Tribuna integra curso para jornalistas em áreas de conflito
Reportagem especial conta os bastidores do treinamento de jornalistas e assessores para atuação em área de conflito
Entre os dias 1º e 5 de setembro, as Forças Armadas abriram as portas para jornalistas de todo o país. No total de 31 repórteres e assessores experimentaram, em versão condensada, o vocabulário da guerra: instruções de primeiros socorros, contato com gás lacrimogêneo, caminhadas por áreas minadas, simulações de combate e palestras. No exercício, entre tiros de fuzil – sem projétil, somente com pólvora e ordens de comando, a imprensa era convocada a encarnar seu papel testemunhal em meio a imagens do impacto físico da bala. Nesta reportagem especial, a Tribuna revela os bastidores do curso, realizado no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (Ccopab), na Vila Militar, no Rio de Janeiro, e a conversa com Artur Romeu, diretor para América Latina da Repórteres Sem Fronteiras, ONG que busca a liberdade de informar e ser informado.

Estágio para imprensa atuar em áreas de conflito
Encarregado do aprimoramento de militares e civis brasileiros, o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil atua desde 2010 com papel central em missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Dentre as capacitações que colocam a instituição como referência na qualificação de profissionais, se insere o estágio para jornalistas e assessores para atuar em áreas de conflito. Com aulas teóricas seguidas de prática, os jornalistas são preparados tanto para atuar na prevenção de riscos quanto para lidar com situações extremas, quando a própria segurança, e a da equipe, pode depender da aplicação de um torniquete em menos de 20 segundos. O curso teve como pontapé a realização de um Briefing de Segurança. A exposição se tornou um laboratório onde os jornalistas praticaram técnicas de salvamento essenciais: Reanimação Cardiopulmonar (RCP), manobra de Heimlich e procedimentos mais extremos como tamponamento.
Os jornalistas tiveram contato também com uma das áreas em que o país é referência: a desminagem. A prática consiste em mapear e remover minas de territórios que um dia foram palco de conflitos. Mesmo após o fim desses confrontos, muitos locais ainda guardam explosivos abandonados, capazes de transformar o solo em armadilhas letais – mantendo campos inteiros minados.

A atividade prática consistiu em andar por um território de mata e vegetação rasteira onde explosivos – esses, não letais, mas que perpetuavam o barulho e a fumaça, estavam camuflados. O objetivo era aplicar as instruções passadas e, claro, não pisar nas minas. Ainda na esteira das atividades em campo, houve progressão em área de alto risco – em que os jornalistas tinham que subir uma “favela” fictícia, usada para treinamento dos militares, se desviando de tiros e se protegendo entre vielas da edificação.
Para o coordenador do estágio, coronel Fernando Moleta, o trabalho desenvolvido por Ccopab junto aos jornalistas fita o preparo físico e psicológico, de acordo com o ambiente e a situação em que os profissionais da imprensa podem se deparar. “Eu creio que a violência ao jornalistas não é algo de agora, mas que tem aumentado. Talvez por questões políticas e ideológicas, os jornalistas têm sido vistos por algum dos lados como não amigáveis, se tornando alvo – algo que não deveria ser assim, uma vez que entendemos o trabalho do jornalista de informar a população.”
Integração com outras instituições
Sobre a estrutura do estágio, Moleta explica que “a ideia inicial é passar o máximo de conteúdo, com palestrantes de alto nível”. Ele acrescenta que meios importantes foram empregados como viaturas blindadas e aeronaves. Entre os palestrantes, estiveram presentes o coronel André Luiz de Souza Batista, ex-comandante do Comando de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar do Rio, a repórter da Record Rio Anabel Reis – que cobre a violência na cidade carioca e o jornalista Luiz Kawaguti, atualmente editor de política da Gazeta do Povo. Kawaguti cobriu o início da guerra na Ucrânia.
Os suportes como helicóptero e tanque, citados pelo coronel, contaram com a colaboração do comando de aviação do Exército e da 9ª Brigada de Infantaria Mecanizada (blindados). Na edição deste ano, o estágio contou com o maior investimento já feito, com uma alocação de recursos que refletiram na ampla infraestrutura oferecida. “Tudo foi pensado para que vocês tivessem um pacote com muita informação no tempo que a gente tem, que são cinco dias”, finalizou Moleta.
