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Cidade tem salto de homicídios


Por MARCOS ARAÚJO

22/01/2015 às 07h00

Corpo de Júnior Tavares Aleixo foi encontrado com tiro na cabeça no Jardim Cachoeira

Corpo de Júnior Tavares Aleixo foi encontrado com tiro na cabeça no Jardim Cachoeira

Duas mortes violentas foram registradas durante a madrugada de ontem em bairros da Zona Norte da Cidade. Uma delas aconteceu em uma rua sem saída, no Bairro Jardim Cachoeira, onde Júnior Tavares Aleixo, 24 anos, foi encontrado com um tiro na cabeça. A outra foi na Rua Professora Helena Antipoff, em Benfica, onde Édipo Marconi Dias Correia, 27, foi atingido por dois golpes de faca no peito. Os dois crimes elevam para 11 o número de homicídios registrados em janeiro, o que equivale a dizer, em média, que vem ocorrendo um assassinato a cada dois dias. Em todo janeiro do ano passado, foram 14 homicídios, de acordo com levantamento da Tribuna. O índice dos crimes contra a vida no município entrou em uma curva ascendente há cinco anos, quando os habitantes de Juiz de Fora viram saltar o número de mortes violentas de 52 homicídios em 2010 e 2011, para 99 óbitos em 2012, 139 no ano seguinte e 141 assassinatos em 2014, ainda conforme levantamento do jornal, que também considera as mortes ocorridas posteriormente aos crimes, mas em decorrência deles. Essa escalada da violência coloca o município em posição desconfortável em relação à média nacional.

Conforme o pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e do Núcleo de Pesquisas de Políticas Públicas da Unidade de São Paulo (USP), Leandro Piquet Carneiro, em 2013, quando o município registrou 139 homicídios, equivalente a uma taxa de 28,4 assassinatos por cem mil habitantes, Juiz de Fora ficou acima da média do país, que, em 2012, foi de 20,4. Dez anos antes, como apontou o pesquisador, a taxa de homicídios na cidade era de 8,4 por cem mil habitantes. “Enquanto o país melhorou entre 2003 e 2012, graças à diminuição dos homicídios em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, Juiz de Fora deixou o grupo das cidades menos violentas e poderá, em breve, estar no noticiário nacional como mais um caso de fracasso na segurança pública”, opina o pesquisador. Ele reitera que, se não houver interferência do Estado e da sociedade, a meta para 2015 poderá ser ainda mais obscura. “Os números crescentes de homicídios em Juiz de Fora desafiam os gestores públicos e a sociedade. Pouco foi feito de concreto para enfrentar essa triste realidade”, enfatiza Piquet, acrescentando que 2014 terminou ainda pior do que 2013, o que equivaleria a um novo aumento na taxa de homicídios por cem mil habitantes.

Tráfico de drogas

Todavia, as forças de segurança pública que atuam na cidade afirmam agir a fim de derrubar a alta dos crimes. Em entrevista à Tribuna, na semana passada, o chefe do 4º Departamento de Polícia Civil, José Walter da Mota Matos, destacou que sua instituição trabalha para a redução do número de homicídios, que considerou como uma questão central. Ele ressaltou que a Polícia Civil tem estudos estatísticos que relacionam os números de mortes com o tráfico de drogas que, de acordo com o policial, deixa a situação ainda mais complexa. “A Polícia Civil é um dos atores que vão atuar nessa frente. Tem toda uma questão de fronteira, de participação da sociedade, de união das forças de defesa social para minimizar os reflexos disso”, avaliou José Walter da Mota Matos. Na ocasião, a Polícia Civil informou que o índice de apuração dos homicídios, na cidade, está em torno de 70%, apesar de o município apresentar um déficit de 226 policiais civis e a necessidade da reestruturar a corporação, conforme já anunciado pelo próprio novo Governo de Minas.

Já a Polícia Militar, por meio de sua assessoria de comunicação, informou que, todas as vezes em que existe um delito que se sobressai na rotina da sociedade, como nos casos de ontem, as estratégias são reavaliadas para que a normalidade seja estabelecida. A PM também enxerga que as ações e as estratégias, em relação à prevenção de homicídios, vêm sendo adotadas por meio das unidades corresponsáveis, 2º e 27º Batalhões da Polícia Militar, procedendo, assim, a intensificação de patrulhamento em áreas específicas e a atuação da Patrulha de Prevenção de Homicídios nos casos pontuais.

