O lado ‘B’ da Expedição S. Francisco

Abraço ao baobá é feito por quatro pessoas, entre elas a professora Neila (primeira à esquerda) (Roberto Fulgêncio)

A chef Sandra Felisberto refaz o feijão tropeiro que encantou Halfeld (Roberto Fulgêncio)

Roberto Fulgêncio capta imagem do quilombola José dos Passos (Daniela Arbrex)

No Candeal, Daniela aprende a fazer desenhos nas peças de barro (Roberto Fulgêncio)

Fotografia nas cavernas (Daniela Arbrex)
Quando a Expedição São Francisco ganhou forma, eu e o fotógrafo Roberto Fulgêncio nos demos conta do tamanho que o projeto havia ficado. Além de um caderno especial, havíamos nos comprometido a entrar diariamente ao vivo na programação da rádio CBN/Juiz de Fora, e ainda alimentar regularmente o blog que relataria essa moderna saga jornalística. Daria certo? O fato é que foram quase dois meses de pesquisa para a realização dessa grande reportagem. Apesar da preparação minuciosa, partiríamos para uma aventura em águas incertas. E se a gente não conseguisse trazer o material imaginado?
No dia 15 de novembro, saímos de Juiz de Fora antes do almoço em direção à Pirapora (MG), cidade na qual o engenheiro Henrique Guilherme Fernando Halfeld deu início a sua aventura de pesquisar as condições de navegabilidade de um dos principais rios brasileiros. Iríamos percorrer, a partir de Pirapora, dez localidades. Ao todo, foram três mil quilômetros de carro e quase 500 quilômetros de navegação no trecho mineiro do Rio São Francisco. Na reportagem de hoje, mostramos mais um pouco dos bastidores desta aventura pelas águas de Halfeld. O caderno publicado no último domingo está disponível a partir de hoje pela internet.
Em Pirapora, conhecemos a empresária Maria do Rosário Ribeiro Felisberto, 64 anos, uma contadora de histórias de primeira. A melhor delas é sobre o pai, um boiadeiro que fez 23 filhos na esposa. “O trem passava lá na porta da casa que ele fez com telhado coberto com couro de boi. Na hora em que tudo balançava, ó, vinha mais um filho”, diverte-se a mãe da chef de cozinha Sandra Felisberto, 30. Formada em gastronomia pela Universidade Estácio de Sá, em Belo Horizonte, Sandra foi a responsável por criar uma receita de feijão tropeiro virado na couve à “moda de Halfeld”.
O prato é citado pelo aventureiro em seu Atlas e Relatório concernente à exploração do rio, publicado em 1860. A comida do povo do rio, aliás, impressionou o alemão. Por demonstrar apreço pela comida da Bacia do São Francisco, pedimos a Sandra que refizesse o tropeiro que encantou o alemão. E ela conseguiu. Filha do antigo dono do bar do baianinho, homem que vendia uma famosa farofa com torresmo e carne de sol que os barranqueiros comiam até “em dia de missa”, Sandra se inspirou nessa mistura para criar o tropeiro. “Minha especialidade é desenvolver pratos com ingredientes regionais. No caso do Halfeld, fiz um levantamento e cheguei à conclusão de que quem cozinhou para ele usou feijão de corda, cujo gosto é mais forte”, revela.
A chef acrescentou ao feijão artesanal, carne de sol, banha de porco, farinha de mandioca fina, ovo de codorna, pimenta dedo-de-moça, torresmo e mini-couve “novinha”, além de alho. Como tirou tudo da cabeça dela, revelou os ingredientes, mas não estabeleceu quantidade para nada. “É só ir misturando”, disse, ao montar o prato. Além de ter ficado delicioso, o tropeiro à moda do aventureiro é forte mesmo e nos manteve alimentados durante todo o dia.
Gente generosa pelo caminho
