Com bullying em alta de 67%, como a violência escolar afeta crianças e adolescentes?
“As consequências psicológicas são para a vida toda”, alerta especialista sobre risco de vítimas desenvolverem ansiedade e depressão

A criminalização da prática de intimidação sistemática, conhecida como bullying — e da sua versão virtual (cyberbullying) — é recente, promovida pela Lei nº 14.811/2024, mas o número de registros já chama atenção. Embora ainda não dimensione o alcance desse crime, que é muito subnotificado e afeta, principalmente, crianças e adolescentes, o aumento de 67,3% das ocorrências no país, entre 2024 e 2025, tem despertado políticas públicas de combate à violência escolar, inclusive em Juiz de Fora. As iniciativas locais também sucedem casos recentes envolvendo estudantes, que causaram repercussão no início de julho e mobilizaram a Polícia Militar. Uma briga entre duas alunas seguida de uma tentativa de invasão à Escola Estadual Fernando Lobo, no Bairro São Mateus, deixou um aluno levemente ferido. Já na Escola Estadual Mercedes Nery, no Bairro Santa Terezinha, região Nordeste, um aluno foi alvo de agressões físicas e de atos de constrangimento sexual, praticados nas dependências da instituição por diversos estudantes. A vítima apresentou lesões e recebeu atendimento médico.
De acordo com dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, registros de bullying e cyberbullying envolvendo vítimas de 0 a 17 anos no país somaram 5.226 casos. Isso corresponde a uma taxa de 11,7 anotações para cada grupo de 100 mil crianças e adolescentes. Em 2024, haviam sido contabilizados 3.161 crimes do tipo (7,0 por 100 mil). “Vale destacar que aumentou o registro, e não a ocorrência, porque sempre aconteceu, isso é fato. Quando começa a registrar, assusta, porque toma forma, e faz a gente entender a proporção”, observa a psicóloga Eduarda Silva Mota, acostumada a trabalhar o tema em rodas de conversa e palestras em escolas. “Uma parcela das ocorrências não é registrada, infelizmente, porque acaba naturalizada no contexto escolar. Passa como algo do dia a dia, mas não é e não tem que ser”, alerta.
O Estado não divulgou estatísticas, mas dados do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-Ute) revelam que, em dez anos, os casos de violência nas escolas de Minas aumentaram 254%, passando dos 3,7 mil, registrados em 2013, para 13,1 mil, em 2023. Os números foram divulgados em audiência de monitoramento do Plano Estadual de Educação na Assembleia Legislativa (ALMG), no fim de maio.

Eduarda ressalta que as intimidações sistemáticas acabam sendo mais um empecilho para além das dificuldades já esperadas para a vida de um jovem. “É difícil para o adolescente, a família e os professores entenderem o que é bullying e violência ou o que é apenas uma dificuldade natural da idade. Por isso, as dinâmicas de grupo ou as palestras nas escolas (muito comuns neste Setembro Amarelo, mês de combate ao suicídio) têm a função de mostrar a diferença desse limite e que esse contexto é tóxico para o estudante. As diretoras reconhecem nosso esforço e o carinho, vendo o público sendo atingido.” A especialista destaca o embaraço enfrentado por familiares em casa para reconhecer e acolher as vítimas. “Os meninos, por exemplo, ainda são tratados com mais dureza pela família, como se tivessem obrigação de encarar aquilo. Com certeza, isso vai piorar o aspecto psicológico desse indivíduo”, avalia.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública pondera que, mais do que evidenciar um aumento da violência, essa expansão das ocorrências parece refletir, sobretudo, a consolidação gradual da nova tipificação penal no cotidiano da sociedade brasileira. “O bullying constitui um fenômeno muito mais disseminado do que sugerem as estatísticas criminais. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense 2024), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que quatro em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram ter sofrido bullying no ambiente escolar.”
Diante desse contraste entre os números, o Anuário considera evidente que “os registros policiais captam apenas uma fração dos episódios efetivamente vivenciados por crianças e adolescentes, restringindo-se, em geral, aos casos de maior gravidade, persistência ou repercussão, que extrapolam a capacidade pedagógica de intervenção das escolas e mobilizam famílias, profissionais da educação ou outros atores a ponto de resultar em notificação policial.” A expectativa é que a Lei nº 14.811/2024 fortaleça a compreensão social de que essas práticas sistemáticas extrapolam “uma simples brincadeira de mau gosto”.