Cenário de execução em campo de futebol

No caso do crime ocorrido no Jardim Cachoeira, o corpo foi encontrado às margens de um campo de futebol, na Rua B, um local ermo e sem iluminação pública. Para a Polícia Militar, um cenário perfeito para uma execução. A vítima Júnior Tavares Aleixo foi reconhecida pela mãe e, segundo a perícia da Polícia Civil, o jovem teria morrido há cerca de seis horas antes da localização do corpo, por volta das 7h. De acordo com informação da PM, Júnior, que era morador do Bairro Jardim Natal, já era conhecido do meio policial. Segundo o cabo da 269ª Companhia da Polícia Militar, Israel Messias de Souza, o morto já tinha sido alvo de uma tentativa de homicídio no passado, no bairro em que morava, quando foi baleado na testa e sobreviveu. Ainda de acordo com o policial, a mãe da vítima, que é moradora do Jardim Cachoeira, contou que o filho foi visto pela última vez na noite de terça-feira, quando saiu de casa. Ela teria relatado que o jovem já havia recebido ameaças de morte e era dependente químico e que foi passar a noite da casa dela, porque, na manhã seguinte, seria internado em uma clínica para recuperação. A mulher não foi encontrada pela Tribuna para falar sobre o crime.

Na vizinhança, o medo estava estampado nos rostos dos moradores que afirmaram não ter ouvido disparos de arma de fogo durante a madrugada. Entretanto, reclamaram que o ponto onde o corpo foi encontrado é perigoso, uma vez que, além de mato alto, o lugar não conta com iluminação pública e serve para descarte irregular de lixo. “Moro aqui há cinco anos, e sempre foi assim. Estamos em meio a um matagal e à escuridão, o que torna o lugar arriscado para quem chega em casa tarde. Queríamos que as autoridades dessem mais atenção para nossa comunidade”, afirmou uma moradora, que preferiu não ser identificada. Sobre o homicídio, a PM não apresentou motivação. O caso será investigado pela Delegacia Especializada em Homicídios. Testemunhas do crime já apontaram alguns suspeitos, que serão investigados. O corpo foi recolhido e encaminhado ao IML.

Discussão termina em morte

Já em Benfica, Édipo Marconi Dias Correia, 27 anos, sofreu dois golpes de faca no peito depois de ser perseguido por dois homens. De acordo com o boletim de ocorrência, uma testemunha relatou que Édipo, durante a madrugada, encontrava-se próximo a um grupo de usuários de droga, quando houve uma discussão. Depois disso, a vítima saiu correndo e foi seguida por uma dupla até a porta de sua residência. Porém, o rapaz caiu, foi alcançado pelos perseguidores, e um deles desferiu as facadas. Édipo ainda foi socorrido pelos familiares até a UPA Norte, onde chegou sem vida.

Os suspeitos foram identificados, e a PM iniciou rastreamento pela região. Um deles, de 26 anos, foi localizado e negou estar no momento do crime, mas que as facadas foram desferidas pelo outro comparsa, de 37 anos. Os militares se dirigiram até a residência desse envolvido apontado, mas ele não foi encontrado. Os policiais foram informados por parentes que o suspeito chegou em casa na Vila Esperança, por volta das 5h, assustado e pediu para que a porta não fosse aberta para ninguém. Todavia, ele saiu novamente e não retornou. A PM realizou novo rastreamento, mas não localizou o suspeito. Já o primeiro suspeito foi preso em flagrante e conduzido para a delegacia de Santa Terezinha. O delegado titular da Especializada em Homicídios, Rodrigo Rolli, afirmou ontem que abriu inquérito para apurar os dois crimes e que já tem a identificação dos suspeitos de ambos os casos. Na tarde de ontem, o homem de 26 anos teve o flagrante confirmado pelo homicídio em Benfica e seria encaminhado para o Ceresp.

Delegado vai ouvir mais 4 em caso Matheus Goldoni

O delegado Rodrigo Rolli informou que amanhã serão ouvidas quatro pessoas no caso da morte do jovem Matheus Goldoni, encontrado sem vida no dia 17 de novembro do ano passado. Rolli ainda afirmou que já recebeu o laudo do médico legista que confirmou que a lesão no tórax da vítima foi causada por um instrumento contundente. Entretanto, o laudo não tem condições de apontar qual seria o instrumento utilizado. O delegado explicou que uma lesão provocada de forma contundente é aquela resultante de um impacto. Segundo o policial, até um soco pode ter levado a isso. Agora, ele aguarda os resultados dos laudos toxicológico e das vísceras da vítima e ainda das imagens das câmeras de segurança que foram enviadas para análise em Belo Horizonte.

Segundo o inquérito, Matheus teria se envolvido em uma briga na casa de shows Privilège, no Bairro São Pedro, na Cidade Alta, sendo colocado para fora por seguranças. O corpo só foi localizado dentro do curso d’água do Vale do Ipê, região central, no final da manhã da segunda-feira, 19 de novembro, cerca de 30 horas após o desaparecimento do rapaz.