Com obras anunciadas, Três Moinhos não tem previsão para demolições em áreas de risco em Juiz de Fora
Bairro segue interditado e sem definição sobre o futuro da área; moradores buscam novas casas enquanto parte da população ainda resiste em deixar o local
Quase seis meses após a tragédia que atingiu e levou à interdição de todo o Bairro Três Moinhos, na região Leste de Juiz de Fora, as únicas intervenções anunciadas até o momento para a área são obras de contenção de encostas nas ruas Maria Florice dos Santos e João Luzia. O anúncio foi feito durante visita dos ministros do Governo Federal ao município, na última quinta-feira (13). Ainda não há, porém, um planejamento definido para o bairro como um todo.
Em abril, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) havia anunciado que as casas do Três Moinhos em área de risco seriam demolidas e que o local receberia um projeto de reflorestamento. No entanto, perguntada pela Tribuna de Minas, a administração municipal não informou qual é o planejamento para o bairro, nem apresentou um cronograma de intervenções.
“O bairro Três Moinhos foi evacuado de forma permanente em razão de condições geológicas que inviabilizam a permanência segura no local”, afirmou a PJF em resposta ao questionamento. Enquanto isso, moradores que precisaram deixar suas casas começaram, no mês de julho, a procurar novos imóveis após aderirem ao programa Casa Assistida, do Governo Federal.
Casas abandonadas, bairro em ruínas
Em visita ao Três Moinhos, a equipe de reportagem da Tribuna de Minas observou que as ruas Vicente Paulo Bacelar e Manoel Clemente estavam vazias. Muitas casas pareciam abandonadas, tinham janelas e portas fechadas. Algumas estavam em ruínas ou danificadas, havia também acúmulo de barro e de entulho. Em um prédio de três andares, uma família retirava as janelas de ferro e os vidros – o que ainda restava da antiga moradia.
Uma das poucas pessoas encontradas no bairro foi o aposentado Sebastião Donato, de 74 anos, que visita sua casa toda semana. Mesmo que a construção não tenha sido atingida, a área considerada de alto risco foi interditada pela Defesa Civil e já não é mais abastecida com água. Sua casa ainda guarda alguns pertences, mas ninguém mora mais ali.
Desde março, a família de Sebastião, que recebeu o Auxílio Reconstrução, no valor de R$7.300, se mudou para um apartamento alugado no Bandeirantes. Antes tinham sido acolhidos na casa de parentes. No mês de julho, aderiram ao programa Casa Assistida.
“Estou procurando um apartamento, porque não dá para comprar uma casa com o dinheiro que estão dando. Mas estou achando uns apartamentos mais ou menos por aí”, relata.
Sentado na escada, ele abaixa o som do rádio para contar sobre a história daquela casa, construída nos anos 70, quando trabalhava como motorista, e onde viveu por cinquenta anos. Foi ali que sua família morou, onde se casou e criou os dois filhos. Uma casa espaçosa com varanda e terraço. Suas visitas esporádicas, têm como objetivo evitar que algum ladrão entre na casa. “Fizeram uma limpa aí fora”, diz.
Como conta Sebastião, quando chegou ao bairro ainda não tinha “nada”, ele viu o bairro crescer, gerações nascerem e crescerem ali.
“A melhor coisa que tem é morar num lugar que fica todo mundo perto, você conhece todo mundo. Além de perder a casa, os bens materiais, perdemos a convivência, o laço com as pessoas. Então tem que fazer o quê? Esquecer daqui”, reflete.
O aposentado conta que, infelizmente, algumas pessoas se recusam a deixar suas casas. Mesmo sem abastecimento da Cesama, buscam água em uma mina nas proximidades e ainda tentam “levar a vida” no Três Moinhos. Ele também conta que já houve deslizamentos no bairro, era algo até “comum”. A mesma localidade onde duas crianças foram soterradas neste ano, também foi cenário de outra tragédia.
Mesmo com interdição, alguns moradores permanecem no bairro
O Três Moinhos está entre os bairros de Juiz de Fora que registraram maior volume de movimentação de massa no final de fevereiro deste ano, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Logo após as fortes chuvas e os deslizamentos que atingiram o bairro, a Defesa Civil decretou evacuação preventiva da área.
Somando os bairros Três Moinhos, Paineiras, Vila Ideal e Esplanada, um total de 600 famílias precisou deixar suas casas em razão da tragédia. Ao todo, 66 pessoas morreram em Juiz de Fora, entre elas moradores do Três Moinhos.
Poucos dias depois, moradores se queixavam de falta de informação e orientação sobre abrigos, cadastramento para auxílio-moradia ou acompanhamento por equipes sociais. Algumas famílias foram acolhidas na casa de parentes, outras em escolas que serviram de abrigo, enquanto outra parte permaneceu nos imóveis interditados por falta de alternativa imediata.
Construída no Bairro Três Moinhos há 34 anos, a Escola Municipal Antônio Faustino da Silva foi interditada pela Defesa Civil em março. Os alunos foram realocados para outras unidades escolares do município. Demandada pela Tribuna de Minas, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) não informou se há algum planejamento para a escola.
Em abril, quase dois meses após os deslizamentos, o abastecimento de água foi cortado pela Cesama, a pedido da Defesa Civil, pois a área deveria ter sido evacuada após interdição para uso residencial. À época, os proprietários que continuavam em suas casas afirmaram não terem sido avisados sobre a medida e se manifestaram contra o corte, realizado sob a presença da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e da Guarda Municipal.
Ainda naquele mês, muitos moradores permaneciam em suas casas, apesar da interdição e da suspensão do abastecimento de água, recorrendo à água de uma mina nas proximidades. Em meio à falta de orientações sobre a interdição dos imóveis, o acesso aos auxílios e o restabelecimento do serviço básico, os moradores chegaram a interromper o trânsito na Rua Diva Garcia para reivindicar respostas do poder público.
‘Alívio’ não chegou a tempo
Em perspectiva, o Três Moinhos carrega um histórico de obras e promessas, sem resultar em planejamento para a área. Conforme matéria publicada no site da PJF em março de 2017, naquele momento, uma série de obras de contenção estavam sendo realizadas na Rua Maria Florice, no Bairro Três Moinhos. Segundo estimativa, 60% dos trabalhos já estavam concluídos. Ainda no texto, a administração municipal aponta que, há alguns anos, a via era “cenário de deslizamentos”, mas, com as intervenções executadas, os 11.667 moradores do entorno poderiam ficar “aliviados”. Na época, o valor investido nas obras chegou a quase R$ 2 milhões.
Ainda em 2017, a Prefeitura afirmou que o bairro tinha sido um dos contemplados com “o maior volume de obras de contenção da história de Juiz de Fora”. Cerca de R$55 milhões seriam destinados para as ruas Maria Florice e José de Castro Ribeiro, no Três Moinhos, e para a rua Leonel Jaguaribe, no Alto Grajaú, bairro vizinho da região Leste.
PJF não responde a questões levantadas pela Tribuna de Minas
A Tribuna de Minas contactou a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) para apurar sobre quantos imóveis foram interditados no Três Moinhos, quantos moradores do bairro são elegíveis ao Compra Assistida e se proprietários de casas que não foram interditadas também seriam incluídos no programa.
A reportagem perguntou ainda se a administração municipal tem alguma estratégia para atender moradores que se recusam a deixar suas casas, mesmo sem abastecimento de água. A PJF não respondeu a nenhum dos questionamentos até a edição desta matéria.