O lema “Integration”, que orienta o Ccopab, ultrapassou o caráter de simples brado e se materializou na articulação entre diferentes instituições para que o estágio ocorresse da forma que foi pensado. Participaram do treinamento a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, o Corpo de Bombeiros da capital fluminense e outras brigadas do Exército, como a Escola de Instrução Especializada e a Brigada de Infantaria Paraquedista.
Inclusive, foi na edificação de treinamento em ambientes confinados, do Corpo de Bombeiros do estado do Rio de Janeiro, que uma das atividades práticas mais desafiadoras ocorreu. No escuro, engatinhando e em meio a fumaça, os jornalistas passaram por um labirinto – de apavorar qualquer claustrofóbico. Ainda na linha dos exercícios que colocaram à prova a resistência dos profissionais da imprensa, está a visita à Instalação de Treinamento (DQBRN), referente a defesa de ameaças químicas, biológicas, radiológicas e nucleares.

Antecedida por uma aula sobre o uso de armas químicas em conflitos e suas reações no corpo humano, a etapa seguinte foi usar o equipamento de proteção individual – macacão, luvas, botas e máscara para entrar na instalação de treinamento. A sala, sem janelas, tinha por todo o chão clorobenzilideno malononitrila, o conhecido “gás lacrimogêneo” em pó. O agente químico causa efeitos temporários como lacrimejamento, tosse, dificuldade para respirar e queimação nos olhos. No interior daquele cômodo, jornalistas e demais profissionais da imprensa foram orientados a retirar a máscara – instante em que a ardência tomou as vias aéreas e obrigou os olhos a se fecharem de forma involuntária. Depois de minutos que se arrastaram, os efeitos também deixaram de subjugar o corpo, permitindo que o grupo retomasse o fôlego. Vale destacar que todas as atividades foram acompanhadas de uma equipe médica e da tenente Camila Alves, psicóloga do Ccopab.

Treinamento e proteção para jornalistas
Em diferentes partes do mundo, iniciativas como a do Ccopab ocorrem para treinar e conscientizar sobre a atuação em ambientes hostis. Comumente esses treinamentos são chamados de HEAT (Hostile Environment Awareness Training). A Repórteres Sem Fronteiras, organização da qual faz parte Artur Romeu, 36 anos, também promove parcerias para oferecer cursos nesse formato – embora ainda não no Brasil. Nesse contexto, a iniciativa do núcleo ganha relevância ao garantir acesso e formação a jornalistas brasileiros que atuam em zonas de conflito, tanto no país quanto no exterior.
“Existem situações delicadas no Brasil, como manifestações reprimidas, coberturas envolvendo crime organizado e operações em fronteiras, que não chegam a ser zonas de guerra, mas exigem preparo específico. Quanto mais iniciativas desse tipo existirem, melhor. Embora as Forças Armadas possam contribuir, elas não deveriam ser as únicas responsáveis, já que a perspectiva militar oferece um viés específico para esse treinamento”, observa Romeu.
Ele explica que é importante a elaboração de políticas públicas governamentais que mirem a proteção e prevenção à violência aos jornalistas, bem como ao combate a impunidade. Esses três eixos – prevenção, proteção e responsabilização – compõem um tripé reconhecido tanto no sistema interamericano de direitos humanos quanto nos padrões internacionais. No contexto da violência contra jornalistas, tais elementos estabelecem obrigações concretas para os Estados e que carecem de atenção no país.
“No Brasil, existe um programa de proteção a defensores de direitos humanos, comunicadores e ambientalistas, criado por decreto e ainda frágil institucionalmente. Hoje, cerca de 780 pessoas são beneficiadas, incluindo alguns jornalistas.” Romeu observa que, na maioria das situações, há acompanhamento à distância para verificar a segurança da pessoa, com ligações periódicas para avaliar ameaças. Em alguns casos, são instalados equipamentos de segurança e estabelecida uma comunicação mais direta com autoridades locais. Porém é necessário que essas medidas sejam institucionalizadas, conforme acena Romeu.
Como estratégia de prevenção, o Governo brasileiro criou o Observatório Nacional de Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, dentro do Ministério da Justiça. O Observatório analisa denúncias e produz respostas a tendências de violações, não apenas casos isolados. Também há propostas para criação de um protocolo de investigação de crimes contra jornalistas, estabelecendo padrões para a atuação policial e aplicação pelos Ministérios Públicos estaduais.
