem conseguindo bons resultados com o trabalho, que resultou, inclusive, na formação de uma banda “interclasse”, composta pela cantora Rosimara Angélica de Paula, 18 anos (3º ano), os violinistas Daniel Goulart Coelho, 14 (9º ano) e Laís Almeida, 17 (3º ano), o baixista Juan Pablo Garcia Manoel, 15 (1º ano) e a tecladista Giovanna Stehling, 14 (8º ano). O grupo é denominado Dreamers, sonhadores, em português.

A banda começou a ensaiar no recreio e um burburinho se instaurou pelos corredores da escola, encantando outros alunos. “Um dia resolvi tocar piano, aí apareceu a Laís, dizendo que queria aprender o instrumento. Ela também comentou sobre uma amiga que cantava, mas que era tímida. Veio a Rosimara, toda acanhada, mas logo na nossa conversa eu senti o timbre dela e puxei a música “What’s Up”, do banda de rock norte-americana 4 Non Blondes. Depois a desafiei com “Let be”, dos Beatles”, conta Luís Fernando.

Segundo o professor, o envolvimento com o projeto integrou jovens de várias séries e turmas durante o recreio. Eles deixaram de lado o uso “individualista e alienado” do celular nos intervalos. Além da socialização entre os companheiros, o professor garante que a turma da música já está famosa na escola.

O projeto está repercutindo também no meio acadêmico. Luís Fernando foi convidado para apresentá-lo no dias 5 de dezembro no congresso “Prevenção da Violência nas Escolas e Promoção de uma Cultura de Paz”, da Secretaria Estadual de Educação, em Belo Horizonte.

escola fernando 21
Banda Dreamers foi formada por alunos de diferentes séries, como desdobramento do projeto

Notas musicais impulsionam as escolares

A criação da banda Dreamers, formada por estudantes da Escola Estadual Francisco Bernardino, não demorou a impulsionar o surgimento de outros grupos musicais no colégio. “Já tem o pessoal do rap e do pagode”, orgulha-se o mentor do projeto “Musicalidade como instrumento de interação e promoção de um ambiente de paz”, Luís Fernando Risan. Ele garante que, enquanto as notas musicais se propagam, as escolares ficam cada vez melhores.

A violinista Laís Almeida conta que a vontade de ir às aulas é ainda maior agora. “A gente vê que, no Brasil, não tem muito incentivo para as artes, então é maravilhoso ter isso aqui na escola.”

A vocalista da Dreamers, Rosimara Angélica de Paula, 18, também se esforça para ter melhores resultados. “Se a gente não tiver boas notas, não terá tempo para participar da banda.”

Altruísmo
Apaixonado por música e autodidata em vários instrumentos, Luís Fernando quer propiciar aos alunos o contato com o aparato musical que, segundo ele, é capaz de trazer paz interior tanto para quem toca quanto para quem ouve. “Nos anos 1980, você podia ter o dom, mas o acesso à música era só para pessoas ricas. Então eu, como professor de escola pública, não posso deixar passar essa oportunidade para eles.”

Para se dedicar aos ensaios com os alunos, é necessário abrir mão do descanso e ir à escola fora do horário do trabalho. Além do apoio da direção, ele conta com a ajuda de amigos, que emprestam seus equipamentos, instrumentos e dão uma força extra nos ensaios. “Minha intenção é ter uma rádio funcionando nos intervalos da escola, tocando cada dia um gênero musical que conte a história de uma década”, planeja.

Marcas da exclusão
Ausência de política pública, falhas no sistema da educação, impunidade e falta de diálogo são, segundo a professora e psicóloga Nathália Meneghine, fatores que constroem o processo da violência. “Em uma aula sobre reprodução, um aluno disse: ‘Nós temos que ter filho cedo, porque morremos cedo mesmo’. Isso é a consciência da baixa expectativa de vida criada pelo somatório daqueles fatores. É por isso que os projetos sociais que dão abertura aos interesses dos jovens devem ser incentivados. Eles auxiliam a formação da personalidade e do caráter deles”, defende.

Professora há 12 anos, Nathália comenta que todos os dias escuta no colégio relatos sobre a violência, que se torna cada vez mais despida. No mês passado, o assassinato de uma aluna, alvejada na porta de casa, no Bairro Parque das Águas, Zona Norte, a levou ao limite. Em desabafo, ela escreveu um artigo, publicado pela Tribuna, em homenagem à vítima. “Esses meninos são invisíveis porque morrem todo os dias, todas as horas. Ela não foi a primeira aluna que perdi assim. Acompanhei essa menina muito de perto, ela já chegou para mim marcada pela exclusão social. É preciso apagar essas marcas.”