Flanelinhas migram para bairros

No Manoel Honório, com ampliação da Área Azul, guardadores atuam no alto da Rua dos Inconfidentes
A expansão da Área Azul em vias centrais e nos bairros Granbery, São Mateus e Manoel Honório está levando os flanelinhas a buscarem novos territórios. Com a ocupação das ruas pelos monitores de estacionamento rotativo, os guardadores estão migrando para outras vias ou mesmo para pontos mais periféricos, onde há aglomerações de carros, como casas de festas, portas de faculdades, colégios, igrejas, estabelecimentos bancários, entre outros. Até mesmo áreas mais residenciais, como Cascatinha e Bairu, já contam com a presença ostensiva dos flanelinhas.
No Cascatinha, Zona Sul, um guardador atua diariamente na porta de um supermercado, após as 18h. Aproveitando os dias de culto espírita na Rua Itamar Soares de Oliveira, no mesmo bairro, outros flanelinhas exigem quantia fixa para os motoristas que querem parar no entorno. O mesmo acontece no Granbery, na Rua Sampaio, próximo a outra casa espírita. Entre Manoel Honório e Bairu, já na região Nordeste, com a ampliação das vagas de estacionamento rotativo na região, os flanelinhas passaram a atuar na parte mais alta. Quem mora na Rua dos Inconfidentes, por exemplo, precisa se submeter às determinações dos guardadores, que, muitas vezes, chegam a orientar os motoristas a cometerem infrações, como parar em porta de garagem ou próximo ao cruzamento. Em São Pedro, Cidade Alta, a grande presença de casas de festas também abriu novo nicho para os guardadores clandestinos, como no passado aconteceu no Alto dos Passos, bairro que tornou-se característico pela concentração de bares e dos flanelinhas. Do mesmo modo que fizeram na Zona Sul, na Cidade Alta, eles também se intitulam donos das ruas e cobram, muitas vezes de forma coercitiva, pela utilização do espaço público.
Se por um lado a expansão das vagas rotativas em algumas áreas está forçando os flanelinhas a procurarem territórios livres, em outras, nem mesmo a implementação da Área Azul conseguiu por fim à clandestinidade. Na Rua São Mateus, entre Chanceler Oswaldo Aranha e Carlos Chagas, no São Mateus, eles atuam paralelamente com os monitores da Área Azul, o que já resultou em desentendimentos e ameaças. Comerciantes relatam a insegurança. "Até os meninos da Área Azul foram ameaçados por eles. Muitos clientes também se sentem intimidados, e nós, ficamos receosos", contou uma vendedora, 30 anos. A proprietária de um açougue cobra ação: "A implantação da Área Azul não resolveu o problema e até piorou para nós comerciantes, porque muitos motoristas param o carro aqui por horas, o que impede a rotatividade. Além do mais, não há fiscalização. Estamos cansados de denunciar violência e a falta de policiamento na área. Em três meses, o meu estabelecimento foi alvo de ladrões quatro vezes."
Intimidação
No Centro, também é comum a intimidação dos flanelinhas mesmo quando o horário do rotativo ainda está em vigor. "Parei próximo à Igreja São Sebastião, em dia de semana e pela manhã, e fui intimidada por um guardador na parte alta da Rua Marechal Deodoro. Ele me disse que o monitor não estava, e que ele mesmo estava olhando", afirmou uma jornalista, 25. Uma funcionária pública, 31, também já foi abordada no mesmo ponto. "Ele já veio me intimidando, dizendo que só poderia deixar o carro ali se fosse lavar. Respondi que eu não queria que lavasse, e ele encrencou. Tive que deixar no estacionamento e, quando retornei, ele ainda veio tirar satisfação. No São Pedro, outra vez, também fui abordada da mesma forma, e o guardador ainda me cobrou antecipado. Disse que não daria o dinheiro, e ele me respondeu: ‘você quem sabe, mas marquei o seu carro.’", relatou a funcionária pública.