No município de São Francisco, eu havia marcado encontro com Neila Vieira da Paz, 51 anos, diretora da Escola Família Agrícola Tabocal e antiga professora do Quilombo de Bom Jardim da Prata. Completamente desconhecidos para mim – tanto o quilombo quanto a minha interlocutora -, eu havia localizado a professora com a ajuda dos movimentos sociais em defesa do rio. Esperava avistar uma matuta, mas Neila era o oposto daquele estereótipo. Toda enfeitada, a mulher forte que tentava resolver o problema do fornecimento de água na sua escola, era uma figura generosa, humana, divertidíssima. Com um sotaque quase baiano, ela se referia a todas as pessoas não pelo nome, mas por um adjetivo: “Ô maravilhosa, venha aqui que quero lhe mostrar uma coisa”. Morri de rir, quando ela chamou o fotógrafo Roberto Fulgêncio de maravilhoso. Tímido à beça, ele ficou sem graça diante da espontaneidade dela.
Solo sagrado
Ao lado da professora, pegamos a balsa em direção ao quilombo, onde o presidente da Associação Quilombola, José dos Passos, nos esperava. Passamos um dia no território quilombola. Ao final do encontro, Passos nos levou para uma área quase sagrada da terra, onde estão localizados as árvores centenárias, os baobás. Com o maior tronco do mundo, os baobás – que têm seis espécies nativas da Ilha de Madagascar -, ocupam uma parte importante da área de mais de 50 mil hectares. Para a foto, sugeri que medíssemos a árvore. Para abraçá-la, eu, Roberto, José dos Passos e a professora nos juntamos e tivemos dificuldades de entrelaçar nossas mãos. Na despedida de Neila, fui eu quem disse: “Tchau, maravilhosa.”
De cavernas e artesanato ao segredo da cachaça
O município de Januária foi a nossa base para o deslocamento em três regiões do semiárido mineiro: Brejo do Amparo, Cônego Marinho e Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. No povoado de Brejo do Amparo, há uma peculiaridade: a maior parte dos estabelecimentos comerciais só abre após às 17h, quando o povo que trabalha na cana-de-açúcar e nos engenhos retorna para o distrito dormitório. Foi lá que conhecemos João Dias, 69 anos. Conhecido como Dão, o homem negro de olhos verdes chama atenção. Atualmente aposentado do setor de manutenção do antigo Departamento de Estradas de Rodagem, o sertanejo que estudou somente até o terceiro ano primário complementa o orçamento com a criação de umas “vaquinhas veias” e alguns porcos. Foi ele quem disse a primeira vez a comovente expressão do povo simples do semiárido: “Vai desculpando.”
Também foi em Brejo que experimentamos uma das cachaças mais famosas do país: a Princesa de Januária. Fabricada pela Cooperativa dos Produtores de Cana-de-Açúcar e Derivados, a bebida artesanal é vendida para a Bahia. O engenho tem 28 associados e produz 700 litros por dia. Para cada cem litros, é necessária, em média, uma tonelada de cana-de-açúcar. Um dos segredos do sabor da cachaça de Januária, segundo o presidente da cooperativa Dirceu Lopes de Sousa, 43 anos, é a quirela de milho. “Além de o solo ser propício para a plantação de cana boa, a quirela de milho é diferente do fermento químico. Por ser um fermento natural, ela dá um sabor único à cachaça que fica um ano nas dornas de madeira antes de ser engarrafada”, explicou.
Em Cônego Marinho, a emoção foi conhecer as guerreiras do barro. As mulheres do Candeal me tocaram profundamente com a sua arte. Durante a entrevista, amassei ao lado delas o pó de barro e fiz um desenho em uma das peças que elas modelaram. A fruteira que trouxe de lá está na minha cozinha, como relíquia do sertão mineiro que revela outras surpresas, entre elas o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. Para chegarmos à Janela do Céu, eu e Roberto caminhamos por três horas. No meio do percurso, ainda encontramos uma jararaca, o que quase me fez desistir de continuar. Vencido o susto, encontramos a gruta e conhecemos seus mistérios. Esta viagem-denúncia foi mais do que uma declaração de amor ao Velho Chico. Foi, principalmente, um tributo ao jornalismo.











