Investigação mira casal de policiais da reserva e filha por estelionato e falsidade ideológica em Juiz de Fora

Promessa de investimentos e uso indevido de dados teriam causado prejuízos financeiros a diversas vítimas; investigação corre sob sigilo


Por Pâmela Costa

21/01/2026 às 14h43

Um casal de policiais militares da reserva, lotados no 2º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Juiz de Fora, e a filha, civil, são alvo de investigação que apura crimes de estelionato, falsidade ideológica e delitos contra o patrimônio e a fé pública. O caso tramita em segredo de Justiça.

Segundo apuração, as vítimas teriam fornecido dados pessoais à filha do casal para participar de supostas operações de investimento. Depois, eram induzidas a validar informações, inclusive por meio de reconhecimento facial. Com o tempo, passaram a identificar movimentações não autorizadas, como emissão de cartões de crédito, abertura de contas e contratação de empréstimos consignados, com descontos em folha, além do acúmulo de dívidas. As primeiras denúncias surgiram a partir desses registros.

Os prejuízos atribuídos à filha também passaram a ser relacionados à conduta dos pais. Conforme os relatos, por serem policiais e gozarem de credibilidade, eles teriam apresentado amigos e ex-colegas de corporação às operações financeiras, descritas como oportunidade de retorno.

Testemunhas relatam prejuízos

A Tribuna ouviu pessoas lesadas e pessoas próximas das vítimas. Todas pediram para não serem identificadas. Entre os casos está o de um idoso de 70 anos com alzheimer que não conseguiu sacar o dinheiro da aposentadoria após um empréstimo ter sido feito em seu nome. Cuidado pela mãe, de 96 anos, ele teve comprometidos os recursos destinados à compra de medicamentos.

“Ao buscar mais documentos e informações, foi identificado que o empréstimo teve a participação da filha e da militar, irmã do idoso com deficiência. Nessa mesma conta digital também foram localizados transações em nome do sargento”, conta um familiar da vítima. Confrontados, os suspeitos teriam afirmado que a conta foi clonada.

Outra vítima relatou conhecer os oficiais da Polícia Militar há anos e disse ter sido convidada por eles para um grupo de investimentos. A pessoa afirma que foi informada sobre um cadastro em uma plataforma, mas declara ter descoberto depois que a aplicação não existiu.

“Foram feitas selfies minhas. Com o passar dos dias eles me ligaram, pedindo novas selfies”, explica. A vítima diz que, posteriormente, encontrou empréstimos consignados em seu nome, abertura de contas em diferentes bancos e a utilização do limite de cartões de crédito emitidos após as contratações, sem autorização.

Uma terceira vítima relatou ter presenciado a atuação da filha do casal ao usar reconhecimento facial para acessar dados. A vítima, segundo a fonte, era sua própria pastora. O Ministério Público informou que ainda não está definido o número de possíveis vítimas.

Advogado de suspeitos se pronuncia

Procurado pela Tribuna, o advogado da família, Marcos Nascimento, afirmou que a investigação está em andamento e em fase que classificou como embrionária. “Sem denúncia oferecida, sem formação de culpa e sem qualquer juízo conclusivo por parte das autoridades competentes”. Ele disse ainda que vai solicitar que o caso, no momento disponível para consulta pública, volte ao sigilo “diante do risco concreto de exposição indevida e de prejuízos irreversíveis”.

As vítimas, por outro lado, relatam receio de esquecimento do caso e apontam preocupação com a demora na tramitação judicial. Entre elas, há policiais militares da ativa e familiares dos próprios investigados.

Após apuração interna da PM, caso é enviado à Justiça Comum 

Em nota, a Polícia Militar informou que a suspeita de envolvimento dos dois policiais, apontados como mediadores de ações financeiras irregulares executadas pela filha, foi inicialmente apurada internamente. “Após o Comando tomar ciência do ocorrido foi instaurado o Inquérito Policial Militar (IPM) o qual foi remetido para a Justiça Militar Estadual.” A corporação informou que, nessa fase, o procedimento também foi encaminhado ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

Depois, a Justiça Militar de Belo Horizonte entendeu que não era responsável pelo julgamento e remeteu o caso à Justiça Comum. O processo tramita atualmente na Comarca de Juiz de Fora, conforme informou a PM. Diante do declínio de competência, o MPMG encaminhou o caso à Delegacia de Polícia Civil de Juiz de Fora em 24 de novembro.

A Polícia Civil abriu novo inquérito, com prazo de 60 dias para conclusão. O Ministério Público requisitou diligências complementares e informou que terá 15 dias, ao final da investigação, para decidir se os suspeitos serão denunciados, se o procedimento será arquivado ou se serão solicitadas novas diligências.

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) informou que o processo segue em tramitação, com última movimentação em 18 de dezembro, quando documentos foram juntados aos autos. Por causa do sigilo decretado pelo Judiciário, a Polícia Civil não detalhou em que fase está o inquérito. Em nota, orientou que qualquer cidadão que se considere lesado procure a delegacia mais próxima, levando “provas e/ou documentos que poderão subsidiar a investigação, para o devido registro dos fatos e proposição da representação criminal, a fim de que as medidas legais cabíveis sejam adotadas”.

 

Tópicos: juiz de fora / MPMG / pcmg / PMMG / TJMG

Os comentários nas postagens e os conteúdos dos colunistas não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir comentários que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.