Apesar das limitações de orçamento e vontade política, explica Romeu, há uma conversa institucional sobre a importância da proteção e valorização da imprensa. Na América Latina, ataques à imprensa são frequentemente usados como estratégia de mobilização eleitoral, e discursos hostis de chefes de Estado aumentam a hostilidade contra jornalistas. Assim, o treinamento promovido pelas Forças Armadas atua, em certa medida, como política de Estado, contribuindo para a valorização do trabalho jornalístico e observando que a imprensa não é um obstáculo.
A violência à imprensa na América Latina
Com mais de 15 anos de trabalho em organizações da sociedade civil dedicadas à defesa do jornalismo, Artur Romeu explica que a violência a profissionais de imprensa tanto no Brasil quanto na América Latina possui suas próprias especificidades – ainda que alguns aspectos se mantenham inerentes quando falamos do jornalismo de guerra e de cobertura de conflitos: o risco e a possibilidade de a sociedade ter acesso a testemunhos que rompam o discurso oficial e exponham violações de direitos humanos.
Sobre as particularidades do exercício da profissão na América Latina, Romeu explica que “a região é uma das que mais registra assassinatos de jornalistas no mundo. Só que as circunstâncias são muito diferentes. O padrão mais frequente é o ataque aos jornalistas que cobrem política local, em pequenas e médias cidades, geralmente fora dos grandes centros”. Nesses casos, quando um jornalista é assassinado, geralmente há um autor intelectual que se sente incomodado com a cobertura e contrata um executor.
“Muitas vezes, esses assassinatos ocorrem na residência do jornalista e em locais em que ele frequenta. São execuções deliberadas e planejadas, diferentes do que acontece em áreas de guerra, onde jornalistas podem ser alvejados por estarem na linha de frente, mas nem sempre são o alvo principal”, observa o jornalista e diretor. Ele acrescenta um exemplo atual para pensar nas dimensões e manifestações da violência à imprensa. “Se na Ucrânia, por exemplo, jornalistas morreram em linha de frente ou em bombardeios, aqui eles são perseguidos e mortos de forma deliberada”, diz.
Jornalismo de guerra: entre imaginários e narrativas
“Toda guerra é também uma guerra de informação e de desinformação”, afirma Romeu, abrindo a discussão sobre o campo de disputa simbólica na cobertura de conflitos. O jornalismo, responsável por contribuir na construção da opinião pública, cumpre o papel de romper com o que o diretor da Repórter Sem Fronteiras chama de “monopólio das versões”. Ele explica que as partes envolvidas em uma guerra/conflito produzem, sistematicamente, discursos e versões sobre o que está acontecendo. Essas narrativas, por sua vez, aparecem ancoradas aos seus próprios interesses e buscam legitimar atuações militares.
Um exemplo disso foi a Guerra do Vietnã, que ilustra como guerras, conflitos e mesmo debates sobre segurança pública tendem a ser percebidos de forma maniqueísta, como uma luta do bem combatendo o mal. “O heroísmo é muito imaginário, porque as forças armadas trabalham para mobilizar suas tropas e dar sentido à presença militar. A presença da imprensa em situações concretas ajuda a romper esse imaginário, funcionando como testemunho que contesta as narrativas construídas em uma guerra de desinformação”, explica Romeu.
“O jornalismo, nesse contexto, é fundamental para a produção da opinião pública sobre o que uma guerra representa, e os jornalistas precisam estar atentos aos riscos discursivos que enfrentam”, expõe o diretor. Ele destaca a importância do fotojornalismo, que expôs ao público as imagens das atrocidades cometidas durante a Guerra do Vietnã, onde a percepção da opinião pública mudou, desmontando o imaginário heroico que, até então, era promovido pelos Estados Unidos.
A imprensa, por sua vez, também segue tendo seus próprios desafios ao narrar a violência: embora o trabalho que vem sendo desenvolvido seja essencial, muitas vezes pode “reforçar preconceitos e fetichizar o sofrimento”. Segundo Romeu, programas com abordagem essencialmente policialesca acabam funcionando como uma “produção massiva de violações de direitos humanos pela própria mídia”. Outro ponto destacado por ele é que, ao menos no país, existe a tendência de o trabalho jornalístico refletir, muitas vezes, o ponto de vista somente das forças de segurança, que atuam como fontes oficiais e dispõem de assessoria especializada para lidar com a imprensa. Esse enfoque pode levar à desconsideração das perspectivas dos moradores ou demais atores, criando um viés na cobertura de favelas, historicamente associadas à violência e aos estigmas – quando, na verdade, esses espaços são preenchidos por pessoas e múltiplas vivências.
Tópicos: atuação em área de conflito / imprensa / jornalista