Conheça as leis e o projeto para combater bullying em escolas de JF
Em agosto, duas propostas da Câmara Municipal entraram em vigor: A Lei nº 15.470/2026 autoriza o Executivo a criar o Selo Escola sem Bullying no município, para incentivar a cultura da paz, do respeito e da convivência saudável no ambiente escolar; enquanto a Lei nº 15.469/2026 estabelece o Selo Escola que Cuida, incentivando práticas voltadas à promoção da saúde mental, do bem-estar e da qualidade de vida dos alunos. Paralelamente, a Secretaria de Educação da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) deu início às atividades do projeto “Prevenção às Violências e Promoção da Convivência Democrática”. Inicialmente, estudantes das escolas municipais Cosette de Alencar, Marlene Barros e Raymundo Hargreaves participaram de rodas de conversa sobre respeito, cuidado e prevenção às diferentes formas de violência. “O projeto busca fortalecer, no cotidiano escolar, uma cultura de respeito, proteção, diálogo e convivência democrática, contribuindo para a prevenção de diferentes formas de violência e para a construção de relações mais saudáveis e respeitosas entre crianças, adolescentes e toda a comunidade escolar”, explica a PJF.
Segundo a psicóloga Eduarda Silva Mota, em muitos casos, o bullying é praticado por pessoas que não veem sentido no estudo. “Começa com comportamento agressivo, como se estivesse encontrando um motivo para estar ali. Tende para a violência e agressividade na tentativa de encontrar uma motivação para ir à escola. Há quase que um sofrimento no sentido de um vazio de identidade do agressor.” Do outro lado, quem recebe o ataque se sente diminuído, enquanto sua identidade ainda está sendo construída. “O agressor sabe que aquela pessoa está motivada, enquanto ele, não, então, ele ataca.”
A especialista ainda cita que o bullying pode ser potencializado quando há reforço social. “O ser humano, quando está em grupo, tem comportamento mais forte, muito mais contundente: ‘Dentro de uma sala de aula eu tenho uma plateia e vou fazer isso esperando ter a aprovação daquelas pessoas.’ Ao destruir a identidade do outro e diminuí-lo, acaba criando um sistema, uma dinâmica, um padrão que acaba sendo complexo e muito sofrido.”
Apesar de o bullying ser uma espécie de implicância recorrente, pode facilmente evoluir para agressões físicas, deixando marcas ainda mais profundas nas vítimas. “Infelizmente, como é muito comum, todo mundo tem um caso para contar de bullying, como se isso diminuísse a gravidade, mas isso mostra o quão grave é e o quão frequente. Enquanto especialista, percebo que as consequências psicológicas da violência são para a vida toda. Criamos padrões de aprendizagem, e o cérebro fica sempre alerta. Estamos falando de violência escolar tratada com terapia, pois gera mesmo impacto psicológico no funcionamento emocional. Fica aquela marquinha no cérebro, sempre prestando muita atenção naquele ambiente. Isso faz toda diferença na qualidade de vida, a pessoa tende a desenvolver problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão que, se somadas a outros fatores, pode desenvolver coisas graves”, conclui a psicóloga.
Estado não divulga dados de violência escolar ’em razão da sensibilidade do tema’
A Tribuna questionou a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) sobre os números de violência escolar em Minas Gerais e Juiz de Fora, mas a pasta informou que, “em razão da sensibilidade do tema e para preservar estudantes, profissionais da educação e a comunidade escolar, a Sejusp e a Secretaria de Estado de Educação (SEE) não divulgam recortes de dados referentes a ocorrências pontuais em escolas”. “O cenário é monitorado de forma permanente pelos órgãos competentes, que atuam de maneira integrada na prevenção à violência e na promoção de um ambiente escolar seguro”, finaliza a nota.
Já a SEE/MG afirmou que as escolas da rede estadual contam com protocolos de prevenção e encaminhamento para situações de violência, além de equipes de apoio que atuam no acompanhamento da comunidade escolar. “As unidades também contam com o suporte do Núcleo de Acolhimento Educacional (NAE), composto por psicólogos e assistentes sociais, responsável por orientar as equipes escolares, apoiar a mediação de conflitos e realizar os encaminhamentos necessários à rede de proteção. Os servidores têm acesso ao Serviço de Acompanhamento Sociofuncional (SAS), que oferece acolhimento e apoio socioemocional, com orientação para encaminhamento aos serviços da rede de saúde, quando necessário.”
Também questionada sobre o tema, a Secretaria de Educação da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) destacou que os casos de violência envolvendo a comunidade escolar são acompanhados pelo Departamento de Inclusão e Atenção ao Educando (DIAE), responsável por receber as demandas encaminhadas pelas escolas, realizar a mediação e promover os encaminhamentos necessários, com foco no bem-estar da comunidade e na continuidade das aprendizagens. “A Secretaria também desenvolve ações permanentes de prevenção e formação. Em 2025, publicou um guia de orientação destinado às escolas da rede municipal, com protocolos e diretrizes para a atuação diante de situações de violência. Além disso, integra o Comitê da Rede de Cuidados às Crianças e aos Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência e, em abril de 2026, em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), disponibilizou aos professores e coordenadores da rede municipal o curso de Escuta Especializada.”