Indefinição sobre ação de guardadores se arrasta há 2 anos
Alternativas para a atuação dos guardadores de veículo foram debatidas em 2010 e 2011 na Câmara Municipal, por uma comissão formada por diversos órgãos públicos, mas as discussões estão paradas há um ano, aguardando posicionamento do Executivo, que ficou responsável pela definição da situação. Os dois projetos apresentados no plenário nos últimos anos preveem o encaminhamento dos guardadores para programas de inclusão social. Os textos, contudo, divergem num ponto: enquanto um veda de imediato o exercício da atividade, o outro permite que o Governo a regulamente dentro de áreas de especial interesse urbanístico.
Para o vereador João Evangelista de Almeida (João do Joaninho- DEM), um dos que esteve à frente das discussões da comissão, "a situação fugiu do controle". Ele aguarda para essa semana um encontro com o prefeito Custódio Mattos (PSDB) para discutir a alternativa que solucionaria o problema. "Se nada for definido, voltarei a colocar meu projeto antigo em discussão na Câmara."
Nas ruas
Até entre os flanelinhas, alguns reconhecem que colegas cometem extorsão nas vias da cidade. "A gente sabe que é crime cobrar preço fixo. É extorsão, dá cadeia. Eu fico aqui e peço para olhar o carro. As pessoas dão aquilo que podem. Não exijo nada, mas tem uns que cobram sim", conta W., 29, que atua na Rua São Mateus, no bairro de mesmo nome.
Na Rua Manoel Bernardino, mesmo bairro, outro guardador de veículos confirma haver abusos. "Estou neste local há mais de 20 anos, mas aparecem muitos aqui que querem o espaço, que querem o dinheiro porque vão usar pedra de crack. Mas é injusto uns pagarem pelas atitudes dos outros. Todo mundo aqui já me conhece e sabe que até trago segurança para o local, mas há sim os que desrespeitam. O ideal seria que houvesse um cadastramento de quem trabalha direito, mas a Prefeitura nunca fez isso. Teria a Área Azul de dia, e trabalharíamos à noite, sem sofrer pressão ou preconceito", defende F., 37.
Cordialidade
Já na região central, guardador e motoristas convivem bem na área que fica no entorno do prédio da Justiça Federal, nas ruas Leopoldo Schimitz e Howian. No local, são os condutores que vão até o flanelinha para levar o dinheiro. "Estou aqui há dois anos e meio. Comecei a tomar conta e criei um vínculo com todos os motoristas. Eles dão o que têm condição, não cobro nada, mas vêm até mim entregar o dinheiro. Espero todos os carros irem embora para deixar o local. Encaro como uma profissão, com horário de trabalho e responsabilidade", conta F., 30. Quem costuma deixar o carro no local elogia a atitude. "Nunca me exigiu nada. Quando não tenho, ele diz que vai olhar da mesma forma. Já tive problemas em outros locais, até de quebrarem vidro do meu carro, mas aqui não", relata a técnica em eletroencefalograma, Carmen Lúcia Lameira, 50.
PM deve ser acionada em caso de conflito
Na Secretaria de Assistência Social (SAS), a informação é de que têm sido promovidas ações para encaminhamento dos flanelinhas aos programas socioassistenciais do município, de acordo com o perfil, as necessidades e o interesse. Os guardadores podem procurar um dos noves Centros de Referência de Assistência Social (Cras) para possíveis direcionamentos.
Já a assessoria da Settra afirma que "a implementação do estacionamento rotativo, além de democratizar o espaço público, visa a inibir a exploração ilegal pelos flanelinhas". Sobre a questão da presença dos guardadores na Rua São Mateus, em área onde há vagas de Área Azul, a Settra garante que "se informou com a empresa responsável pela administração das vagas, que afirmou que orienta os monitores da área a acionarem a PM em situações de conflito, mas que esta não tem sido uma situação recorrente".
Em relação ao problema de rotatividade nas vagas, a Settra informou que está produzindo material informativo de orientação ao usuário. Serão distribuídos panfletos nos pontos de venda e pelos monitores, informando não ser permitida a renovação do cartão. Esta prática representa infração de trânsito, com multa de R$ 53,20 e perda de três pontos na carteira.







